O que é uma Doula na Tradição?


escrito por: Tricia em sexta-feira, setembro 05, 2014 às 11:54 PM.

Se buscarmos conhecer a origem e a história da humanidade, certamente encontraremos registros de tempos onde era natural que as mulheres compartilhassem os movimentos dos seus ciclos entre elas. Houve tempos em que mulheres apoiavam umas as outras nas fases de menstruação, fertilidade, cuidados com os filhos, sexualidade, cura, e outras tantas habilidades que permeiam a sabedoria feminina. Esses conhecimentos eram transmitidos como um verdadeiro tesouro entre as gerações. E por causa deles muitas mulheres foram perseguidas e torturadas.
O parto considerado um ritual de passagem, um momento sagrado envolvido pelo mistério da vida e da morte, sempre foi especialmente cuidado, pelas mulheres: amigas, irmãs, comadres, mães, avós. Esse cuidado envolvia desde o apoio físico e emocional, até a ajuda nos afazeres domésticos e cuidado com os filhos mais velhos.Tinha a intenção de proporcionar um ambiente tranquilo para que o bebê chegasse em  harmonia e desfrutasse do aconchego e do leite da mãe. Essas mulheres também atendiam as necessidades da parteira que conduzia otrabalho de parto junto da gestante, e assim aprendiam com ela as que tinham o dom para partejar. Todo esse momento sempre esteve protegido pela espiritualidade, através das rezas, danças e cantos. Ervas e plantas eram utilizadas de diversas maneiras, pelas parteiras, mulheres sábias que reconheciam seus poderes.
A evolução da tecnologia afastou cada vez mais as mulheres destes processos naturais, que diante da busca de fazer parte da linha deprodução e consumo crescente, deixou de valorizar as relações inatas da natureza feminina. A inserção da medicina alopática, não poupou a mulher em seus ciclos, e então a menstruação passou a ser um grande problema, a gravidez uma mudança arriscada e o parto um procedimento com intervenções artificiais e cirúrgicas, na maioria das vezes desnecessárias, protocoladas como normas em instituições públicas e privadas, levando a mulher ao desconhecimento sobre o próprio corpo, excluindo o homem da oportunidade de se envolver com a gravidez, parto e amamentação, e o mais importante, considerando o bebê como um ser não portador de sentimentos e sensações.
Neste contexto, onde as habilidades e os ciclos femininos estão submersos dentro das relações de competitividade entre as próprias mulheres, surge a Doula como profissional, atuando com a intenção de preservar a tradição das sabedorias femininas.  A palavra Doula vem do grego e significa “mulher que serve”. Profissionalmente a Doula cuida especialmente da fase do ciclo gestacional, se comprometendo com a ética e o respeito pelas escolhas da gestante,estando disposta a oferecer suporte e apoiar as questões físicas e emocionais femininas e familiares, podendo associar diversas habilidades naturais de seu conhecimento para beneficiar a mulher grávida, o bebê e o casal, estimulando o vínculo familiar, antes, durante e após o parto.
A Doula também poderá apoiar as mulheres na ressignificação de suas fases de menstruação, fertilidade, sexualidade, menopausa e nas mais variadas necessidades que abrange o universo feminino.
A Tradição valoriza toda riqueza cultural que envolve a sabedoria ancestral das parteiras e curandeiras, utilizando dos dons e recursos naturais com gratidão e generosidade. Reconhecendo e honrando as próprias raízes, encontramos um caminho para simplicidade que nos torna parte do mundo e não nos complica enquanto espécie humana.
As intervenções tecnológicas são importantes quando utilizadas com bom senso e o conhecimento cientifico é válido como informação, sendo variável e mutável, representando menor importância diante da essência da sabedoria ancestral.
Para servir com amor e humildade é essencial que a Doula na tradição reconheça seu próprio universo feminino e honre suas próprias raízes, para assim atuar profissionalmente, compreendendo seus limites, buscando se integrar com as escolhas da mulher, sem julgamentos, oferecendo informações seguras e respeitando os demais profissionais envolvidos neste processo. Em frequência com a cooperação, cada um coloca suas habilidades e talentos a serviço de um objetivo comum.
Na natureza tudo tem seu tempo para desabrochar e o papel do ser humano é fornecer condições que permitam que a natureza reine em toda sua grandeza. Uma vez que nos afastamos do que é natural, nos aproximamos do desiquilíbrio social que tanto nos preocupam. Sem alimentar frustrações vamos aprendendo e evoluindo através de linhas escritas pela sabedoria do tempo.

Leidi Leite - Doula na Tradição


Fonte: Mãos da Lua

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Parteira moderna humaniza nascimento


escrito por: Tricia em domingo, janeiro 13, 2008 às 3:30 PM.

*Fabiano Ormaneze / Agência Anhangüera*

O estetoscópio de Pinard - instrumento de madeira criado há mais de 130 anos
para ouvir o coração do bebê no ventre da mãe - resiste ao tempo na casa da
enfermeira Maria Clara Amaral. Mesmo já sem utilizá-lo, ele se tornou um
símbolo do conhecimento antigo, aprimorado com tempo e estudo, com o
objetivo de manter a força feminina. Com mais de 30 anos de profissão, o
trabalho dessa enfermeira é marcado pela luta por partos mais humanizados e
o retorno à época em que se nascia em casa, com a presença de uma parteira e
de algumas outras mulheres que já haviam passado pela experiência de parir.

Maria Clara é obstetriz, uma espécie de "parteira da atualidade". Com curso
superior em enfermagem e habilitação em obstetrícia, profissionais como ela
se dedicam à tarefa de afastar dos hospitais as mulheres em trabalho de
parto, oferecer conforto, amenizar a dor e possibilitar que a chegada de uma
nova vida ao mundo seja uma experiência da qual a mulher é a protagonista.
"Uma cesariana não tem a mesma força que arrepia a gente. É um ato em que a
mulher não sente, se torna passiva diante da ação de um médico. Gravidez não
é doença para ser assunto de hospital", defende. Mãe de dois filhos, Maria
Clara ajuda a promover uma experiência pela qual não pôde passar: suas
gestações foram de risco, motivo que a obrigou à cesárea.

Depois de uma carreira em que realizou uma série de partos domiciliares,
Maria Clara se dedica à formação de novos profissionais. Ela é professora no
curso de enfermagem na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade
Estadual de Campinas
(Unicamp). Na
defesa do parto em casa, a obstetriz também ajuda a diminuir um dos índices
mais alarmantes da saúde no Brasil: a quantidade de cesáreas realizadas
todos os anos representa 90% do número total de partos feitos no País,
quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica como ideal entre 15% e
20%. Sem o interesse de substituir o médico e com a consciência de que, em
casos com complicações, a única saída é apelar para o bisturi, a obstetriz
acompanha os exames feitos pelos médicos e a gravidez desde o início. "A
verdadeira preparação para o parto deve mostrar à mulher que ela é capaz e
afastar dela o medo da dor e do sofrimento, causa de tanta gente não viver a
experiência de dar à luz naturalmente."

*Experiência*

A médica neonatologista Ana Paula Caldas Machado tem três filhos. Na
primeira gestação, há sete anos, ela tentou ter um parto natural num
hospital, mas teve complicações e foi preciso recorrer à cesárea. "Me senti
frustrada e resolvi pesquisar outras formas de entender o parto. De início,
achei que essa história de ter filhos em casa era maluquice, mas resolvi
tentar. Geralmente, os médicos têm pressa e induzem à cesárea, alegando
riscos e desculpas como pouco líquido, bacia pequena, falta de dilatação.
Hoje, sei que não existe mulher que não dilata, há falta de paciência",
enfatiza. Ao engravidar pela segunda vez, Ana Paula contratou uma obstetriz
de São Paulo, Vilma Nischi, para ser a responsável por ajudá-la a trazer ao
mundo a garotinha Lis, hoje com 3 anos.

"Quando submetida à cesárea, a mulher fica completamente dissociada do que
está acontecendo. Você não sente nada. No parto natural, principalmente se
for em casa, a mãe é a dona da situação. Quando ela consegue transpor o
limite da dor, se sente poderosa e realizada como mulher." Se estivesse num
hospital, Ana Paula tem a certeza de que os médicos teriam optado pela
cesariana. Foram quase 30 horas de trabalho de parto, sempre com Vilma ao
seu lado. Para amenizar a dor, entraram as estratégias das obstetrizes e das
doulas, acompanhantes das parturientes (palavra que substitui a tradicional
"paciente", usada por boa parte dos médicos).

"A mulher muda de posição, toma banhos, recebe massagens. Nossa função é
respeitar a intimidade e monitorar se ela ou o bebê correm algum risco e, se
for o caso, correr para o hospital", explica Vilma, que já realizou 128
partos domiciliares desde 2002, a maioria em mulheres com curso superior e
de classe média-alta. Paulistana, ela atua na Capital, em Campinas
e em
Sorocaba.O
custo desse tipo de parto fica em torno de R$ 3 mil, valor próximo ao
cobrado por médicos para uma cesárea, sem as despesas de hospital.

Há dois meses, quando Raul, seu terceiro filho, nasceu, Ana Paula repetiu a
experiência e estava com o bebê nos braços depois de três horas. "O
pós-operatório da cesárea também é muito pior. A mulher precisa cuidar da
cirurgia e do recém-nascido."

*Dor*

Na Holanda, campeã dos partos domiciliares, 35% dos bebês nascem em casa e a
taxa de cesárea é menor que 10%. Por lá, também proliferam os cursos de
preparação para o parto natural, que têm o objetivo de mostrar à mulher que
este é um processo mais doloroso, mas compensador. "Nos hospitais, a mãe não
está num lugar propício para um momento tão íntimo. Há uma profusão de
luzes, corre-corre, ela fica ao lado de outras mulheres que não conhece.
Médicos e enfermeiros a estimulam a fazer força, sem respeitar o tempo e o
desejo", ressalta Maria Clara, que também defende o uso mais racional da
anestesia peridural. "Mais do que tirar a dor, é uma forma de roubar da
mulher a experiência completa de virar mãe. Ela faz força simplesmente
porque lhe pedem, sem sentir nada."

Como mãe e médica, Ana Paula também ressalta que, para o bebê, há muito mais
vantagens num parto natural. "A passagem pela vagina faz com que o
recém-nascido se comprima e isso retira toda a secreção que existir no
pulmão. O risco de infecções também é mínimo. Na cesárea, além de não
escolher em que hora vai nascer, a criança tem 30 segundos para se adaptar
ao novo jeito de respirar fora do útero."

Antes de dar à luz em casa, Maria Clara explica que é necessário uma
avaliação das condições da mulher e do bebê. "Se a parturiente já tiver
feito duas cesáreas, o parto natural não é indicado, pois o útero está mais
frágil e pode romper com a força que ela fará. O tamanho do bebê e da bacia
da mãe também precisam ser verificados, assim como a possibilidade de um
encaminhamento imediato para um hospital no caso de complicações."

*Doula ajuda as mulheres a superarem dor e dúvida*

Uma mulher para servir. Esse é o significado original, no grego, para a
palavra doula, profissão da uruguaia Lucía Caldeyro, há 35 anos no Brasil.
Ela é como as antigas acompanhantes das mulheres que tinham os filhos em
casa no tempo das parteiras sem formação universitária. No vocabulário
dessas novas profissionais, servir é o mesmo que orientar o casal sobre o
que esperar do parto, ajudar a mulher a encontrar a melhor posição para dar
à luz e sugerir estratégias naturais, como banhos, massagens e relaxamentos
que aliviem a dor. A função surgiu nos Estados Unidos, depois de uma
pesquisa na década de 70 que provou que partos com acompanhantes eram mais
rápidos e fáceis.

Com 26 anos de profissão, Lucía começou como voluntária no Centro de Apoio à
Saúde Integral da Mulher (Caism), da Unicamp, num grupo de parto
alternativo. "O trabalho da doula começa junto com a gravidez. Mesmo depois
que o bebê nasce, ela visita a família, transmite informações sobre
amamentação e tira dúvidas da mãe, principalmente daquelas que têm o
primeiro filho."

Entre os instrumentos que ela leva aos partos que acompanha, estão bolas
utilizadas por fisioterapeutas e bambolês. "O parto é algo natural como a
digestão. Por isso, ninguém precisa ensiná-lo à mulher. Mas há fatores que
atrapalham. Nossa função é auxiliá-la a ter um parto tranqüilo e seguro." Na
América do Norte, já existem cerca de 12 mil doulas. No Brasil, não há
estimativas do número dessas profissionais.

Lucía teve quatro filhos, todos naturalmente. No último, ficou apenas 15
minutos com contrações. "Resolvi ser doula para ajudar mulheres a ter
experiências tão boas como as minhas, desde a primeira gestação." O alívio
da dor, conseguido por meio de mudança de posição, tem uma justificativa na
anatomia. Segundo a obstetriz Maria Clara Amaral, na posição ginecológica,
em que a maioria dos partos é feita, a mulher sente maior desconforto porque
uma veia chamada cava, localizada entre o útero e a coluna, é comprimida
pelo peso do bebê. "Além disso, a mulher se sente muito vulnerável nesse
posição. Ela deve escolher como quer ter o filho."

Fonte: Cosmo

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A TENDA VERMELHA


escrito por: Tricia em terça-feira, julho 17, 2007 às 9:08 PM.

A TENDA VERMELHA

Um curso de qualificação online e internacional sobre mulheres, de mulheres para mulheres

Carga horária: 108

Início: 6 de Agosto de 2007
Término: 07 de Dezembro de 2007
Certificado final

Público: mulheres de todas as idades.

Objetivo: promover uma nova consciência feminina unindo a razão à intuição e contribuir para o desenvolvimento de uma mulher inteira, consciente e autêntica.

Línguas do curso: espanhola e portuguesa.

Recursos necessários: computador.

