História da Parturição no Brasil, Século XIX


escrito por: Débora, em terça-feira, novembro 07, 2006 às 2:17 PM.

por: Anayansi Correa Brenes. Professora do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG. Coordenadora do Núcleo Saúde da Mulher do DMPS/FM/UFMG.

A presente pesquisa objetivou resgatar as particularidades da constituição da Arte Obstétrica no Brasil do século XIX, quando, por edital de Dom

João VI, é incluída nas disciplinas que inauguram as escolas de medicina e cirurgia, na Bahia e Rio de Janeiro, em 1808. Para realizar a pesquisa foram revistas 83 teses médicas obstétricas — produzidas tanto na Bahia quanto no Rio de Janeiro — no século XIX. Verificou-se que, tradicionalmente, esta Arte era realizada por mulheres denominadas "aparadeiras" ou "comadres", que assistiam as mulheres, seja no trabalho de parto e nos cuidados pré e pós-parto, quanto em outras circunstâncias, tais como doenças venéreas e abortos; A entrada dos médicos-parteiros nesta prática inaugurou, não só o esquadrinhamento do corpo feminino, como a produção de um saber anatômico e fisiológico da mulher, a partir do olhar masculino.

Tradicionalmente, os partos e seus cuidados eram realizados por mulheres conhecidas popularmente como aparadeiras, comadres ou mesmo de parteiras-leigas. Estas detinham um saber empírico e assistiam domiciliam ente as mulheres durante a gestação, parto e puerpério (como também nos cuidados com o recém-nascido). Estas mulheres eram de inteira confiança do mulherio e eram consultadas sobre temas vários, como cuidados com o corpo, doenças venéreas, praticavam o aborto ou mesmo colaboravam com o infanticídio.

Na sua maioria, eram mulatas ou brancas e portuguesas e pertenciam aos setores populares. A medicina, enquanto instituição, incorporou esta prática (Tosi, 1988) como uma das suas atribuições, intitulando-a Arte Obstétrica e denominou de parteiro ou médico-parteiro os profissionais por ela formados. Historicamente, este processo se deu primeiro na Europa (nos séculos XVII e XVIII) se estendendo ao Brasil, ao se inaugurar as escolas de medicina e cirurgia na Bahia e Rio de Janeiro, em 1808. A introdução da medicina neste espaço inaugurou não só a experimentação clínica articulada com o discurso anátomo-patológico, quanto produz um discurso a partir da penetração da figura masculina no saber e prática obstétrica. Desde o momento da sua constituição, esta arte centra seus estudos no parto (posteriormente sobre a gravidez) dentro do enfoque biológico, por forte influência da anatomia patológica. O discurso anátomo-patológico permitia a interrupção da gravidez, pelo parteiro (ou médico-parteiro) desde que algum sinal anatômico indicasse risco de vida para a mulher. Podemos apreciar este fato nas falas de médicos (parteiros), onde o aborto é indicado diante de vícios de conformação da bacia congênita ou adquiridos (raquitismo, osteomalacia); hidropesias excessivas de omnios; deslocação irredutível do útero; ruptura uterina; hemorragias uterinas rebeldes; aneurisma aórtico; lesões orgânicas do pulmão; hydiopericárdio; hydrotórax; alienação mental; vômitos rebeldes; vícios que diminuem o diâmetro da bacia.

Paralelamente à construção do discurso anátomo-patológico, processou-se um sincretismo a nível da terapêutica. Este deu-se com as práticas populares das curiosas, quanto com a medicina das fisicaturas, não sem antes criticar e experimentar (em particular a prática das curiosas), como é o caso do uso do Centeio Espigado, onde o médico-parteiro, Madame Durocher, critica o conhecimento das "comadres" sobre o centeio e o uso que as mesmas fazem dele nos trabalhos de aborto (Durocher, 1887). Assim, a prática obstétrica do período incorporou técnicas das curiosas e das fisicaturas que eram utilizadas para a interrupção de uma gravidez, Estes métodos abortivos foram denominados de primeira classe:

1 — Centeio espigado

2 — Sangria

3 — Aplicação de sanguessugas (sugar a parte interna das coxas ou mesmo da vulva)

4 — Purgativos

5 — Diuréticos

6 — Excitantes (por exemplo, preparação de canelas)

7 — Eletro galvanismo

Em todas as teses defendidas pela obstetrícia nas escolas de medicina, salvar a vida da mulher era o objetivo fundamental. A este respeito o Dr. Ermínio Cézar Coutinho, da Faculdade de Medicina da Bahia, em novembro de 1858, defendendo teses sobre "Quais as circunstâncias que justificam a provocação ao aborto", o autor indica que o aborto que possa vir colocar em risco de vida a mulher deve ser completamente rejeitado (refere-se aos casos em que a mulher esteja muito fraca e haja impedimento anatômico à prenhez - Coutinho, 1858). Para estas situações recomendam-se as técnicas usadas nos casos da bacia estreita: tais como os métodos de hysterotomia, symphysiotomia, embryotomia, antes do termo da gravidez. Apesar de compreender que a symphysiotomia e a craniotomia deviam ser condenados porque colocam em perigo a vida da mulher (Coutinho, 1858), e a cesariana ser um crime porque quase sempre era fatal para a mulher, o aborto, segundo este autor, deveria ser praticado (Coutinho, 1858) nos casos em que não existissem vícios de conformação da bacia. Mesmo antes de dominar técnicas como o fórceps e a cesariana com sucesso para a mulher e a criança durante o parto, a obstetrícia proclama a sua exclusividade desde 1840. Também a partir deste período, percebe-se o deslocamento do seu olhar para questões tais como sexualidade, higiene e moral feminina. Assim, a partir da segunda metade do século XIX, a medicina se articula a outras instâncias do social na produção de uma nova imagem sobre a mulher, da relação desta com os filhos e sobre seu papel em sociedade, esposa-mãe-dona-de-casa.

Vejamos aspectos deste processo e suas implicações na constituição desta disciplina:

A IMPLANTAÇÃO DAS ESCOLAS DE MEDICINA

Com a chegada da Corte Portuguesa no Brasil, em 1808, ocorreu a implantação do ensino oficial de Medicina. A primeira escola foi implantada na Bahia e decorreu de um pedido do Barão de Goyana — José Correia Picanço — que falou a D. João VI da necessidade de se criar um colégio de cirurgia. Este concordou com a idéia e, em Carta Regia de 18 de fevereiro de 1808, assinada por D. Fernando José de Portugal, Ministro do Reino, foi determinado que Picanço fizesse o plano do curso e que escolhesse entre os cirurgiões do Hospital Militar os professores que deveriam ensinar não só Cirurgia, mas também Anatomia e Arte Obstétrica (Souza, 1967). A segunda escola a ser autorizada por D. João VI foi a do Rio de Janeiro; isso se deu devido à sua mudança para lá no mês de fevereiro de 1808. Entre as várias medidas administrativas importantes tomadas por ele estava o ensino médico. Pelo decreto de 5 de novembro de 1808 criou-se a Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro e, em 25 de janeiro de 1809, foi nomeado para lecionar Medicina Operatória e Arte Obstétrica, Joaquim da Rocha Mazarem. O currículo desta escola era mais amplo do que o da Bahia, precisando de sede maior; por isso a escola foi mudada do Real Hospital Militar de Ultramar para a Santa Casa (Briquet, 1971).


ESTRUTURAÇÃO DO ENSINO MÉDICO

Para a matrícula do aluno em ambas as escolas bastava apenas que o candidato soubesse ler e escrever. Recomendava-se apenas: Bom será que entendam as línguas inglesa, francesa etc., daí haver passado à história com o nome de "Regime de 'Bom Será'" (Salles, 1971). O curso durava quatro anos, e ao final do quarto ano os alunos tiravam uma certidão de que estavam prontos para fazer o exame final perante o Físico-Mor. Uma vez aprovados, prestavam juramento aos Santos Evangélicos, de dignamente exercerem a nobilíssima profissão. Podiam curar onde não houvesse médicos.

O alvará de 7 de janeiro de 1809 concedeu ao Cirurgião-Mor, Picanço, autoridade para conferir diploma de médico ou cirurgião no Brasil, a quem prestasse exame perante Junta por ele nomeada. A primeira reforma desse ensino ocorreu após o decreto de 26 de fevereiro de 1812, que nomeou o médico baiano Manuel Luiz Álvares de Carvalho Diretor dos Estudos Médicos e Cirúrgicos da Corte e dos Estados. Considerando precários os meios com que eram dotados os colégios, aquela autoridade ampliou os cursos para cinco anos, criou novas cadeiras e deu certa autonomia às congregações.