PROGRAMA:

1) Corpo 06-10/08
O corpo feminino entre liberdade e artifícios

2) Menstruação (Menarca e Menopausa) 13-17/08
Distúrbios modernos da menstruação e antigos significados e rituais

3) Sexualidade 20-24/08
Expressão, experiência e liberdade

4) Contracepção 27-31/08
Informação e responsabilidade

5) Parto 03-07/09
Natural e transformador. Saber para fazer

6) Aborto 10-14/09
Escolhas e informação

7) Casa, estar consigo 17-21/09
Intimidade e introspecção

8) Religião, Espiritualidade 24-28/09
As dimensões religiosas do feminino

9) Estudos, Carreira 01-05/10
Mulheres na modernidade: desafios, buscas e concretizações

10) Sociedade e Leis 08-12/10
Presença das mulheres no mundo e as leis que as amparam

11) Feminismo 15-19/10
O que foi, o que é e o que queremos

12) Maternidade 22-16/10
Ser mãe hoje: questões em debate, educação dos filhos e papel da maternidade

13) Relação com o homem 29/10-02/11
Entre o amor e a paixão, a busca da reciprocidade

14) Relação com as mulheres 05-09/11
Solidariedade, amizade e confiança a serem construídas

15) Beleza e arte 12-16/11
O equilíbrio entre os espontâneo e a sofisticação

16) A dor 19-23/11
A dor de ser, de sentir, de amar, de parir, de nos dizer

17) Os sonhos 26-30/11
Mensagens do inconscientes e sonhos a olhos abertos: a paisagem interior das mulheres

18) O caminho 03-07/12
Síntese metodológica do percurso: dicas das deusas e das formadoras


Inscrição e valores:
Até dia 23/07: R$ 414 (US$ 213) ou 3 x de R$ 138 (US$ 71)
Até dia 31/07: R$ 486 (US$ 250) ou 3 x de R$ 162 (US$ 84)

Inf.: tendavermelha@amigasdoparto.org.br

Formadoras:

1. Adelise Noal Monteiro, médica, parteira e psicoterapeuta junguiana, Porto Alegre(RS) Brasil
2. Adriana Tanese Nogueira, Analista pós-junguiana, filósofa, Mestra em Ciências da Religião, fundadora e coordenadora da ONG Amigas do Parto.
3. Anayansi Brenes Corrêa, Socióloga, pós-graduada em Historia e Antropologia Social, coordenadora do projeto “Passagem, espaço de acolhimento mãe e bebê”, HU – UFMG, BH (MG) Brasil
4. CDD Católicas pelo Direito de Decidir, São Paulo (SP) Brasil.
5. Gina Strozzi, Sexuola, profa. Mackenzie, São Paulo (SP) Brasil.
6. Graciela Quintana, Psicóloga, psicanalista, Doutora em Medicina Social, Rio de Janeiro (RJ) Brasil.
7. Isabella Polito, Doula, fundadora www.aquamater.com – Caracas (Venezuela).
8. Juliana Hermont, advogada, especializada em Bioética, Belo Horizonte (MG) Brasil.
9. Monja Cohen, monja budista, São Paulo (SP) Brasil.
10. Myriam Wigutow, http://www.laruedapurpura.com.ar/ Argentina.
11. Neusa Steiner, psiquiatra, mestra em Ciências da Religião, psicoterapeuta junguiana, São Paulo (SP) Brasil.
12. Paloma Terra, Parteira certificada, brasileira residente no Texas (USA)
13. Regine Marton, Enfermeira obstetra, franco-americana, Atlanta (USA).
14. Suely Carvalho, Parteira, fundadora CAIS do Parto, Olida (PE) Brasil.


Promoção: ONG Amigas do Parto – www.amigasdoparto.org.br
Organização e Criação: Adriana Tanese Nogueira

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ENTREVISTA COM A PARTEIRA MADRINHA CRISTINA


escrito por: Tricia em domingo, maio 06, 2007 às 7:36 PM.

Curitiba/PR 2004

Por Adelise Noal Monteiro - médica e parteira

(Esta entrevista foi divulgada na lista "Hinos da Semana", do Cefluris, dia 8 de agosto de 2005. A autora participou do Painel Arte de Partejar apresentado através da Associação C.H.A.V.E. Centro de Harmonia, Amor e Verdade Espiritual, no Fórum Social Mundial de 2005, sediado em Porto Alegre. Adelise ganhou o I Prêmio Nacional Amigas do Parto 2005).


Adelise - Como começou seu trabalho de parteira? Como a senhora
aprendeu?

Madrinha - Rapaz!... o trabalho começou pela intuição, meu padrinho me mandou, pra eu fazer um parto com o Santo Daime e eu fiz. Chego lá, faço as minhas preces a Nossa Senhora do Bom Parto, acendo o ponto da vela junto com o Santo Daime e aí início, rezando a prece. Dou um pouquinho de Santo Daime pra mulher e nós ficamos ali, dando aquela assistência a ela conforme as contrações que ela vai sentindo. Porque às vezes vêm as contrações e não é a hora do parto. Quando dá a primeira dose do Santo Daime ele vem e controla. As vezes passa o dia, quando é no outro é que vai iniciar. As vezes é pra logo e então, em pouco tempo antes de terminar a vela o trabalho tá realizado. Aí eu dou a segunda dose, vem vindo as contrações e eu vou ajudando também. Quando chega a hora, o nenê vem fácil, eu pego. Depois vem a placenta.


Adelise - E os instrumentos?

Madrinha - Os instrumentos, eu mesma faço. Depois que nasce o nenê, eu não corto o cordão em seguida, deixo ele ali. Aí, vou rezando as minhas preces, mexendo na mulher manipulação do abdômen, massagens) pra placenta descer, quando ela desce, aí, eu vou e corto. Corto com tesoura, pinças que me deram. Amarro com um cordão, coloco o Santo Daime com algodão. Faço isso até cair. Todo dia molhar com Santo Daime.


Adelise - Como a Senhora aprendeu o ofício de parteira? Como foi seu primeiro parto? Quem lhe ensinou?

Madrinha - Eu assisti em mim mesma, que a minha sogra fez e eu prestava atenção. Depois eu já era ajudante dela.


Adelise - A sua sogra era uma parteira! Como era o nome dela?

Madrinha - Maria, Maria Francisca das Chagas, já faleceu.

Adelise - Morava no Mapiá?

Madrinha - Era a mãe do meu esposo, aí aprendi com ela. Ela foi ficando velha e passaram pra mim e eu fui fazendo e fui passando pra outras.


Adelise - Pra quem que a senhora passou?

Madrinha - As que estão com a gente. A Maria Brilhante, sua filha Osmarina também. A Dalvina e a Maria Francisca. Elas aprenderam com a mãe delas que também era parteira. A Maria Corrente. A Maria Nogueira a mais antiga, chamada para os partos mais complicados. Ela é rezadeira. A Silvia, minha filha e a Rosa acompanham, dão assistência as parteiras. Assim a gente vai aprendendo umas com as outras. A gente se reúne, aí fica junto (ficar junto com um sentimento de comunhão). E agora apareceu na nossa comunidade uma médica. Então, ela ajuda mais porque é médica.


Adelise - Quando uma mulher entra em trabalho de parto vocês vão juntas?

Madrinha - Não, vai uma ou duas pra auxiliar. Depois a gente vai lá fazer uma visitinha. Porque ninguém quer muita gente, é bom pouquinha gente pra dar assistência ali. A gente sempre se reúne e conversa quando tá junto, passando como é e tal... Aí cada uma tem as suas
entidades que acompanham a gente e que pode ajudar naquele trabalho.


Adelise - Nesse sentido espiritual, quem a senhora buscava quando fazia
os partos?

Madrinha - Rapaz!... Eu sempre busco Deus primeiramente nas alturas e
meu Padrinho foi quem me deu essa virtude aqui na terra.

Adelise - Padrinho Sebastião?

Madrinha - Sim, e também a minha sogra, porque eu aprendi com ela e eu sinto ela ao meu lado. E o meu protetor, que eu também tenho, o meu anjo da minha guarda, meu guia espiritual.


Adelise - Quantos partos a senhora fez?

Madrinha - Uns 50 partos. Aí parei. Quando me chamam eu boto outra, porque peguei esta doença aí. Ela tem DBPOC - doença pulmonar obstrutiva crônica. Pra fazer parto é preciso ser sadio. As vezes o nenê nascia e eu não tinha os aparelhos. Era preciso colocar a boca pra
tirar as secreções do nariz, puxar pra ele respirar. Eu fazia tudo isso porque não tinha os aparelhos.


Adelise - Quando tinha laceração do períneo, como fazia?

Madrinha - Ficava assim mesmo, fazia cozimento de ervas, banho de assento todo dia, de manhã e de tarde. Passava mercúrio e até o Santo Daime no local.


Adelise - Quais as plantas usadas?

Madrinha - Cajueiro, algodoeiro, as folhas. Ia cicatrizando, era assim, tudo naturalmente.


Adelise - A senhora teve algum problema de hemorragia no parto?

Madrinha - Graças a Deus não. Já nasceram dois nenês de bunda.


Adelise - A senhora nem sabia?...

Madrinha - Nem sabia, quando vi fiquei admirada. Mas aí tem que confiar. Botei a mulher num assento, num banquinho. Porque deitada é muito ruim. Ou até de pé mesmo. Seguro... A mulher faz força e mando abaixar... Uma delas, foi a filha do Padrinho e outra senhora lá. Mas
foi rápido, foi saindo, eu fui ajudando com a mão e com o dedo, na força... A gente pega... não é como no hospital... e dá assistência a mulher e o nenê durante 8 dias depois do parto. Fico cuidando do nenê, dando banho, cuidando do nenê até o umbigo cair. Só depois vai. Sendo perto de casa, a gente vai todo dia, até completar 8 dias.


Adelise - E fica durante todo trabalho de parto com a mulher ali?

Madrinha - Todo tempo. Ninguém sai. A gente fica, dá um purgante. Óleo de rícino e chá de laranja.


Adelise - Massagem a senhora faz?

Madrinha - Fazia sim. Apalpava... balanço nas cadeiras na hora da contração... É muito bom! As mulheres dizem:

- Ai Madrinha! Chega aqui!... Passa a mão aqui!... Que alívio!


Adelise - E o Daime, como a senhora avaliava a dose a ser tomada?

Madrinha - As vezes eu dava assim... Primeira dose dois dedos. Na primeira hora, se acelerava, dava mais um dedo. Se a contração aumentava, eu dava mais um pouco, um dedo, de meia em meia hora. As vezes é rápido. E tem vezes que depois da primeira dose, o Daime
acalma. Parece uma força de lua, uma coisa que o nenê tá sentindo. E as vezes passa uma noite e volta no outro dia e recomeça a tomar o Daime, e vem...


Adelise - E o período expulsivo como a senhora conduzia?

Madrinha - A hora que dá vontade de empurrar... Toma o Daime mais um
pouquinho... as vezes fica ali, vai e volta, e com o Daime... Tuft!... E sai mesmo. A placenta se demora, com o Daime sai. Vai balançando o cordão. E ela vem, se puxar... Aí, fica tudo limpinho. Peguei meus netos, todos os bisnetos e outros. Um punhado de gente. Eu sou a mamãe velha!...


Adelise - Quando a senhora fazia os partos, trabalhava com alguém lhe auxiliando?

Madrinha - Com uma filha ou sempre com a assistência daquelas que fazem
parto também, a Dalvina que a mãe dela também foi parteira. Nós duas juntas, era uma beleza! Ela tem a força dela, eu tenho a minha. A gente junta as duas forças. Ela sabe como é. Fica tudo mais fácil.


Adelise - A senhora nunca fez parto sem o Daime?

Madrinha - Nunca fiz. Só os meus, dos primeiros filhos foram sem Daime.


Adelise - Então a sua sogra já era parteira antes do Daime?

Madrinha - Depois que eu passei pro Daime, mudou o ritmo da gente com o Santo Daime. Tinha a bebida e era natural o nascer.


Adelise - Como a senhora combinava para fazer o parto? Acompanhava a gravidez ou era só na hora do parto?

Madrinha - As vezes eu tava em casa quando chegava alguém:

- Madrinha! Mandaram buscar a senhora para fazer um parto. E eu ia. As vezes nem conhecia. Ali no Purus. As vezes no trabalho de Daime começava e eu tinha que sair do trabalho para fazer o parto. Era assim, eu não dei assistência os nove meses. A gente dava umas orientações
quando elas pediam e algumas massagens. Só agora com a Guete, se faz isso. Ela é médica.


Adelise - E o material para fazer o parto?

Madrinha - A gente comprava uma tesourinha... queimava com álcool. O cordão umbilical prendia com cordão


Adelise - Quando aparecia uma mulher com parto complicado ou gravidez de risco, como vocês descobriam o problema?

Madrinha - A gente via e levava pra Boca do Acre. Mas eu, graças a Deus, no tempo que eu pegava menino, nunca tive este problema. Agora tem uma médica lá, que faz o encaminhamento, se precisar. Na floresta a gente tem que se socorrer com o Senhor Divino, com Deus e tomo Daime e expulso tudo. Muita gente sangra muito, toma Daime e fica bom.


Adelise - O que a senhora entende sobre a ação do Daime na hora do parto? Como ele funciona? Ajuda na força da contração, no alívio da dor, na mãe que fica calma?

Madrinha - Ele ajuda, funciona muito bem. A gente reza confiando em Deus, primeiramente, que está nas alturas e naquela bebida que a gente consagra, um Ser divino, na Virgem Mãe Soberana que é nossa guia. Nós chamamos pela Virgem Soberana Mãe e o Nosso Patriarca, e eles vêm nos ajudar. E eu acho que ele dá aquela força muito boa, expulsa muito bem,
cuida muito bem. Porque o invisível é coisa que a gente não vê. Ele chega e faz o trabalho e você fica até admirada! Agora, o invisível é coisa que a gente não pode explicar pra ninguém. A Nossa Santa Maria, a Nossa Santa Mãe de Deus que nos ajuda a dar calma e paciência e é a
Nossa Diretora de todo nosso trabalho, que sem a Mãe nós não somos nada. Só é com o Pai, a Mãe e o Filho e o Espírito Santo que é o Divino e com esses nós estamos aqui. Não posso dizer que não estou com estes seres porque é quem nos acompanha. Consagro no meu coração e serei eternamente filha de Deus.


- Desculpe sou chorona! Me emocionei...

Adelise - Não Madrinha, a senhora é uma flor! É que o parto tem uma intensidade emocional muito grande, então, a senhora, lembrando de tudo...

Madrinha - É coisa muito fina mesmo, a gente ali tá, chega na hora do parto, a responsável por tudo é a gente e na floresta principalmente. Por isso que eu digo, eu confio nos seres que me acompanham. Se eu não confiasse, eu não faria. Por que eu não sei, quem sabe é ele, o Daime. Ele me ensina, e eu faço. E aí, eu apresento o saber que ele me ensina!


Adelise - A senhora chegou a fazer partos em mulheres que não eram do Santo Daime? Ou todas sempre eram da comunidade?

Madrinha - Não, eu fiz sem ser do Santo Daime.

Adelise - Então a senhora levava o Daime pra elas tomarem?

Madrinha - Levava, se ela quisesse com o Daime eu fazia, se não quisesse eu não fazia. Só se o menino estivesse saindo eu pegava, mas dizia também que eu não era responsável.Com o Daime, eu sou. – Quer tomar o Daime? Se ela falava quero... Então, tomou... Aí eu ficava tudo bem, aí muda tudo, Porque a gente tá com o Daime e ele é quem... Mais sem o Daime... Rapaz! Sem o Daime, eu não faço parto não! Se ela diz: -
Eu quero. Aí eu dou.


Adelise - As que não eram da comunidade e tomavam o Daime no trabalho de parto, como reagiram, o que elas disseram?

Madrinha - Muito bem, se sentiram muito bem, carinhosas!... Também eu dou de conformidade porque eu não vou... Eu dou pra ajudar a fazer o parto. Depois, se ela quiser continuar, né... Se não quiser... As vezes continua, as vezes não. Só vem na hora da história mesmo e deixa... Isso é de cada um, mas o meu trabalho, eu só apresento com ele.


Adelise - Quais são as outras coisas que a senhora faz durante o trabalho de parto?

Madrinha - Defumação. Eu faço aquela defumação no quarto. "Defuma esta casa bem defumada, com a cruz de Deus ela vai ser rezada". Aí a gente defuma todo quarto, defuma a mulher também. Isso é uma ajuda espiritual. Afasta também aqueles espíritos que estão ali nos arrodeando para incorporar naquele ser que vai nascer. A gente fica chamando as coisas boas, cantando hinário, liga o gravador, cantando os nossos hinos, as nossas chamadas. Boto o hinário do Padrinho Sebastião, da Madrinha Rita, bota do Mestre Irineu, do Padrinho Alfredo, aí vem chamando até que chega o nenezinho. Todo mundo feliz, satisfeito. Então esta defumação, são as ervas que nos ajudam a afastar as coisas ruins que nos arrodeiam. A gente só chama coisa boa.

Adelise - A senhora lembra de algum parto que lhe chamou mais atenção e que quisesse contar pra nós?

Madrinha - Só esse mesmo de dois, que precisou ir na maternidade. Lá na Cinco Mil ainda -perto de Rio Branco, no Acre. Porque teve o primeiro, foi normal, mas o segundo quando veio, eu não tinha feito nenhum parto assim de dois. Ele botou só a mão e eu não sabia movimentar nem nada, ainda até levei lá. O médico tinha dito pra mulher que um estava bem e o outro atravessado, que ela fosse ter no hospital, mas ela não queria ir. Aí eu disse, vou pegar o menino, mas se houver um problema na hora eu mando levar e assim a gente fez. Levamos, teve que operar.


Adelise - Deu tempo de salvar o nenê?

Madrinha - Não, quando chegou lá, ele faleceu. Só esse, por aí eu fui ficando meio... Esse negócio de dois eu não quis saber não. Mas já faz anos, foi quando eu comecei. Agora já os meninos, tá tudo grandão, os que eu peguei. Só esse, o resto tudo foi bem.

Adelise - Quanto tempo faz que a senhora parou de fazer parto?

Madrinha - Acho que foi do Artur o último. Faz 7 anos. Lúcia Arruda (acompanhante da Madrinha) - Mais sempre ela dá assistência.

Madrinha - Uma assistenciazinha ali...

Lúcia - O pessoal confia muito.

Madrinha - De eu estar lá.

Lúcia - O pessoal pede, mesmo que a senhora não pegue, esteja perto.
Que ela dá ajuda as parteiras mais novas, então, mesmo que ela não
esforce...


Adelise - Ela dá segurança.

Madrinha - Dou segurança ali.

Lúcia - "Faz isso menina. Manda a mulher pra deitar." Eu já vi ela fazer esse trabalho, e sei que é muita intuição. Ela tem muito jeito. Pra cada caso... não é uma coisa técnica, igual pra todas. Ela tem aquela sensibilidade para saber o que a mulher precisa. Mulheres mais
agitadas, ela consegue acalmar. Mulheres que são mais moles, ela já agita pra mulher não dormir. Ela tem a sensibilidade pra saber se está perto, se vai demorar, coisas que o olho dela vê. O olho já espiritualizado nesse sentido. As vezes, é engraçado, ela descobre quando a mulher tá grávida e a mulher nem sabe ainda. As próprias mulheres que estão gestantes confiam muito nela, as vezes mais que em médico. Então, isso não deixou que ela deixasse de vez, se aposentasse dessa tarefa. Tem casos que a mulher grávida diz: "Madrinha, eu quero
que a senhora esteja. A senhora tem que estar!" Ultimamente ela não tava nem bem, com falta de ar. Uma mulher foi ter nenê, foi preciso ela ir, foram buscar. Foi ela botar o pé lá. O nenê foi nascendo. Só a presença dela assim dando força, sabendo dar uma dose boa de Daime.
Porque o Daime sabe, na hora da contração. Aí o Daime vai, e dá pra mulher o que ela precisa. A calma ou a força, e a Madrinha tem muito essa sensibilidade intuitiva. Quando começou a chegar a medicina, eu notei que as próprias parteiras ficaram mais inseguras. Quando era só elas na comunidade, não tinha pra onde correr, só elas mesmas. Mas agora como chegou médico, elas já ficam mais inseguras ou as próprias gestantes também ficam mais medrosas. Tudo isso tem. Chegou uma modernidade e as próprias gestantes vão procurar o centro médico, têm medo, vão fazer cesariana essas coisas todas que chegou.

Madrinha - Mas a Guete (médica da comunidade) também é com o Daime. Ela entra com a gente também. Ela dá uma força também. Se precisar cortar ela sabe, pontear também. A gente dá a assistência pras irmãs, mas nenhuma de nós temos documento de ser parteira profissional. Só parteira da nossa comunidade. A gente é chamada pra aqui e acolá, e a
gente vai.


Adelise - A senhora sabe se já tem uma parteira do Daime no Juruá?

Madrinha - Sei não, eu fui lá só uma vez, logo quando começou, quando abriu. Agora nunca mais. Mais elas normalmente andam umas com as outras, as irmãs nossas com as outras caboclas. Tem muita velha, idosa, antiga. Isso tudo é velho e sabido. Lá é que é bom fazer essas coisas com aquelas velhas lá. Ir lá, dá uma viajada lá, É uma beleza assim... De conhecer, vai lá você um dia, mais a turma aí. Pois é, tem que dar uma combinada aí com o Padrinho Alfredo e vai fazer estes trabalhos lá.


Adelise - E a Madrinha Rita tem este ofício?

Madrinha - Não, parteira não. Ela tinha a mãe dela que era minha sogra, mãe do Neo que era parteira.

Lúcia - Já é falecida a Mãinha, mãe da madrinha Rita e do Padrinho Neo. Ela que era a grande parteira da família que ensinou pra Madrinha Cristina.


Adelise - Como era o nome dela?

Madrinha - Maria Francisca das Chagas.

Lúcia - Ela tinha todo material necessário. Uma balancinha.

Madrinha - Quem tinha era a Dona Maria Corrente, mãe da Dalvina. Quando ela faleceu passou pra mim. Ganhei dela. Mas a gente dá pra uma, dá pra outra, e quando vê, perderam. A Dona Maria Corrente tinha a bolsa que ela fez lá em Rio Branco.


Adelise - Ela fez um curso de parteira?

Madrinha - Eu acho que sim, que ganhou a bolsa... Mas tá bom. Depois vocês... Pra frente todos chega... Uma nova documentação...


Adelise - Então, a Maria Francisca da Chagas, mãe da Mad. Rita, Pad. Neo e Mad. Júlia é quem a senhora considera como sendo a primeira parteira, a mais antiga?

Madrinha - Pra mim foi, que eu aprendi com ela. Ela fazia em mim, por mim, eu via ela fazendo em mim.


Adelise - Quantos filhos a senhora teve?

Madrinha - Eu tive 14. E ela foi quem... Só dois que eu não tive com ela. Fui pra maternidade no primeiro e o segundo tive na casa da minha mãe. Aí depois, foi só com ela mesmo. A família foi crescendo e eu não podia mais sair de casa e ela sabia fazer. Eu disse: - É aqui mesmo. O resto todos foi com ela.


Adelise - E quando é que começou a usar o Daime nos seus partos?

Madrinha - Meu mesmo, só tive o último com o Daime. Os outros todos nãousava Daime, ainda.


Adelise - Ela usava alguma erva?

Madrinha - Só usava o purgante de mamona com chá de hortelã, chá de sene...


Adelise - E as ervas pra fazer banho de assento?

Madrinha - E estas ervas que a gente fazia os banhos de assento... Só
isso.


Adelise - A senhora pode repetir pra mim?

Madrinha - Folha de algodão, casca de cajueiro. A gente bota pra cozinhar, faz aquele chá, uma pitada de sal, um óleo de andiroba, copaíba que a gente faz. Tudo isso é cicatrizante. Também as garrafadas de cachaça, tomilho, alfazema que a gente fazia. Outras ervas pra toda hora que tomava banho, tomava um dedinho, pra fazer uma limpeza por dentro. Nesse tempo que a gente não tomava Daime.

Lúcia - Então, está tendo uma transformação. Por exemplo, as mulheres que estão tendo nenê hoje, ficam até sentidas, porque elas não tem mais aquelas parteiras fortes como tinha... A Madrinha Cristina, a Maria Nogueira, parteira que a mulher confiava, sabia que o negócio era
curto. Hoje em dia não está tendo uma formação assim como a Mãinha que passou pra Madrinha Cristina. Não sei a madrinha Cristina já espalhou muito. Mas não sei se despertou uma como ela. As filhas dela são todas muito jeitosas, mas não sei se tem uma que tenha recebido da senhora o bastão, a vocação. Será?

Madrinha - A Sílvia, ela se dedica para as outras mulheres.


Adelise - Mas a Sílvia chega a fazer parto?

Madrinha - Sozinha não.

Lúcia - Sozinha não, mas ela tinha aquela presença, quando ela chega ela sabe administrar um Daime, ela sabe fazer uma massagem na mulher. São presenças, para um parto caseiro, muito importante. Faz uma reza, faz uma corrente, percebe no ambiente se a mulher esta esmorecendo. Parto em casa precisa da corrente das mulheres. Embora, que são partos
muito naturais, muito silenciosos. Tem uma coisa interessante, você só contagia com a presença da criança, diz o sexo, depois que a mulher desocupou. Antes disso o trabalho tá fechado ainda, nenê já nasceu. A madrinha também é muito jeitosa com o nenê. Mesmo que ela não esteja fazendo o parto, o pessoal quer que ela esteja ali pra pegar o nenê.
Parto normal, tudo bem ritualizado.


Adelise - O que é desocupar?

Madrinha - É a saída da placenta. Aí eu rezo uma prece:


"Minha Santa Margarida, não sou prenha

nem parida, me tira essas carne morta, que

eu tenho dentro da minha barriga, que eu

quero passar pelo rol das paridas."


Aí dá uma cutucadinha na placenta, na barriga...

Lúcia - Se for preciso, mais um Daimezinho.

Madrinha - Mais um Daimezinho... Manda se levantar um pouco, ficar em
pé um pouco também. Aí fico ali, dou um Daimezinho, dou massagem, mando
sentar de novo. A gente bota água quente num vaso, manda sentar em cima
e observar, quando demora... quando não demora. Logo... De repente vem.
Depois de sair, aí fica todo mundo animado. Aí a animação reina na
casa.

Lúcia - Tem um ritual também, quando o nenê tá nascendo a gente canta o
hino do Mestre Irineu.

Madrinha - Sol, Lua, Estrela. Quando ele vem apontando, vem saindo...
Shuuummm! Aí ele sai...

Lúcia - Então eu acho, que é mais uma força espiritual que chega. Na hora, ela tem o dom de curandeira, tem aquele olho bom pra saber o que precisa naquela hora. Que é mais essa sensibilidade... Não é uma coisa técnica.

Madrinha - A intuição é quem manda na hora, né.

Lúcia - A intuição não só pra parto, todo mundo quando tem nenê sente.

Madrinha - Os caboclos, revela tudo. As vezes tem muita gente que atua nos aparelhos, se vê os caboclos atuados, na hora que a gente tá no trabalho espiritual. A gente não sabe nem explicar, mas você, porque toma Daime, também sabe, e faz o parto também, sabe como é... Então, não tem nada pra explicar, já tá tudo dito.


Num outro momento da entrevista Lúcia canta um hino presenteado para a
Madrinha Cristina


Estou aqui, estou aqui,
Porque Deus me determina
Eu estou com a Virgem Mãe,
Meu Padrinho e minha Madrinha

Meu Padrinho e minha Madrinha
Eu quero vos agradecer
Por essas lindas palavras
Que me fez renascer

Na alegria e na esperança
Dentro do meu coração
De receber a vida
Através da respiração

Confia, confia, confia
Nas minhas palavras
Que há muito tempo eu deixei contigo
Através da linda mensagem

Mesmo com todo sofrimento
Não queira esmorecer
Te firma na vida nova
Que a mensagem vem dizer

Madrinha - É este o presente.

Lúcia - Na Nova Jerusalém, o hino que é o presente da madrinha Cristina é a Mensagem que fala da vida nova. Então aí, passado esse tempo... A Nonata, num trabalho forte dela, recebeu esta mensagem diretamente dele, do Padrinho Sebastião, pra entregar pra Madrinha, reforçando a fé, a esperança de uma cura, de uma melhora.

Madrinha - Acho que ele tá por aqui!


Madrinha Cristina contando um pouco da sua história

- A Madrinha Rita casou com o Padrinho Sebastião, ficaram morando lá...
E o Neo veio pra Rio Branco com o pai dele. A D. Maria Francisca das
Chagas e o pai dele, a Júlia, a Tetê e o Neo. Aí vieram morar lá no Rio
Branco, perto da gente. Aí eu conheci eles. E por aí começou tudo! Aí
casei com ele, com o Neo e fui morar na Colônia Cinco Mil. Aí o
Padrinho quis vir aonde estava o seu Idalino com sua família. E veio...
Quando ele chegou na Cinco Mil eu tava morando lá. Já tinha a primeira
filha que é a Sílvia. Foi quando eu conheci os dois, (Padrinho
Sebastião e Madrinha Rita).

Quando ele chegou eu já sofria muito, sofria de muita coisa e ninguém
sabia o que era. No fim, quando ele chegou, ele já trabalhava no
espiritual, sem Daime mesmo. Porque ele começou sem Daime. Com Daime
que ele recebeu mais coisas. Aí foi pra minha casa e lá ele viu e
começou a me tratar. Fazer aqueles trabalhos e tal... Então, eu senti
que fui melhorando daquelas coisas que me perseguiam. A gente quando é
espírita, as vezes nem dá fé, chegam aquelas coisas... leva pancada,
leva dor, e grita, e... As vezes são os espíritos... Daí pra cá ele foi
me desenvolvendo e tal. Aí fui melhorando e me agarrei com ele, segura
mesmo e tô aqui. Sofrendo mais sou feliz. Porque tenho ele no meu
coração, entreguei meu amor a ele. Embaixo de Deus, de Jesus e ele na
terra que me ensinou. Através de Jesus, mandaram tirar eu daquela
escuridão que é coisa ruim. Aí fiquei com ele. Depois ele entrou no
Daime, botou nós e eu tô feliz de tomar este líquido.


"Quem não provou, venha provar,

esta bebida que aqui está."


Tu conhece o meu hinário?


Adelise - Conheço. O Parto que fiz da Cristal, filha da Elisa e do
Roberto em Dois Irmãos, na primeira fase do trabalho de parto, nós
escutamos o seu hinário.

Madrinha - Ah!... Então, foi bom! É um pouco sofrido meu hinário... que
eu também sofri muito... até ver, sentir... mas tô bem...



Madrinha Cristina contando sobre sua família

- 14 filhos, 36 netos, 9 bisnetos e a vizinhança da comunidade que tem
umas quatrocentas pessoas. Quase todos me consideram como uma madrinha,
uma mãe. Aí, to aí... Nós que leva junto com a Madrinha Rita e o
Padrinho Alfredo. Não é fácil!