Após o quinto ano, os cirurgiões formados gozavam das seguintes prerrogativas: seriam preferidos em todos os partidos públicos aos que não tivessem esta condecoração; poderiam, em virtude de suas Cartas, curar todas as enfermidades onde não houvesse médicos; seriam, desde logo, membros do Colégio Cirúrgico; poderiam, todos aqueles que se enriquecessem de princípios e práticas a ponto de fazer exames que aos médicos se determinavam, chegar a ter faculdade e grau de Doutor em Medicina. Até 1815, o ensino na Bahia continuava como antes, lecionavam-se apenas Cirurgia e Anatomia e, apesar da resolução de D. João VI, que ordenava o ensino da Arte Obstétrica, Picanço não fez qualquer referência à Obstetrícia até essa data. O plano de estudos feito por Dr. Manuel Luiz Álvares de Carvalho é implantado na Bahia em 17 de março de 1816. Neste ano, a instalação da escola passa para a Santa Casa. No novo currículo constava que, para o quarto ano, o Prof. Manuel da Silveira Rodrigues lecionaria Instruções Cirúrgicas e Obstetrícia e, no quinto ano, José Avelino Barbosa ensinaria Medicina Prática e Obstetrícia. Com essa reforma, o curso de Obstetrícia, na Bahia, só tem início em 1818, já que os alunos matriculados sob este novo regime só atingiram o quarto ano do curso nesse ano. O curso, inicialmente, foi meramente especulativo e abstrato, pois a escola carecia de uma enfermaria ou serviço clínico para mulheres grávidas e parturientes em que se pudesse fazer o ensino prático da matéria lecionada.

No Rio de Janeiro, com a reforma realizada por Álvares de Carvalho, passa a lecionar Operações e Arte Obstétrica, Manuel Álvares da Costa Barreto. A formação de profissionais da Medicina no Brasil funcionou precariamente nos primeiros anos do século XIX, pois em meio a agitação política de várias ordens, que determinava a Proclamação da Independência, depois da abdicação do primeiro Imperador e a falta de paz interna, acabaram relegando a segundo plano quaisquer medidas de aprimoramento do ensino. Nestes anos estabeleceu-se acentuada má vontade entre médicos portugueses e brasileiros; aqueles, queriam que apenas valessem os diplomas expedidos em Coimbra. Porém, em 9 de setembro de 1826, foi outorgado explicitamente às Escolas Nacionais, o direito de conferir cartas de cirurgião ou de cirurgião formado aos alunos por elas diplomados (Salles, 1971).

A denominação de dois estabelecimentos oficiais de ensino foi uniformizada para Academia Médico Cirúrgica (da Bahia ou do Rio de Janeiro, conforme o caso), e com prestígio crescente apesar das falhas notadas. A constatação dessas falhas motivou mudanças radicais que foram introduzidas e consubstanciadas num antiprojeto de reforma que foi aprovado pela Câmara em 3 de outubro de 1832. Essa reforma assinala notável progresso nos métodos de ensino. Nela, os estabelecimentos passaram a ter organização idêntica e a mesma denominação; o curso médico passou a ser feito em seis anos e abrangia 14 cadeiras, regidas por igual número de lentes.

As faculdades passaram a conceder os títulos de doutor em Medicina, de farmacêutico e de parteira, sem os quais ninguém podia exercer atividades em qualquer dos ramos da arte de curar. A duração do curso de Farmácia era de três anos, e a arte obstétrica era ensinada pelo titular da décima cadeira (partos, moléstias de mulheres pejadas e paridas, e de meninos recém-nascidos). Outra mudança que ocorreu com esta Lei de 1832 foi a obrigatoriedade dos exames preparatórios. Para os candidatos à Medicina, exigiam-se Francês, Inglês, Latim, Filosofia, Aritmética e Geometria. Para Farmácia, os mesmos preparatórios menos Latim e Filosofia.

É em 1832 que tem início o ensino oficial de Obstetrícia para mulheres, nas duas primeiras faculdades médicas. Na do Rio de Janeiro, diplomou-se em 1834 a mais célebre das parteiras, francesa de nascimento, Maria Josefina Matilde Durocher (1808-93), que era conhecida como Madame Durocher. Foi a primeira mulher a ser recebida, como membro titular, na Academia Imperial de Medicina, em 1871. Madame Durocher vestia-se como homem porque, explicava, exercia uma profissão masculina (Souza, 1967).

A EVOLUÇÃO DAS ESCOLAS

A reforma promovida em 1832 fez com que o ensino teórico melhorasse bastante, porém ficou ainda deficiente a parte prática do curso. No Rio de Janeiro, o curso era ministrado em dois locais, no Hospital Militar e na Santa Casa. Ficou assim até 1884. Na Bahia a faculdade voltou a localizar-se mais uma vez no velho prédio do Colégio dos Jesuítas e ocupava 12 casas que formavam o lado esquerdo da Rua das Portas do Carmo, além de utilizar-se das enfermarias da Santa Casa. As dificuldades materiais persistiam, e, para disfarçar tais dificuldades, Leôncio de Carvalho, no Rio de Janeiro, em 1879, faz uma reforma onde introduz a freqüência livre, a matrícula de mulheres no curso médico e o funcionamento do curso em locais estranhos à faculdade.