Adelise - A senhora chegou a fazer parto com os pais participando junto?

Madrinha - As vezes eles estão em casa, as vezes estão viajando.


Adelise - Quando estavam junto eles ajudavam?

Madrinha - Ajudam. Eu chamo pra segurar a mulher, pra eles ver também.
Pra eles ver o movimento da história como é e, pra sentir um pouco o
que uma mulher passa. Muita coisa, né? Pra dar valor ao nascimento.
Eles ficam contentes, tem deles que choram.


Adelise - A senhora percebeu alguma coisa excepcional que relacionou
com o fato de usar o Daime no parto?

Madrinha - Esse do nenê que nasceu de bunda, porque eu tenho isso como
um milagre. Um milagre que eu vi se realizar assim, de repente. Com isso a gente fica mais contente, né? Todo serviço com o Daime acaba ficando todo mundo bem, não dá hemorragia, a criança nasce bem, fica viva, graças a Deus tudo tem sido bem.


Adelise - Quando a senhora fazia parto, dava Daime para todos os que estavam na casa ou só para a mulher grávida?

Madrinha - Dou para os assistentes todos. Se tem três ou quatro pessoas, todos tomam.


Adelise - Mas não na mesma freqüência que a mulher grávida?

Madrinha - Não, ela é mais, e a gente que tá assistindo ali...É umas duas ou três pessoas no quarto, o restante fica lá fora pra o que a gente precisar, chamar. Mas todos tomam Daime, trabalhando na casa e o hinário rola, a gente bota as fitas pra tocar e então a gente canta. As
vezes tá com disposição e a gente fica cantando, é bom.


Adelise - Então, madrinha obrigada pelo seu tempo, onde a senhora contou um pouco da sua história, seu trabalho de parteira, dessa sua vocação.

Madrinha - Nada, eu é que agradeço de você escutar essas palavras
cansadas. Também que eu me acho um pouco cansada pra explicar, também
não sei conversar muito...

Adelise - Mas o que importa é sua sabedoria...

Madrinha - Mas a sabedoria divina que Deus me dá, eu... não tenho que
negar, não é?

Adelise - Isso mesmo, então, muito obrigada.

Madrinha - De nada querida. Que Deus abençoe você.

FONTE: Blog Alto das Estrelas

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Profissão: parteira


escrito por: Tricia em sexta-feira, dezembro 15, 2006 às 7:49 AM.


No Brasil são feitos, aproximadamente, 2,6 milhões de partos anuais. Desse total, 24% são cirúrgicos. O estado recordista é Mato Grosso, com 40,46% de cesáreas.

Para coibir o alto índice de cesarianas no país, o Ministério da Saúde lançou, em 1998, uma portaria que determina controle rigoroso sobre o pagamento de no máximo 40% de cesarianas sobre o total de partos realizados pelo SUS. A medida, segundo dados da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direito Reprodutivo, conseguiu reduzir para 30% o número de cesáreas realizadas este ano na rede pública.

As parteiras são responsáveis por 450 mil partos todos os anos. São 45 mil mulheres só nas regiões Norte e Nordeste. Destas, seis mil estão organizadas em rede.

O Brasil ainda apresenta um coeficiente próximo de 110 mortes maternas por cem mil nascidos vivos. Elas correspondem a 6% dos óbitos de mulheres com idade entre 10 e 49 anos.



Elas são chamadas de comadres, madrinhas, mãezinhas. Percorrem longas distâncias no interior da floresta com os pés descalços. Às vezes, precisam atravessar os rios a nado, ou cortam caminho para chegar mais rápido ao seu destino. A pressa tem uma justificativa nobre: o nascimento de uma criança depende delas.

As parteiras da floresta também fazem a diferença nas estatísticas do Ministério da Saúde. Num país em que sete mulheres morrem a cada 10 mil partos feitos por cesariana, elas contribuem para um dado menos assustador: o número de óbitos cai para dois a cada 10 mil partos normais.

Isso não significa, porém, que as 60 mil parteiras do Brasil (sendo 45 mil do Norte e Nordeste) trabalham em condições adeqüadas. A luta pelo parto humanizado encontra resistência em algumas camadas sociais, e na maioria dos estados é comum que os direitos trabalhistas lhes sejam negados. O Sistema Único de Saúde (SUS) paga R$ 54,80 por parto domiciliar, mas nem todas as parteiras recebem o benefício.

Segundo informações da Secretaria de Saúde do Acre, no ano passado, aproximadamente 80% dos partos foram normais. Aqui há mais de 400 parteiras exercendo papel importante na hora do nascimento de crianças na zona rural e urbana. Desse total, menos de cem trabalham nas cidades.

Na Reserva Extrativista do Alto Juruá, distante duas horas de barco do município de Marechal Thaumaturgo, as 78 "pegadoras de menino" são um consolo na hora do nascimento. "Aqui o médico é Deus e abaixo de Deus, nós", diz a extrovertida Maria Zenaide de Souza, a Zena.

Dos quase cinco mil habitantes da Reserva, 47% são mulheres. É comum que elas engravidem muito jovens. Zena, porém, nunca teve filhos naturais, e a ironia do destino lhe arranca lágrimas dos olhos. Ela é uma das oito parteiras mais experientes da Reserva, aquelas que repassam seus conhecimentos a outras parteiras das comunidades e das aldeias dos índios Ashaninka, Kaxinawá e Arara.


Atendimento de saúde no meio da floresta


Mãe de quatro filhos adotivos, Zena coloca a fé acima da habilidade. Todas as vezes que vai fazer um parto, reza uma Salve-Rainha. Se errar a oração, é sinal de que vai precisar ter mais cuidado na hora de "aparar a criança".

O percurso até a casa da parturiente, que pode demorar horas ou até dias, é outro desafio a ser enfrentado. Quando Zena foi chamada pelo compadre Manoel para fazer o parto de seu segundo filho, já eram 11 horas da noite, estava chuviscando e seria preciso caminhar por duas horas. Como não tinha canoa, o jeito foi atravessar o rio Tejo nadando.

No meio do caminho, a surpresa nada agradável: uma cobra pico-de-jaca. Eles correram e no desespero Zena tropeçou, caiu e derrubou a poronga - uma espécie de lanterna colocada na cabeça. "Foi minha salvação, pois a cobra sumiu na escuridão e segui o meu caminho", conta Zena. "O parto também não teve complicações".

Mas é a pobreza o maior desafio de quem vai dar à luz na floresta. Zena conta que certa vez foi fazer o parto de uma mulher que não possuía uma única peça do enxoval da criança prestes a nascer. Então, a parteira rasgou um mosquiteiro e com os pedaços improvisou os cueiros e uma blusinha para o recém-nascido.

Na floresta, a natureza é forte aliada de quem precisa de cuidados. A banha de porco e o óleo de coco são usados para fazer "esfreguição" na barriga da gestante. Para ajudar a contrair o útero, a parteira ensina: "É só pedir que ela sente num bacio com água, onde se colocam três galhos de mastruz e três gotas de álcool. Pra dar força, um caldo com pimenta do reino e alho é suficiente".

Os homens, segundo Zena, estão participando mais do nascimento das crianças. "Antigamente eles iam buscar a gente e só voltavam pra casa quando sabiam que a criança tinha nascido", diz ela.

Pouco antes de se consumar o milagre da vida, a parteira põe o nenê na posição certa, empurrando-o na barriga da mãe, que é banhada com água morna para aumentar as contrações e relaxar o útero. A parturiente também toma 15 gotas de sumo de algodão roxo para evitar hemorragia. Após o parto, são dadas as seguintes orientações: "Pentear os seios para vir muito leite, tomar chá da casca da copaíba e fazer cozimento da casca de cajá pra não dar infecção e desinflamar mais rápido", lembra Zena.

As parteiras da floresta são unânimes em afirmar as vantagens de um parto normal, humanizado, e destacam a rápida recuperação da mãe, que conseqüentemente poderá cuidar melhor da criança e melhorar o aleitamento materno.

Pré-natal na floresta

Em plena floresta amazônica as mulheres grávidas já podem fazer o pré-natal. Pelo menos na Reserva Extrativista do Alto Juruá, onde acontece o programa 'Maria Esperança", desenvolvido há quatro anos pela Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá - Asareaj.

O programa conta com oficinas de capacitação que possibilitam a troca de experiências entre as parteiras e o resgate da sabedoria popular. Outro objetivo é cadastrar as parteiras no Sistema Único de Saúde, o SUS, para que elas possam receber o pagamento pelos partos feitos e o material necessário para realizá-los. Em julho deste ano, 200 mulheres da reserva foram atendidas com exames de câncer de colo do útero, colhidos na própria comunidade e enviados ao Centro de Oncologia do Acre.

Nas reuniões as parteiras recebem cartilhas ilustrativas, com figuras que facilitam a compreensão da maioria, analfabeta. O trabalho de pré-natal na floresta tem salvado vidas e diminuído os casos de tétano.


No Alto Juruá as parteiras trocam experiências com a ajuda do programa "Maria Esperança"



"Quando o menino não está na posição ou tem um outro problema, a gente manda a gestante pra Marechal Taumaturgo e de lá ela pega um avião pra Cruzeiro do Sul", garante Zena.

O "Maria Esperança" tem como parceiras algumas organizações não-governamentais e apoio financeiro da Fundação MacArthur, dos Estados Unidos. O programa se tornou referência internacional e foi divulgado pela ONU como um trabalho que vem dando certo.

As parteiras do Alto Juruá querem criar uma associação de parteiras tradicionais da floresta na Reserva Extrativista, mas por falta de apoio o projeto não foi adiante. A coordenadora pedagógica do programa, Concita Maia, acredita na parceria com o governo do Estado para consolidar a associação.

Recorde

Maria Martins, a Maroca, de 54 anos, é uma das recordistas de partos no Acre. São mais de 500, sendo que alguns foram feitos no Seringal Jurupaú, localizado próximo ao município de Feijó. Mas a maior parte foi feita na Vila Albert Sampaio, a 12 km de Rio Branco pela BR-364, onde mora há 11 anos.

Maroca iniciou sua profissão de parteira com o segundo filho de sua irmã. Ela tinha 15 anos, morava no seringal e ouvia as mulheres da comunidade falarem sobre o assunto. Foi uma vida de muito trabalho, sono perdido, caminhadas na mata e doações em dinheiro do próprio bolso para ajudar quem precisava mais do que ela. Há três anos, porém, Maroca deixou de "aparar menino" porque está cansada e enfrenta problemas de saúde.

Quando veio de Feijó para Rio Branco, casou e teve cinco filhos, adotou dois e se tornou a parteira mais conhecida e solicitada da vila. Até em boléia de caminhão ela ajudou no nascimento de uma criança. "A gente estava indo pra maternidade, porque eu tinha percebido que algo estava errado, mas não deu tempo de chegar lá. Ainda bem que sou prevenida e tinha levado o material de parto", recorda Maroca.

Ela estudou até a segunda série, mas sempre quis saber mais sobre seu trabalho. Por isso conversava com médicos para tirar dúvidas e acredita ter um dom especial, o de "aparar criança".

Esse mesmo "dom" faz parte da vida de outras mulheres que não estão na floresta, mas nos hospitais. Enedina de Oliveira é uma delas. Dedicou 17 dos seus 53 anos à profissão de parteira hospitalar no município de Plácido de Castro, a 100 km de Rio Branco.

Enedina começou fazendo cursos de primeiros socorros e parteira. Assistida por um médico, realizou os primeiros partos e já perdeu a conta de quantas crianças ajudou a nascer. "Tinha dia em que fazia quatro, cinco ou até seis partos", garante.
Durante os partos, Enedina tem mania de cantar porque isso, segundo ela, acalma a paciente. "A mulher, quando está grávida, é muito sensível e na hora do parto fica ainda mais", ensina.

A médica Solange da Cruz Chaves, da assessoria técnica da Secretaria de Saúde, concorda com o procedimento de Enedina. Solange acrescenta que a humanização do parto requer o uso das técnicas para melhorar a saúde da mãe e da criança, tratando-as com cidadania. Segundo ela, as parteiras da floresta nem sempre dispõem desses recursos. Ainda assim, exercem papel importantíssimo para um parto humanizado.

Fonte: Governo do Estado do Acre

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As mãos que suportam o Brasil: As 60 mil parteiras do País querem ser reconhecidas pelo trabalho que fazem

REVISTA ISTO É, MEDICINA & BEM-ESTAR, EDIÇÃO Nº 1830, 03/11/2004, Aureliano Biancarelli

Elas "assistem" 15% dos três milhões de partos que acontecem no País a cada ano. São cerca de 60 mil parteiras que "amparam" 450 mil crianças. Cerca de 70% estão nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Os números são do Ministério da Saúde. Na prática, essas mulheres, muitas de lenço na cabeça, rostos enrugados e olhares humildes, assistem milhares de mães e bebês onde em geral a rede de saúde não chega. Diante da lei, são clandestinas que exercem uma função não autorizada pelas associações de classe de médicos e enfermeiras nem têm sua profissão reconhecida. A maioria não sabe ler nem conta com instrumentos ou treinamentos. A ferramenta são as mãos sensíveis - que, com a experiência, ajudam a identificar um feto fora de posição - e a paciência, que as faz permanecer ao lado da gestante às vezes por muitas horas de contrações.

Recentemente, cerca de 250 dessas parteiras tradicionais se encontraram em Oliveira dos Campinhos, no Recôncavo Baiano. Juntaram-se para reivindicar o que é um direito adquirido na prática: terem a profissão reconhecida por lei, o que significaria remuneração pelo trabalho. A regulamentação, elas acreditam, garantiria também um mínimo de respeito por parte dos profissionais de saúde. Muitas relataram que são tratadas como bruxas e que às vezes são perseguidas por médicos quando precisam conduzir a um hospital uma gestante em risco. Não foi o primeiro encontro promovido pela Rede Nacional das Parteiras Tradicionais. Mas o de Oliveira dos Campinhos foi ungido pelo apoio oficial. Na reunião, estava a médica Maria José Araújo, do Ministério da Saúde. "A aprovação da lei que cria a profissão das parteiras tradicionais, embora seja uma questão delicada, está entre as prioridades do ministro Humberto Costa", afirmou.

O Ministério se manifestou a favor do Projeto de Lei 2.354/2003, da deputada federal Janete Capiberibe (PSB-AP), que está na Comissão de Seguridade Social e Família. "A maioria dos senadores nasceu de parteiras. Temos certeza de que aprovarão o projeto este ano", afiança Suely Carvalho, presidente da ONG Cais do Parto e ela própria parteira no Recife. O temor das mulheres está na resistência de instituições médicas, de hospitais e laboratórios. Mais de uma vez, as entidades médicas afirmaram que o parto fora do hospital e sem assistência de um médico significa sério risco para a gestante e a criança. O objetivo do encontro foi justamente pressionar pela aprovação do projeto. Em alguns Estados, como Ama pá, e em alguns municípios, como São Luís (MA), as parteiras recebem até meio salário mínimo. Desde 1991, o SUS inclui de forma indireta o parto tradicional como um procedimento cujo valor está em torno de R$ 16, mas o pagamento é feito ao município. "Na prática, não conhecemos um único município que repasse os pagamentos às parteiras", completa Suely.

Em Campinhos, as parteiras dividiram experiências. Aos 22 anos, Sônia Alves, de São Francisco (MG), já fez mais de dez partos. Agora é a sua vez de dar à luz. Ela está no final da gravidez e o parto será feito por sua mãe, Apolinária Alves de Oliveira, 53 anos, que diz já ter "puxado" 3,6 mil crianças. "Aprendi aos 14 anos, quando uma vizinha precisou de socorro e não tinha parteira por perto", lembra Apolinária.

Pagamento - Sônia e mãe formam uma rara dupla. No geral, sem nenhuma perspectiva de remuneração, as filhas não querem seguir os passos das mães. É o que comprovam seis parteiras de Caiana dos Quilombos (PA) que foram ao encontro. Duas delas somavam uma prole de 45 filhos. Nenhum seguiu o trabalho das mães. "Quem vai querer subir e descer serras, passando horas ajudando só por amor?", pergunta Maria Benvinda, 65 anos, parteira desde menina. Desafios como esses não intimidaram Gracye de Andrade, 21 anos, de Vitória do Jari (AP). Ela aprendeu o ofício com a avó e com a mãe. "Tinha 15 anos quando um vizinho veio chamar para um menino que estava nascendo. Minha avó estava longe. Minha mãe tinha ido à cidade. Fiz o parto sozinha. O bebê nasceu, contei dois dedos para cortar e amarrar o umbigo. Depois botei ele em cima da barriga da mãe", explica, com a simplicidade típica das parteiras. Trabalho, aliás, que Gracye pretende continuar exercendo.
FONTE:GTPOS

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Madame Durocher. Uma parteira diplomada


escrito por: Tricia em terça-feira, dezembro 12, 2006 às 8:57 AM.


Maria Lucia Mott*
Julho de 2005

No final de 1834, Maria Josefina Matilde Durocher anunciava pela primeira vez seus serviços, pelos jornais do Rio de Janeiro. Tinha acabado de concluir o Curso de Parto, na Faculdade de Medicina. A partir de então a parteira se tornou uma figura popular na cidade, não só pela competência profissional, e como resultado enorme clientela, como pelo aspecto viril e trajes usados. Logo após a formatura, adotou os acessórios masculinos casaca e cartola. Alfredo Nascimento a coloca entre as figuras bizarras que circulavam pelas ruas do Rio de Janeiro de então. “Nao se sabia à primeira vista, a que sexo pertencia essa personalidade original”, diz o médico. “Pelo aspecto físico e pelas vestes era um misto mal definido de homem e de mulher.”

O estudo da trajetória pessoal e profissional da parteira Mme. Durocher suscita questões sobre a contribuição das mulheres na construção do conhecimento científico no Brasil. Maria Josefina Matilde Durocher nasceu em Paris. Em 1816, aos sete anos, acompanhou a mãe, a florista Ana Durocher, que se estabeleceu como comerciante no Rio de Janeiro. Neste ano houve um aumento considerável do número de franceses no Brasil e de comércio com a França. Se inicialmente a abertura dos portos realizada pelo príncipe regente d. João beneficiou os ingleses, depois de 1814, com a queda de Napoleão e a volta dos Bourbons ao trono francês, o quadro se transformou. Usos, costumes, cultura e idiona na Corte passaram a ter novo sotaque. Nem mesmo nas lojas eram encontrados os tradicionais tecidos ingleses. Todas as pessoas de alguma posse tinham aderida à moda francesa.

Assim, ao chegar no Brasil, Ana Durocher já encontrou inúmeros compatriotas estabelecidos. Sua loja em pouco tempo prosperou. O comércio varejista da Corte, visto como miserável pelo comerciante inglês Luccock em 1808, com a chegada dos franceses foi substituído por lojas mais sofisticadas. As das modistas, chamavam a atenção pelas vitrines, espelhos, iluminação, além de balconistas do sexo feminino, novidade na época.
A loja de Ana Durocher se localizava na Rua dos Ourives, entre a Rua do Ouvidor e a Rua do Rosário, no centro comercial da cidade, e vendia fazendas, armarinho fino, vestidos e artigos para completar a toilette feminina, como luvas e chapéus. Ao lado de mercadorias importadas, tinha confecção e vendia manufatoras nacionais, como flores de pena, da Bahia.
Mas o sucesso não durou muito. Talvez devido à doença prolongada da proprietária, a loja de Ana Durocher entrou em decadência. Josefina, que tinha pouco mais de vinte anos e lá trabalhava como caixieira, passou a dirigir o negócio da família. Em novembro de 1829, Ana Durocher morreu. A fiha manteve ainda a loja por dois anos. Nessa época ela vivia com Pedro David, negociante francês, mas por pouco tempo: em julho de 1832, ele foi assassinado

O perfil mais conhecido de Mme. Durocher foi construído quando decidiu abandonar a profissão de modista. Anos mais tarde, ao relembrar fatos de sua vida, revelou que, devido à decadência da loja, sendo ela mãe de dois filhos “sem pai” e dispondo “de parcos recursos”, teve de refletir seriamente sobre como mantê-los. Vale destacar que aquilo que ela chama de parcos recursos daria para comprar cerca de dez escravos. Ocorreu-lhe então se dedicar à profissão de parteira, a partir dos exemplos de Mme. Piplar, que havia se hospedado em sua casa no final dos anos 1820, e de Mme. Berghou, parteira da Santa Casa da Misericórdia, ambas francesas.

Seguindo o modelo das parteiras do seu país de origem, que obtinham a formação em esoclas que ensinavam a profissão, Josefina se matriculou, em 1834, no Curso de Partos recém-criado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Paralelamente ao curso regular completou a formação com aulas particulares de importantes médicos da Corte.

A escolha da profissão de parteira foi acompanhada de duas decisões extremamente significativas: a opão pela nacionalidade brasileira e a adoção de roupas de estilo masculino. Mme. Durocher achava o vestuário mais cômodo para os trabalhos da nova profissão e mais decente para uma parteira. Julgava que esse aspecto experior deveria inspirar confiança na parturiente, distinguindo a parteira das demais mulheres. Certamente era também uma necessidade na época, quando as poucas mulheres que se aventuravam a sair à noite sozinha eram tomadas por prostitutas.

Talvez aqui serja necessário fazer um parêntesis e lembrar que o período em que Mme. Durocher se tornou parteira pode ser considerado como o início de uma nova época na assistência ao parto no Brasil. Até então as únicas exigências para o ofício eram provar experiência e passar por um exame, o que, aliás, nem sempre era cumprido. Os partos eram realizados quase que exclusivamente no domicílio da parturiente, assistidos por outra mulher. Não havia maternidades e dar à luz fora de casa, na enfermaria da Santa Casa, era apavorante. O recurso era usado apenas em casos de partos complicados, pois as mortes eram frequentes, pela falta de controle das infecções. Ajudar no parto e dar os primeiros-socorros aos recém-nascidos fazia parte das atribulações do sexo feminino, cujos conhecimentos eram transmitidos de geração para geração. Tanto as senhoras faziam o parto de suas escravas, parentes e vizinhas, como as escravas partejavam as senhoras.

A partir do início do século XIX, os médicos passaram a taxar como ignorantes e a perseguir não só as parteiras, mas todos os práticos que se dedicavam à cura, como sangradores, boticários, dentistas, numa tentativa de uniformizar o saber e evitar a concorrência. Para poder exercer essas atividades, passou-se a exigir diploma, obtido nas duas únicas faculdades de medicinas existentes no país, a do Rio de Janeiro e a da Bahia, criadas em 1832. No caso das parteiras, a formação deveria ser obtida no Curso de partos, anexo à Clínica Obstétrica (então nomeada Cadeira de Partos, Mulheres Pejadas e Recém-Nascidos). Os médicos eram responsáveis pelo regulamento e ensino, o que reforçava a posição de autoridade em relação às parteiras e legitimava normas de conduta segundo os preceitos por eles estabelecidos. Porém, eles ainda tinham muita dificuldade em ter acesso ao quarto das parturientes: só eram chamados em partos difíceis, quando era necessária alguma operação.

O número de parteiras formadas no Brasil, no século XIX, foi pequeno. Para a inscrição, exigía-se que as alunas fossem alfabetizadas e soubessem francês. A maioria das parteiras continuou a exercer a função sem diplomada. Boa parte das parteiras diplomadas vinha de outros países. Muitas, além de fazerem o parto no domicílio das parturientes, recebiam clientes em casa. Aí eram atendidas em geral escravas, negras livres, e mulheres que por alguma razão estavam impedidas de dar à luz em suas próprias casas, como por exemplo as provenientes do interior, as mães-solteiras e as viúvas. Esses estabelecimentos não possuíam boa fama, pois havia rumores de que também faziam abortos.

Para acessar o artigo completo visite o site da ONG Amigas do Parto

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Poema matuto - a parteira


escrito por: Tricia em quinta-feira, novembro 30, 2006 às 11:49 AM.


dessa vez é pra ouvir...
duvido você não abrir um sorriso... ou encher os olhos de lágrimas.

Clique aqui para ouvir o Poema matuto - A parteira

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Parteira, profissão que renasce


escrito por: Tricia em às 11:40 AM.

Unindo ciência e tradição, enfermeiras obstétricas ganham espaço na assistência ao parto
LÚCIA NASCIMENTO

Às seis horas da manhã de uma sexta-feira, Helka enfrentava as dores do trabalho de parto num congestionamento da Marginal Tietê, na capital paulista. Chegou a pensar em correr para o hospital mais próximo, mas desistiu. Seu primeiro filho, Yan, hoje com 9 anos, nascera num parto cheio de intervenções médicas desnecessárias, e agora ela queria um atendimento mais humanizado, sem correria nem tratamento impessoal.

Quando finalmente chegou à Casa de Parto de Sapopemba, na zona leste da cidade, as enfermeiras obstétricas vieram recepcioná-la na porta, chamando-a pelo nome – apesar de ela ter estado ali apenas uma vez. Helka recebeu massagens e tomou chás para aliviar a dor e logo a bolsa estourou.

Após encontrar uma posição confortável para o parto – ela preferiu ficar na vertical –, sentiu-se pronta e segura para o grande momento. A todo instante as enfermeiras explicavam os movimentos do bebê e o porquê de cada dor, tranqüilizando-a. Às sete e quarenta Rav nasceu e, antes mesmo de ter o cordão umbilical cortado, foi para o colo da mãe.

No imaginário cultural brasileiro, as figuras de assistência ao parto se resumem a médicos, em hospitais, e parteiras, em áreas pobres do interior do país. Uma figura ainda pouco conhecida, mas que tem ganhado o reconhecimento do governo e da sociedade, é a das parteiras profissionais – enfermeiras obstétricas que atuam nas grandes cidades e vêem o parto como um evento natural, que, se estiver bem preparado e livre de complicações, pode muito bem ocorrer fora de um hospital.

Como herança das parteiras tradicionais – que aprenderam o ofício na prática –, essas profissionais sabem da importância de tratar a mulher como protagonista no parto, respeitando seus desejos e aliviando as dores com conforto emocional, técnicas de relaxamento e chás. Diferentemente do que acontece na zona rural, entretanto, elas foram formadas em universidades para fazer o parto de gestantes de baixo risco e são tão capacitadas quanto os médicos obstetras para esse atendimento.

Locais de atuação

O bairro de São Mateus, no extremo leste da capital paulista, tem 400 mil habitantes e é um dos mais pobres da cidade. Lá, o Hospital Geral de São Mateus, pertencente ao Sistema Único de Saúde (SUS), possui um Centro de Parto Natural (CPN), inaugurado em dezembro do ano passado. Nessa unidade, as enfermeiras obstétricas prestam assistência em suítes individuais, que garantem privacidade e segurança, pois têm à disposição todos os equipamentos necessários para cuidar da mãe e do bebê.

A criação de locais acolhedores em hospitais de regiões pobres das grandes cidades é uma conquista, na opinião de Teresa Sá Martins, enfermeira obstétrica e supervisora do CPN de São Mateus. Segundo ela, ali a gestante é incentivada a levar um acompanhante, que pode ficar a seu lado durante o trabalho de parto e o nascimento. Além disso, a mulher tem liberdade de movimentos, escolhe a posição mais confortável, se alimenta se tiver vontade e não precisa ficar recebendo soro. Pode, ainda, utilizar uma banheira de hidromassagem para relaxar nos intervalos entre as contrações.

No Centro de Parto Natural, como o próprio nome indica, as intervenções médicas só ocorrem quando surgem complicações. A filosofia é permitir que a mulher se sinta à vontade e deixe seu organismo agir livremente, sem uso de hormônios para acelerar o processo, sem cortes para facilitar a saída do bebê (a chamada episiotomia) e com a utilização de métodos alternativos de relaxamento.

Márcia, de 21 anos, que teve seu segundo filho em junho deste ano no CPN, declara: "Foi muito bom. As enfermeiras são cuidadosas, deixam comer e andar, não tiram o bebê de perto e também não colocam a gente no soro". Foi esse atendimento diferenciado que Helka Luciana de Azevedo, assistente de fotografia, de 31 anos, buscou na Casa de Parto de Sapopemba.

Diferentemente dos CPN, que ficam dentro de hospitais, as casas de parto tanto podem estar acopladas a um hospital como apenas ter um de referência, para onde são encaminhadas as gestantes que apresentam algum problema durante o trabalho de parto. Helka, no entanto, apesar de ter ficado satisfeita com o tratamento, tem uma queixa: "Bem que podiam ampliar o número de casas de parto, colocando uma em cada região da cidade".

"Hoje, há apenas cinco casas de parto funcionando a pleno vapor no país: a do Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte; a de Juiz de Fora (MG); a Casa de Parto David Capistrano Filho, no Rio de Janeiro, e duas na cidade de São Paulo: a Casa de Maria e a Casa de Parto de Sapopemba", afirma Isa Paula Hamouche, técnica da área de saúde da mulher do Ministério da Saúde. E a principal razão apontada para a pequena quantidade de locais como esses é a falta de disposição dos governos estaduais e municipais.

Por essa razão, as que existem têm sido cada vez mais procuradas. A Casa de Parto David Capistrano Filho, no bairro de Realengo, na pobre região oeste da cidade do Rio de Janeiro, já atendeu a mais de 500 partos desde que foi inaugurada, em 8 de março de 2004. Como não é acoplada a um hospital, uma ambulância fica de plantão 24 horas por dia, para transportar gestantes que apresentem algum problema até a Maternidade Alexander Fleming, que fica a 8 quilômetros do local. Nesses casos, a equipe do hospital – onde também trabalham algumas das enfermeiras obstétricas da casa de parto – é imediatamente acionada.

Riscos

Além do atendimento em casas de parto e em centros de parto natural, as enfermeiras obstétricas (e também alguns médicos) prestam assistência em casa. Essa modalidade, no entanto, ainda é vista com cautela no Brasil. Em países como Holanda e Inglaterra, o parto domiciliar é incentivado, chegando, respectivamente, a 40% e 47% do total.

Para a socióloga e diretora da organização não-governamental Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia), Jacqueline Pitanguy, dar à luz em casa não significa abrir mão do que a tecnologia pode oferecer. Se o bebê está bem posicionado e o pré-natal foi bem feito, não há problema.

A classe médica, em geral, se mostra contrária. "Pode-se fazer parto domiciliar? Sim, mas não se deve. Os riscos são raros, talvez de menos de 1%, mas quando surgem podem ser fatais para o bebê e até para a mãe. Mesmo com uma ambulância à disposição, numa cidade como São Paulo são muitas as variáveis. A mulher precisa saber que corre um risco", afirma Mario Macoto Kondo, diretor técnico do Centro Obstétrico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP).

Nem todos, no entanto, vêem problema no fato de dar à luz fora do ambiente hospitalar. A começar pelo Ministério da Saúde: "É um direito da mulher escolher onde vai ter seu bebê. No mundo inteiro se discute o movimento de descentralização do atendimento ao parto e a saída desse procedimento da maternidade. Em alguns momentos, o aparato hospitalar pode até ser negativo para a mulher", afirma Isa Hamouche.

"O modelo que deve vingar é o que une a casa de parto – com assistência de enfermeiras obstétricas, ambiente familiar e privacidade – a um hospital, onde a total segurança também está garantida", enfatiza Aníbal Faúndes, coordenador de estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pesquisador do Centro de Pesquisas Materno-Infantis de Campinas (Cemicamp).

De acordo com Simone Grilo Diniz, médica e professora do Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP, embora o parto ainda seja descrito por muitos médicos como um evento de risco, as mais recentes evidências científicas mostram que, ao contrário, para mulheres que não apresentam problemas de saúde ou alterações durante a gravidez não há nenhum perigo. "O máximo que se puder fazer para não atrapalhar o processo fisiológico, melhor. Isso não significa que não se deva estar atento. A maioria das mulheres só precisa de vigilância – ver se mãe e bebê estão bem – e privacidade", declara.

Essa idéia também é defendida por quem presta assistência a partos domiciliares. "O ambiente acolhedor do lar facilita a liberação de oxitocina e de endorfina, hormônios necessários para que o parto aconteça de forma natural", argumenta Heloísa Lessa, enfermeira obstétrica que atua no Rio de Janeiro e membro da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (ReHuNa).

Cláudia Orthof, médica e também membro da ReHuNa, trabalha em equipe com Heloísa e garante que nenhuma gestante que possa apresentar complicações terá o parto feito em casa. Por precaução, em todos os nascimentos um obstetra e um pediatra são contatados e ficam em alerta para qualquer eventualidade.

Para Vilma Nishi, enfermeira obstétrica que já realizou mais de 80 partos domiciliares na cidade de São Paulo, o maior problema é a mulher não admitir fraquejar. "Quando combino de atender um parto em casa, já aviso à futura mãe: se eu disser ‘agora é hora de ir para o hospital’, não há por que discutir. Nunca tive de sair correndo, mas há casos em que a gestante apresenta algum bloqueio ou se sente insegura. Nessas circunstâncias, vamos para um hospital." Por via das dúvidas, Vilma mantém um esquema de referência montado. Como a maioria das mulheres que atende possui plano de saúde, orienta as gestantes para que façam o pré-natal com ela e também com um médico do convênio. "Se for preciso ir para o hospital, haverá alguém para – como elas dizem – ajudar no ‘plano B’", declara.

Heloísa completa que ter um esquema de referência por perto é fundamental: "Se estou a três horas de um hospital, o risco de atender em casa pode ser grande. Mas, se puder chegar lá em cinco minutos, não há problema. O parto domiciliar é seguro, desde que os limites sejam respeitados".

Convergência

Um ponto a respeito do qual todos concordam é a necessidade de melhorar o pré-natal, para evitar que complicações imprevistas atrapalhem o andamento do trabalho de parto em mulheres saudáveis e sem alterações. "Uma coisa que pesa muito é o vínculo que se estabelece durante o período de gravidez. O pré-natal, na minha opinião, tem de ser feito de 15 em 15 dias, com pelo menos uma hora e meia de consulta. Quando se procede dessa maneira, trabalhando todas as questões envolvidas, a opção pelo parto domiciliar é praticamente uma conseqüência", afirma Heloísa.

"A questão mais importante é o preparo da paciente, que muitas vezes não acontece de forma adequada. Num pré-natal bem-feito, é possível identificar fatores que podem levar a riscos no trabalho de parto. Mas, de modo geral, o enfoque é muito tecnicista, e a dimensão humana acaba sendo deixada de lado. Essa é uma deficiência, hoje, em obstetrícia. O médico faz exames brilhantes e se esquece do aspecto emocional", declara Mario Kondo.

A convergência entre as duas classes, entretanto, se resume praticamente ao pré-natal. Em 2004, por exemplo, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) tentou impedir, sem sucesso, o funcionamento da Casa de Parto David Capistrano Filho, e entrou com uma ação na Justiça que pedia o fechamento da instituição.

Algumas décadas atrás, o antagonismo não era tão acentuado. Até 1970, as parteiras profissionais eram formadas na faculdade de medicina, no curso de obstetrícia, e trabalhavam em conjunto com os médicos. A partir de meados desse ano, porém, quando a profissão se tornou uma especialização da enfermagem e houve a proliferação dos planos de saúde, os conflitos hierárquicos passaram a ser constantes. "Acaba então a parceria que existia nas clínicas particulares. Um fator relevante foi a má remuneração feita pelos convênios, que incentivou os médicos a aumentar o número de gestantes que atendiam, dando preferência à cesárea – prática na qual enfermeiras obstétricas não podem atuar. No fim da década de 1980, a rivalidade entre as classes já era extremamente crítica", esclarece Dulce Gualda, coordenadora do curso de obstetrícia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Leste, que, criado em 2005, trouxe de volta a possibilidade de formação universitária de parteiras profissionais.

"Hoje, há muitas mulheres morrendo de causas evitáveis no Brasil, e isso é bastante grave. Os médicos, de maneira geral, não confiam nas enfermeiras obstétricas para a assistência a gestantes de baixo risco, mas como confiar na classe médica como um todo se o índice de mortalidade materna é absurdo?", questiona Heloísa.

Mortalidade materna

É realmente impressionante: 75 brasileiras, em cada grupo de 100 mil mulheres, morrem por complicações do parto ou durante a gravidez. As estimativas, entretanto, são de que esse número chegue a 130, se forem considerados os casos em que a morte não é registrada como decorrência de complicações durante ou após o parto. Em países desenvolvidos, como a Inglaterra, são cerca de dez mortes por 100 mil.

Em parte, o índice de mortalidade materna se deve à elevada taxa de cesáreas no país, que ultrapassa os 15% recomendados pela OMS. As estatísticas falam por si mesmas: no Brasil, pouco mais de 3% das grávidas têm seus bebês em casas de parto ou na própria residência. Entre as que dão à luz no ambiente hospitalar, o parto natural também não é o preferido: de acordo com o Ministério da Saúde, 39,71% fazem cesáreas no sistema público de saúde e, nos hospitais particulares, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), esse percentual sobe para 79,7%.

Esses dados – alarmantes – colocam o Brasil na posição de vice-líder mundial em número de cesáreas, atrás apenas do Chile. "Esse tipo de parto eleva o risco de infecções, de hemorragia e até de a mulher precisar retirar o útero", alerta Aníbal Faúndes. Além de aumentar as probabilidades de complicações graves como essas, e ainda de pneumonia e septicemia, a cesárea traz, para cerca de um terço das mães, problemas como febre, hematoma, infecção no trato urinário ou no útero, ferida cirúrgica e paralisia do intestino ou da bexiga.

"A comparação entre bebês nascidos de cesáreas por razões não-médicas e os de partos vaginais também comprova que, no primeiro caso, é quase cinco vezes maior o risco de haver necessidade de cuidados intensivos ou semi-intensivos, ou ainda de assistência respiratória", alerta Simone.

Além disso, deve-se considerar que há diversos procedimentos médicos invasivos realizados rotineiramente no ambiente hospitalar, como raspagem de pêlos, lavagem intestinal, uso de soro e de hormônios para acelerar o processo, episiotomia e jejum, entre outros. "A maioria dessas intervenções é imposta, ou seja, a mulher nem é consultada. Tudo isso acabou por transformar o parto natural que acontece em hospital em uma coisa horrenda, levando muitas grávidas a optar pela cesárea, por acreditar que é menos dolorida", lamenta Simone.

A perspectiva é que as mudanças iniciadas no modelo de assistência ao parto no Brasil se consolidem lentamente, graças, inclusive, à reabertura do curso de obstetrícia destinado à formação de parteiras profissionais. De acordo com Dulce Gualda, os alunos da EACH (também há homens na graduação: de 60 matriculados, oito são do sexo masculino) recebem "uma visão de parto num contexto mais amplo, de cultura, de sociedade, de envolvimento político, de transformação do sistema. É um curso que começa com a saúde e depois entra na doença, diferentemente do enfoque tradicional, que tende a se fixar nesta última". A absorção desses profissionais no mercado de trabalho ainda é, contudo, uma incógnita.

FONTE: Problemas Brasileiros

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As Parteiras de Pernambuco


escrito por: Tricia em terça-feira, novembro 28, 2006 às 1:47 PM.



Você pensa que as parteiras foram extintas, não é? E que elas só servem para fazer abortos clandestinos hoje em dia. Tudo mentira. Existem sim. Especialmente aqui no nordeste do pais. Acontece que devido a falta de apoio politico, e do crescimento da tecnologia, elas foram confinadas a uma posição, foram discriminadas pela propria sociedade, pela urbanização das cidades.

Eu acredito nas parteiras. Acredito em sua sabedoria. E procurando sobre elas na web, me deparei com esta ONG que fica em Pernambuco. Vi o video deles, e fiquei super feliz! Existe vida neste planeta! Existe apoio sim! =)

É uma pena que no Ceará, elas estejam tão escondidas. Quase não se fala delas. Em Pernambuco, é bem mais facil de se encontrar com uma assim, no meio da rua.



Grupo Curumim

O Grupo Curumim começou em 1989 como pequena organização de defesa da profissão de parteira, mas se transformou em uma iniciativa muito mais ampla para a melhoria de serviços de saúde, aumentando a sexualidade e a educação reprodutiva, diminuindo a mortalidade materna, humanizando o parto e legitimizando a profissão de parteira. Sediado na cidade litorânea de Recife, estado de Pernambuco, na Região Nordeste do Brasil, o Grupo Corumim organiza worlshops e seminários para adolescentes que moram e/ou trabalham nas ruas sobre temas como cuidados básicos da saúde, auto-estima, anticoncepcionais, direitos humanos, violência contra o gênero, sexualidade, parto e prevenção do HIV/AIDS. O Grupo Corumim proporciona aos adolescentes informação exata e de empoderamento sobre sua saúde e direitos sexuais e reprodutivos e espera assim diminuir a gravidez e retardar a disseminação do HIV/AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, o Corumim educa médicos, provedores de saúde e pessoal hospitalar a respeito das necessidades específicas dos adolescentes, a fim de assegurar que o sistema de saúde pública proporcione cuidados com respeito e de modo abrangente.

Para assistir o videoclipe do livro "Mulheres e Parteiras - Cidadania e Direitos Reprodutivos", clique neste link aqui.

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Pajés e parteiras indígenas ganham novos conhecimentos sem renunciar a sua cultura


escrito por: Tricia em sexta-feira, novembro 24, 2006 às 8:59 AM.


Juracy Xangai

Mais de 380 parteiras indígenas, pajés e agentes de saúde indígena participaram das oficinas realizadas ao longo deste ano para a troca de experiência sobre os cuidados no parto e a saúde nas aldeias.

As oficinas vem sendo realizadas pela Organização das Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (Sitoakore) liderada pela índia Letícia Yawanawa.

Segundo ela, esse é um trabalho de resgate e valorização das funções das parteiras e pajés que ao longo dos últimos anos foram sendo postos de lado pelas autoridades dos serviços públicos de saúde em seus programas. Assim, possivelmente sem ter esse objetivo, acabaram por prejudicar a força e a continuidade de muitas tradições, que tem sido fundamentais para a agregação social e a sobrevivência dessas comunidades.

“Infelizmente os serviços oficiais de saúde não reconhecem nossas parteiras com seus conhecimentos tradicionais, nem os pajés como nossos médicos que são. Estas pessoas já contribuíram e continuam contribuindo para a sobrevivência de nosso povo e a preservação de nossa cultura”, afirma Letícia.

Ela reclama do fato de que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) quando chama a parteira ou o agente de saúde para um treinamento, não convida junto o pajé que é o primeiro a ser procurado pelas pessoas da aldeia quando sentem problemas de saúde física ou espiritual.

“Essa situação em se que cria uma separação que tradicionalmente não existe em nossa cultura porque pajé e parteira trabalham juntos e tem o respeito de todos. Ao chamar o pajé para discutir as questões da saúde está sendo dado maior valor à pessoa dele, ao mesmo tempo que ele estará aproveitando novos conhecimentos para orientar os jovens e mulheres das aldeias”.

A série de oficinas que vem sendo realizadas nos municípios do Acre, será encerrada em março do ano que vem com a realização de um encontro estadual de parteiras tradicionais e pajés que acontecerá em Rio Branco.

“Nele estaremos discutindo a formação de uma política pública destinada a atender de maneira diferente os serviços de saúde destinados às comunidades indígenas, até porque é possível levar novos conhecimentos às parteiras e pajés sem desrespeitar nossos costumes e tradições”.

FONTE: UOL

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O Treinamento Formal de Parteiras: Algumas iniciativas


escrito por: Tricia em quinta-feira, novembro 23, 2006 às 6:18 PM.

“ Formal training of midwives: some initiatives”

RESUMO
Este artigo tem como objetivo apresentar alguns exemplos de iniciativas de formalização do saber das parteiras feitas pelos Estados nacionais, de instituições religiosas e por ações da classe médica organizada em grupos.O método utilizado neste estudo é o da História Social, tendo como fonte trabalhos historiográficos sobre o tema do saber das parteiras. A análise destes textos leva a conclusão de que o objetivo dos treinamentos era a elevação de status do (a) praticante e a regulação da parturição sob o controle do saber médico acadêmico.

Palavra-chaves: Parteiras tradicionais, treinamento formal, saber médico.

ABSTRACT
This article has as an objective present some examples of initiative of the knowing formalization from midwives made by the national states or by actions from the medical class organized in groups. Social History is the method used in this study, having as source historiographic works about the midwives´ knowing theme. The analysis of these texts takes the conclusion that the training´s objective was the
practicing´s elevation of status and the regulamentation of the normal parturition under controle of the academic medical knowing.

Key-words: Midwives, midwives´ knowing, regulamentation of parturition.


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Durante séculos, as mulheres contaram na hora do parto com ajuda de outras mulheres, ou mesmo passavam por esta experiência de forma solitária. O evento do parto estava ainda envolto de mistérios e tabu. Ao longo dos tempos algumas mulheres ficaram conhecidas pela sua habilidade em ajudar as parturientes e ampará-las neste momento delicado. Por este motivo, elas destacaram-se socialmente. Sendo assim, passaram a ser requisitadas em preferência a outras pessoas para acompanhar as mães em trabalho de parto. Desta forma, surge a especialização de uma prática: a parturição e com ela as parteiras. Tendo em vista o caráter informal do inicio da prática da assistência ao parto, este texto apresenta algumas iniciativas de formalizar a prática das parteiras, através da padronização do seu saber, seja pela exigência de exames teóricos e ou práticos para a obtenção de licença, seja pela instituição de cursos, escolas ou treinamentos exigidos e impostos pela autoridade dos médicos ou da Igreja e com o apoio do Estado através da força da lei.

Veremos então, que nem sempre tais iniciativas surtiam os efeitos esperados por seus
idealizadores e que uma efetiva regulação da prática das parteiras, uniformizando o treinamento para todas, era uma tarefa que necessitava de transformações na mentalidade das autoridades envolvidas, da clientela e das próprias parteiras, e que mesmo assim, foi de difícil realização.

Investigar os objetivos dos primeiros idealizadores de uma formalização dos conhecimentos utilizado por parteiras torna-se importante na medida em que possibilita entender as formas de intervenção no saber prático e tradicional destas mulheres pelo saber da medicina científica da época. Pesquisar estas iniciativas pode ajudar a compreender o papel exercido por elas, como parte de um conjunto de estratégias para delimitar e manter sob o controle dos médicos o campo da obstetrícia médica, o qual buscava se estabelecer em meio a outras especialidades da medicina como um ramo tão relevante para a sociedade quanto seus irmãos.

As primeiras iniciativas: As licenciadas e as examinadas.

Até o século XVI o cuidado das doenças femininas não despertava grande interesse aos
médicos. O parto era um ritual de mulheres, as quais eram atendidas por parteiras e por uma rede feminina de solidariedade. Sendo assim, as parteiras não contavam com nenhuma formação especializada, tendo apenas a própria experiência como referência (ROHDEN, 2001). É a partir do mesmo século que se iniciam as tentativas de regulamentação de suas atividades. Na Inglaterra se estabelece uma licença para as parteiras administrada pelas autoridades eclesiásticas anglicanas. A Igreja tinha como prioridade vigiar a conduta moral das parteiras e tê-las como exemplo de comportamento virtuoso. Na França as tentativas de regulação que ocorreram no século XVI também estavam mais sujeitas às iniciativas do clero apoiadas pelo poder real. A Igreja e Estado estavam interessados em lutar contra o aborto, o infanticídio e também contra o protestantismo. Os médicos franceses também vão se destacar por terem inaugurado a luta contra as parteiras. Porém, aceitar um médico à beira do leito da parturiente não se dava sem problemas. As parturientes, mesmo em casos de grande risco, por questões de recato, não se expunham ao atendimento masculino. Na Escócia inaugura-se o ensino de nível universitário para as parteiras em 1726 na Universidade de Edimburgo. Em Londres, na segunda metade do século proliferam as escolas privadas de parteiros, homens e mulheres. Contudo, é apenas em 1783 que o College of Physicians decide conceder uma licença em arte obstétrica, distinguindo os praticantes que se sujeitassem a um exame (ROHDEN,2001).

No Brasil colonial, as longas distâncias e a escassez de recursos, entre as mais variadas dificuldades, não estimulavam os médicos formados na Europa a virem aqui atuar. O que se encontrava com facilidade por estas terras eram os cirurgiões aprovados. A brevidade na formação destes praticantes também era característica das parteiras locais. Elas deveriam se submeter a um exame diante de uma banca formada por físicos e cirurgiões e uma parteira licenciada para a obtenção da carta que regularizava a atividade. Contudo, o que se dava na prática era a concessão de licença mediante apenas pagamento das taxas, pois a grande maioria não sabia ler e escrever Os médicos eram chamados apenas em último caso, quando havia grande risco para mãe e para a criança. Mesmo assim, o excesso de pudor fazia com que a solicitação de um praticante fosse bastante rara (ROHDEN, 2001).

Nas colônias britânicas na América, as primeiras tentativas de se regular a prática das parteiras ficaram a cargo das autoridades civis, já que a Igreja anglicana não estendeu sua supervisão episcopal até o novo mundo (DONEGAN, 1984). Apesar disto, as licenças e a legislação que regulava a prática da parturição continham muitas influências da versão britânica do controle episcopal. As parteiras eram as únicas que assistiam as parturientes, pois havia um forte tabu contra a presença de homens na cena do parto na Grã-Bretanha, e este traço cultural foi transportado para as colônias na América. Este quadro só veio ser questionado com os avanços das técnicas dentro do campo da obstetrícia médica e com o estabelecimento da disciplina de Obstetrícia nas escolas de medicina.(DONEGAN, 1984).


No Brasil: Os Cursos de Partos

Maria Lúcia Mott dedica em sua tese, sobre a primeira parteira formada pelo primeiro curso oficial para parteiras no Brasil (MOTT, 1998), um capítulo inteiro ao treinamento formal das parteiras durante o século XIX. De acordo com seu trabalho, os cursos de partos surgiram junto com as reformas1 do ensino da medicina e estavam sob o controle do saber médico acadêmico. Na reforma de 1832, que criou as Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e Bahia, previu-se a criação de um curso de Obstetrícia para mulheres, com duração de dois anos, sendo que as candidatas deveriam ter mais de dezesseis anos e a apresentar atestado de bons costumes expedido pelo Juiz de paz da freguesia onde esta residisse. O curso era ministrado pelo mesmo professor responsável pela cadeira de partos no curso de medicina.

A reforma que deu origem a este curso em particular foi elaborada pela Sociedade de
Medicina do Rio de Janeiro, e tinha como objetivo a normalização do ensino e do exercício da medicina no Brasil, “seus membros defendiam a uniformização do saber médico, uma medicina baseada na observação, sendo radicalmente contrários a outras formas ou propostas de cura” (MOTT, 1992).

Existiam também cursos livres que ajudaram a complementar a formação de parteiras e
parteiros. Contudo, a prática de assistência ao parto ainda era muito restrita aos alunos do sexo masculino e os atendimentos na enfermaria de partos da Santa Casa de Misericórdia eram poucos, impossibilitando a prática suficiente aos alunos e alunas. A própria Mme Durocher, a primeira parteira formada pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, participou destes cursos livres para melhorar seus conhecimentos em obstetrícia (MOTT, 1998). Entretanto, apenas as faculdades tinham o poder de conferir ao aluno que concluísse o curso o diploma que permitia o exercício da atividade da parturição em todo o território do Império.

Entretanto, foi muito baixa a freqüência feminina no curso destinado às mulheres na época. O número de parteiras formadas por este curso também foi igualmente baixo. Cem formadas em cem anos de existência (MOTT, 1998; PROGIANTI, 2001). Mott levanta algumas hipóteses para a falta de sucesso do curso de partos das Faculdades de Medicina. A primeira diz respeito à dificuldade representada pela proximidade dos dois sexos no ambiente da sala de aula. Segundo a autora, incompatível para os padrões da época. Depois, pelo menos em nível de discurso, as parteiras atendiam as parturientes para prestar-lhes auxílio na hora do parto. Não estava em jogo a remuneração da parteira. A autora diz que, analisando os pedidos de licença, ela encontrou a constante relação entre o ofício de parteira e os conceitos de vocação, missão e caridade. Desta forma, Mott (1992) questiona “se é possível alguém admitir que abraçou a profissão por questões pecuniárias e não humanitárias?” Ela acrescenta que aprender o ofício de parteira a partir dos ensinamentos de um profissional do sexo masculino, dentro de instituição dirigida por médicos, na qual a relação entre médico paciente é regida por uma ética particular, e ainda, admitir remuneração para a assistência ao parto apontam para evidências significativas de uma mudança de comportamento que não se dá com a simples criação de um curso de partos (MOTT, 1992).

Julyan Peard (1999) também trata da pouca procura pelos cursos de partos quando a autora discute as disputas entre os integrantes da escola tropicalista baiana e as parteiras leigas durante o século XIX em Salvador. Peard (1999) ressalta que apenas duas alunas concluíram o curso desde sua criação em 1832 até 1871, ano no qual o Professor Elias Pedrosa constatou o fato. Sendo que uma aluna morreu pouco tempo depois de terminar o curso e a outra nunca exerceu sua ocupação. Peard considera de fácil compreensão o fracasso do curso, já que era exigido das alunas saber ler e
escrever e “boas maneiras”, o que eliminava as possibilidades das mulheres que via de regra desempenhavam a função na Bahia. Outro motivo apontado pela autora, baseado nos registros de Pedrosa, é que estes cursos teriam poucos a oferecer, tendo em vista que não contemplava o ensino prático de atendimento ao parto. No capítulo onde Peard trata dos cursos, a autora dá mais ênfase às denúncias feitas pelos tropicalistas contra as parteiras e aos motivos pelos quais os médicos não tiveram sucesso em atuar de forma majoritária no atendimento às mulheres baianas. Um dos motivos diz respeito à rígida moral sexual, de distanciamento entre os indivíduos de sexos diferentes, imposta pelo sistema patriarcal, dessa maneira, dificultando o atendimento dos médicos às parturientes (PEARD, 1999).

Rohden apresenta a discussão sobre os primeiros cursos de parteira do ponto de vista da constituição da “medicina da mulher”2. Ou seja, o ensino da obstetrícia voltado para a formação do médico. Ela explica que a arte obstétrica era lecionada desde 1809 na Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro e a cadeira de partos, que constava do currículo das academias Médicas e Cirúrgicas do Rio de Janeiro e Bahia, é integrada definitivamente quando estas se transformam nas Faculdades de medicina, criadas em 1832 (ROHDEN, 2001). A cadeira de partos era a única dedicada especificamente ao corpo feminino dentro dos currículos das faculdades desde a criação das mesmas. E parecia que não despertava muita atenção. Os médicos se dedicavam muito mais a exercer sua autoridade na regulamentação da prática das parteiras. Em 1832 é criado o curso feminino para que elas aprendessem de acordo com os preceitos vigentes da ciência a maneira adequada de atender as mulheres no momento do parto e os primeiros cuidados com a criança (grifo meu). Seguindo o pensamento da autora, passou-se desde então, a propagar a idéia das parteiras com certificado concedido pelos médicos, tornando-as mais legitimas e requisitadas pelas famílias mais ricas. Contudo, concomitante à instauração dos cursos, chegaram ao Porto do Rio de Janeiro as parteiras estrangeiras, sobretudo as francesas, que trouxeram novas técnicas e prescrições. Muitas conseguem fama e prestígio, o que é pouco comum para as mulheres da época (ROHDEN, 2001).

A prática das parteiras passa a ser cada vez mais visada, exigindo das parteiras francesas que no país aportaram, assim como das brasileiras, um exame aplicado por médicos delegados para que o diploma de parteira fosse registrado na Câmara Municipal. Mesmo assim, continua a autora, o recurso a “comadre” ou “curiosa” mantinha-se como prática corriqueira (ROHDEN, 2001).

Rohden também fala de um projeto, o primeiro que se tem notícia, dedicado ao ensino e
prática da obstetrícia que previa a fundação de um hospital-maternidade. Ele é apresentado por Florêncio Stanislau de La Masson em 1832. Este projeto teve parecer favorável da Câmara dos Deputados, mas o relator nomeado para o caso, o professor da cadeira de partos, Júlio Xavier, vetou os planos de La Masson (ROHDEN, 2001). Contudo, a autora não menciona que o projeto de La Masson não se destinava apenas ao estabelecimento de uma maternidade–escola, mas que seu autor pretendia ali ensinar somente mulheres. Ou seja, um curso destinado a formar parteiras, que teria finalidades filantrópicas. Sendo assim, La Masson buscava recursos para custear seu projeto junto à Regência e aos governos das Províncias (MOTT, 1998).

O veto dado por Xavier, transformado em treze anos de silêncio sobre o projeto, foi justificado com o argumento de que La Masson não fazia parte do corpo acadêmico e não tenha diploma reconhecido no Brasil. E ainda, que o autor do projeto queria se colocar acima das Faculdades de Medicina, já que o curso iria fornecer diplomas e a lei previa que as únicas instituições autorizadas para isso seriam as faculdades do Rio de Janeiro e Bahia. Somando-se aos impedimentos anteriores, Xavier salienta a discordância com o fato de que o ingresso de alunos do sexo masculino era vetado (grifo meu). Para finalizar, o relator da comissão questiona a finalidade filantrópica do projeto. Visto que as alunas para estudarem teriam que pagar e as parturientes além de passarem pelo “vexame” de serem objeto de estudo, teriam também que pagar pelo atendimento (MOTT, 1998).

Outro curso foi organizado e levado acabo na província de Pernambuco, criado pela lei
Provincial de Pernambuco n º 87, art, 33 de 06/03/1840. A justificativa para a sua criação foi em função da dificuldade das alunas de Recife se deslocarem para Salvador e Rio de Janeiro. As aulas se iniciaram em julho de 1840 e eram ministradas por Simplicio Antonio Mavgnier. A matrícula era gratuita e as exigências eram semelhantes àquelas feitas pelas faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e Bahia. No currículo estava previsto o ensino de arte obstétrica teórica e prática, compreendendo Anatomia, Fisiologia e moléstias provenientes do parto. Apesar de estar sujeito à inspeção do diretor do Liceu, o curso estava estabelecido fora de suas instalações, as aulas eram ministradas no Hospital Paraíso (MOTT, 1998).

Este curso também esbarrou em questões legais que inviabilizaram sua continuidade, pois apenas as Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e Bahia eram as únicas autorizadas a fornecer diplomas. O curso do Liceu também estava fornecendo diplomas e autorizando o exercício da profissão às alunas. Uma longa discussão se sucedeu entre as autoridades até que “através de uma carta confidencial do ministro de Estado dos Negócios de Império, ao presidente da província de Pernambuco, fica-se sabendo o que foi resolvido: as alunas da cadeira de Obstetrícia não deveriam ser matriculadas na Junta Central de Higiene, porém poderiam continuar a exercer o ofício sem serem perturbadas!” (MOTT, 1998).

Após a morte de Mavgnier, o curso entrou em declínio até que o governo perdeu o interesse por ele e o extinguiu (Maria Mott não conseguiu precisar a data de término). Em 1875 foi reaberto um curso de partos em Recife, no Hospital Pedro II. Consta que ainda no ano de 1884 o curso continuava funcionando regularmente, habilitando normalmente as alunas (MOTT, 1998).


Outras iniciativas: Estados Unidos

Um fator foi decisivo para as primeiras iniciativas nos Estados Unidos para a criação de cursos para parteiras: o desenvolvimento e consolidação do ramo da medicina dedicado a assistência à gestação e parto, ou seja, a obstetrícia. Igualmente decisiva foi a importância social que o médico começou a adquirir com o estabelecimento de terapêuticas mais eficazes. Conforme novas técnicas e instrumentais foram sendo desenvolvidas pelos obstetras, possibilitando a eles um maior sucesso e humanização nos atendimento aos partos difíceis, e desta forma, ampliando as possibilidades de atendimento aos partos normais; e com a gradual inclusão da cadeira de obstetrícia nos currículos das escolas médicas, fortaleceu-se a idéia de que os obstetras eram experts no assunto. O que nem sempre correspondia a realidade (DONEGAN, 1984). Sendo assim, a parteira tradicional negava com seu conhecimento prático e a grande maioria dos atendimentos com bons resultados, todo o arsenal tecnológico que os médicos desenvolveram no sentido de tornar o parto ditócico3 mais rápido e seguro. Outro aspecto fundamental para a iniciativa dos cursos, no que diz respeito à sociedade norte-americana, foi a transformação do evento do parto, tido como de natureza familiar e social, para um evento médico potencialmente patológico. Isto se deu através de um esforço de convencimento da clientela levado a cabo pelos médicos. Tal mudança passou a exigir o atendimento de um especialista que dispusesse de um conhecimento sofisticado e elaborado para o manuseio dos instrumentos (tais como o fórceps, o pelvímentro, o estetoscópio), para manter o andamento do trabalho de parto longe dos riscos potenciais. Ou seja, sob controle dos médicos (DONEGAN, 1984).



Se o parto não é mais um evento natural da vida da mulher e requisita conhecimentos especiais para mantê-lo dentro de padrões de segurança e riscos controlados, como atender às mulheres sem ofender a moral e a pureza feminina, expondo-as aos olhos e mãos masculinas? A resposta, para boa parte da classe médica, seria o treinamento de parteiras. A mesma atitude cultural que delimitou a mulher a “natural esfera doméstica” (apoiada pelo saber da medicina do período), e que fez pensar que uma verdadeira mulher não seria capaz de ser treinada para desempenhar uma atividade tão “delicada” sem ferir sua modéstia e virtude, preferiu treinar mulheres para atendimentos aos partos e evitar expô-las excessivamente às técnicas e aparelhos utilizados exclusivamente pelos obstetras. Não se tratou de uma verdadeira tendência de restaurar-se a parturição para a mulher com inspiração no movimento de direitos femininos (este buscava alargar as oportunidades de estudo e atividades profissionais para as mulheres). Mas sim, remover da sociedade o paradoxo criado pelo conflito das demandas de modéstia e segurança (DONEGAN, 1984).

Houve tentativas do governo colonial, e posteriormente, do estado nacional em implementar um Plano Continental para o estabelecimento de escolas onde as parteiras pudessem receber treinamento formal, embora sem sucesso. Também é verdade que todas iniciativas de organização de ensino para a formação de médicos, não recebiam auxílio governamental. O que surgem são escolas médicas de origem privada, as quais recebiam também mulheres para treinamento em Obstetrícia. O que significou muito mais o início do ingresso no ensino de nível superior em medicina para as mulheres, do que apenas o treinamento formal das parteiras já existentes (DONEGAN, 1984).

Mas, nem os críticos dos praticantes masculinos, nem os aliados da causa das mulheres
conseguiram restaurar a obstetrícia para a mulher. Apesar dos argumentos destes dois grupos chamassem a atenção para a incongruência da mulher gestante aceitar o serviço de um parteiro e ao mesmo tempo conseguir observar os ditames do rígido código de moral. Mesmo assim, aos poucos, após 1850, passou a ser costume entre as mulheres de classe-média e classe-alta chamar um médico para o atendimento dos partos, mesmo em casos normais. A idéia de progresso da ciência e a promessa de um parto rápido e seguro fizeram com que a solicitação de um doutor se tornasse cada vez mais comum entre as famílias de mais recursos nas grandes cidades do norte dos Estados Unidos (DONEGAN, 1984).

Nos anos iniciais do século XX, os serviços de uma parteira já tinham sido em boa parte substituídos pelos de um médico nas grandes cidades americanas. Sobretudo para aqueles que podiam pagar os honorários de um doutor. Contudo, nos locais mais istantes, desprovidos de recursos médicos e onde a população era pobre, a parteira era praticamente a única a prestar assistência ao parto. Ela também provia serviços médicos através de cuidados à mãe e ao recémnascido. Houve debates quanto à extinção ou não da prática das parteiras entre os membros da classe médica. Eles consideravam a atuação das parteiras como um problema de saúde pública, pois a idéia da grande responsabilidade das parteiras por contaminar as parturientes e os recém nascidos com infecções pós-parto, em função de sua falta de treinamento formal, ou seja, pelo desconhecimento de práticas higiênicas era constante. Tal idéia era compartilhada entre os doutores, seja qual for o lado em que estivessem os debatedores, a favor da manutenção ou simpatizantes do término da prática das parteiras (Kobrin, 1984).

Esta preocupação levou a alguns estados mais pobres dos Estados Unidos, como o Mississippi nas décadas iniciais do século XX, a criarem, dentro de seu Quadro Estatal de Saúde, programas para regular a prática das parteiras leigas. Estas, em grande número, atuavam em precárias condições. No Mississippi elas fizeram boa parte dos partos até 1940. Nas comunidades afro-americanas as parteiras realizaram 80% de todos os partos até aquela data. Com a instituição de um programa de treinamento para melhorar o atendimento dado pelas parteiras, houve a aproximação entre elas e as enfermeiras de Saúde Pública. As parteiras negras, conhecidas como “grannies”, foram muito atuantes nos programas do Quadro de Saúde Estatal, auxiliando na propagação dos hábitos de higiene e na realização de campanhas de vacinação entre a comunidade negra.

A importância social destas mulheres em suas comunidades fez com que elas se tornassem um corpo informal do Quadro de Saúde. O respeito e confiança que a população depositava nas parteiras, e o interesse das mesmas em promover melhores condições de saúde para suas comunidades, fez com que os oficiais do Quadro de Saúde modificassem sua opinião sobre as “grannies”, passando a ver estas mulheres como uma ajuda importante nos programas de Saúde Pública, um verdadeiro elo de ligação entre as ações do estado na área da saúde e as comunidades.

Elas não eram mais vistas então como um problema de Saúde Pública (SMITH, 1994).
O treinamento das parteiras ajudou muito a baixar as taxas de mortalidade materna e infantil. O programa compreendia reuniões mensais com leituras do Manual das Parteiras, inspeção do material usado no atendimento aos partos e exames rotineiros de saúde para que as parteiras não contaminassem as parturientes e bebês com alguma doença que por ventura pudessem ter contraído (SMITH, 1994).

Com o passar dos anos, as parteiras mais velhas foram sendo aposentadas pelo Quadro
Estatal de Saúde sem a reposição de outras em seus lugares. Aos poucos, os serviços de saúde nas áreas rurais do Mississippi foram sendo ampliados e a urbanização atingiu as áreas onde estas parteiras atuavam. O processo de urbanização acabou modificando os costumes e os modos de viver da clientela, a qual passou gradativamente a buscar um hospital para o atendimento aos partos. Em 1982 o estado do Mississippi tinha apenas 13 parteiras leigas registradas, desde muito tempo não se emitia novas permissões ou se mantinha sessões de treinamento (SMITH, 1994).

Considerações Finais

Diante dos exemplos de iniciativas aqui apresentados, podemos dizer que, quanto aos cursos das faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e Bahia no século XIX, todos os autores apontam para a importância das constantes reformas de ensino destas instituições. Estas se concentraram principalmente nos requisitos necessários às candidatas para o ingresso. Progressivamente, exigiu-se formação educacional mais completa, assim como a limitação de idade privilegiou o ingresso de candidatas jovens. Outro aspecto restritivo era a exigência de atestado de boa conduta, que em um primeiro momento, deveria ser expedido pelo juiz de paz da freguesia de residência da candidata e posteriormente passou a se configurar como autorização do pai (ou quem estivesse em seu lugar).

No caso das casadas, era necessária a autorização dos maridos. Desta forma, os autores evidenciam constituição de um perfil desejado para a profissional a ser formada. Ao ingressar no curso de partos a futura parteira não precisaria possuir habilidade, experiência e conhecimentos anteriores aos obtidos no treinamento. A aluna ideal seria uma jovem sem tempo para contato com outras parteiras mais experientes, e principalmente, de uma camada social com recursos financeiros suficientes para proporcionar-lhes instrução escolar o bastante para cursar a cadeira de partos em uma faculdade de medicina. Todo conhecimento sobre a arte de partejar seria adquirido nos bancos escolares.

Um saber obstétrico acadêmico, produzido pela perspectiva científica do século XIX. O caráter do ensino, preponderantemente teórico e não prático, não estava apenas ligado à dificuldade de conseguir parturientes em número suficientes para suprir as necessidades do ensino prático do parto, que estivessem dispostas a se sujeitarem a serem objeto de estudo. É bem provável que, ao desvincular a atividade médica do antigo caráter “manual” e prático relacionando-a ao saber erudito por meio dos currículos destes cursos, purificou-a da marca das classes “baixas” que antes as exerciam e significou elevar a profissão médica em nível social dando aos iniciados um status diferenciado dos antigos cirurgiões e parteiras. Assim, seria mais adequado aos filhos das famílias mais aquinhoadas dedicarem-se a medicina sem reprovação.

É perceptível também o interesse de se delimitar prática da parturição a um grupo sócioeconômico distinto daquele que vinha até então o exercendo. As parteiras tradicionais eram oriundas das camadas populares, em sua grande maioria não tinham acesso ao ensino formal, sendo assim, muitas se quer sabiam ler e escrever, o que impedia o ingresso nos cursos. Estes, por força da lei, eram os únicos a estabelecimentos no Império autorizados a fornecer o diploma de parteira. Título obrigatório para o exercício da atividade. Ou seja, estes cursos não só estavam dando a formação, mas também eram parte das estratégias de regulação da prática parturição no país em termos oficiais.

Uma das queixas freqüentes nas denúncias feitas pelos médicos contra as parteiras, que endossaram as iniciativas de treinamento das mesmas, seria que as parteiras, diante de anormalidades no processo do parto, não pediam a tempo a presença de um cirurgião, tendo em vista que estas estavam limitadas ao atendimento de partos normais. Tal delimitação da prática das parteiras foi definida pelos médicos. Estes consideravam tal comportamento como conseqüência da ignorância das parteiras, por estas não saberem identificar o limite de sua prática. Desta forma, segundo os médicos, as parteiras colocavam em risco a vida daqueles que deveriam proteger. Outra queixa constante era de que as parteiras eram anti-higiênicas e através dos atendimentos sucessivos, sem o devido cuidado com a limpeza, transmitiam infecções puerperais.

Mesmo assim, com todos esses argumentos, os cursos de partos no Brasil, em suas
primeiras iniciativas não tiveram o êxito esperado por seus idealizadores. O costume de se recorrer à comadre continuou durante muito tempo, seja pelos custos dos serviços de uma parteira ou parteiro treinados, seja pela quase inexistente fiscalização da atuação das curiosas. Ou mesmo, em função da difundida prática do uso de manuais de medicina popular, os quais orientavam em caso de partos, o que fazer a quem soubesse ler e estivesse pronto a atender uma mulher em trabalho de parto.

Outro aspecto importante tinha relação com a origem social das candidatas ao curso. Moças com possibilidade de formação esmerada para época, sabendo ler, escrever, Inglês, Francês, Química e Física, além de História Natural, provavelmente teriam outros objetivos que a prática da parturição. E mesmo, é importante pensar se a família aceitaria tal destino para uma filha. Primeiro para se formar seria necessário estudar em proximidade com rapazes e homens, situação essa pouco aceitável na época. Outro aspecto importante, e que seria o mais esperado para as moças de boa formação no período, é que uma educação tão esmerada seria mais bem aplicada na educação e formação dos filhos.

Os aspectos da moral sexual foram também importantes motivações para a criação dos
cursos, tanto no Brasil como nos casos apresentados sobre os Estados Unidos. O excesso de pudor e recato fez com que durante muito tempo as mulheres, em ambas as sociedades, se recusassem a serem atendidas por médicos parteiros. Apenas, com um grande esforço por parte dos médicos para promover o convencimento da clientela das vantagens de se contratar um médico, é que aos poucos, o avanço dos obstetras no atendimento aos partos normais se deu mais regularmente. O auxilio do arsenal de novidades em termos de técnicas e instrumental e o maior domínio sobre a anatomia e fisiologia dos partos também contribuíram para desfazer a imagem perante a clientela de que o obstetra, muitas vezes, possuía menos capacidade no atendimento aos partos que a parteira.

Enfim, podemos dizer que para o sucesso das iniciativas aqui apresentadas foi fundamental a mudança das mentalidades sobre a natureza do evento do parto, da segurança que significava a utilização dos novos conhecimentos da Obstetrícia e de como estas modificações atuaram em uma reelaboração da imagem do obstetra perante a sociedade. Também se pode dizer que, no caso das parteiras do Mississippi, a mudança de opinião das autoridades de Saúde Pública, quanto à importância social destas mulheres, foi fundamental para a melhoria das condições de saúde da população e significou um melhor atendimento aos partos, sem necessariamente findar de uma só
vez com a prática das parteiras.


REFERÊNCIAS
DONEGAN, J. B. “Safe delirery, but by Whom? Midwivwes and Man-midwives in Early America” IN:
LEAVITT, J. W. (Editor) Women and Health in America: Historical Readings. University of Wisconsin
Press, 1984. pp 302-317.
MOTT, M ª L. de B. Parteiras no Século XIX: Mme. Durocher e sua época. In:COSTA, A. de O. &
BRUSCHINI, C. (org.) Entre a Virtude e o Pecado. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1992. pp. 37-
56.
__________.Partos , Parteiras e Parturientes: Mme. Durocher e sua época. 1998. Tese (Doutorado
em História Social) Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo. São Paulo.
KOBRIN, E. F. The American Midwife Controversy: A Crise of Profissionalization. In: LEAVITT, J. W.
(Editor) Women and Health in America: Historical Readings. University of Wisconsin Press, 1984. pp.
318-326
PEARD, J. “ Physicians and Women in Bahia” . In; Race, Place, and Medicine: The Idea of Tropics in
Nineteeth-Century Brazilian Medicine. Duke University Press, 1999, pp. 109-137.
ROHDEN, F. Uma Ciência da Diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. Rio de Janeiro:
Fiocruz, 2001.224p.
SMITH, S. White nurses, black midwives, and Public Health in Mississippi, 1920- 1950. In: Leavitt, J.
(ed.) Women and Health in America, University of Wisconsin, 1999, 2nd edition, pp. 444-428.


FONTE: CAPES - Revista Eletronica "Espaço para Saúde"

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Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


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