Quando Vicente Cândido de Figueiredo Sabóia assume a Direção da Faculdade do Rio de Janeiro (de 1882 a 1889), ele consegue, através de recursos particulares, reformar e ampliar as instalações desta. Também reforma o currículo que passa a contar com 26 cadeiras, sendo a de Ginecologia e Obstetrícia regida por Érico Coelho. Porém, a Obstetrícia continuava com problemas, pois a sua instalação na Santa Casa era impedida pelas Irmãs de Caridade que consideravam o parto uma falta de pudor, e somente a interferência direta do provedor Ferreira dos Santos conseguiu solucionar o problema. Portanto, é sob a administração do Visconde de Sabóia que tem início o verdadeiro ensino prático. O período administrado por Sabóia foi denominado o Período Áureo. Sabóia foi demitido com a Proclamação da República, e o período de 1889 a 1901 foi considerado um período de estagnação.

É importante salientar que, em 1887, forma-se a primeira médica no Brasil, a Dra. Rita Lobato Velho Lopes, que fez curso na Faculdade da Bahia. No Rio de Janeiro, a primeira mulher a se formar, e segunda no Brasil, foi a Dra. Ermelinda de Vasconcelos, em 1888 (Souza, 1967; Salles, 1971).

AS DIFICULDADES QUE PERSISTIRAM

NA ESCOLA BAIANA


Na Bahia, com a reforma de 1832, é extinto o Hospital Militar, mudando-se o hospital e a escola para a Santa Casa. A mudança realmente ocorreu em 2 de julho de 1833 e as aulas de clínica iniciaram em agosto deste mesmo ano. Porém, neste novo hospital, não havia uma enfermaria particular que pudesse ser dada à escola para a internação de mulheres, ficando à disposição da escola um lado inteiro de uma enfermaria para os professores colocarem as pacientes de clínica e cirurgia. As condições de ensino das clínicas eram as mais precárias, tornando-se mesmo impossí vel fazerem-se trabalhos práticos de clínica obstétrica. Nota-se, portanto, que a reforma de 1832, também na Bahia, só melhorou o ensino teórico, ficando ainda a escola, por muitos anos, sem uma enfermaria ou serviço clínico para mulheres grávidas ou parturientes.

Em 1854, o professor Malaquias Álvares dos Santos faz o seguinte relato da cadeira que ocupa:No ensino da Obstetrícia e da Medicina Operatória, é então de tal modo sensível nesta escola a falta em que nos tem deixado ficar na respectiva clínica, que nem sei como possamos convenientemente ter fé nos conhecimentos que possam ter nossos alunos (Souza, 1967). O professor Domingos Rodrigues Seixas, em 1862, lamenta que a parte prática do curso não pode ser congruentemente desempenhada por falta de parturientes em que se exerçam as manobras. O professor Matias Moreira Sampaio, ao redigir a Memória Histórica de 1867, diz o seguinte: Embora o obscuro professor, que nesta hora prende a vossa atenção, empregue no desempenho de seus deveres o esforço que permitem sua fraca inteligência e limitado entendimento, o ensino de partos está longe da perfeição pela falta da clínica respectiva, de modo que podemos dizer que, salvo algumas manobras exercidas no manequim, fazemos somente partos teóricos (Souza,1967).

Em 1873, para o autor da Memória deste ano, o professor Matias Sampaio assim se expressou: Animado pelo mais ardente desejo, e sem ter arrefecido ainda na carreira do ensino, empenho todo o esforço de que disponho para que os estudantes se habilitem na arte de partejar; apesar do meu empenho, confesso que apenas eles adquirem conhecimentos teóricos por nos faltar ainda o ensino prático, falta sentida e contra a qual têm reclamado quase todos, senão todos os historiadores de ambas as Faculdades de Medicina do Império. Entretanto, tenho fé que um dia virá em que semelhante falta desaparecerá, dotandonos o governo Imperial ao menos com uma pequena sala, onde sejam recebidas as parturientes (Souza, 1967).

O Hospital da Santa Casa de Misericórdia, local onde funcionavam as cadeiras de Clínica, não tinha condições que pemitissem a prática obstétrica, ficando o ensino nesta situação por 60 anos, quando em 1875, se instala no Hospital de São Cristóvão uma enfermaria de partos, sendo professor da cadeira, o Barão de Itapoã.

O professor Luiz Álvares dos Santos, historiador da escola, em 1876 narra o seguinte: A provedoria da Misericórdia abriu no ano passado, em uma sala de seu hospital, uma enfermaria de partos que, muito bem inspirada, entregou à direção do nosso nobre colega, o digno Professor de Parto, o Senhor Barão de Itapoã. Pois em, apesar do fanatismo que parece querer fechar as salas da clínica às parturientes, o ensino vai dando útil resultado, pelo que nos cabe animar aquela reforma, importante em todos os sentidos. Houve três parturientes. Os estudantes e os médicos tiveram ocasião de ver durante o ano aqui muitas operações de obstetrícia (Souza,1967).

Somente algumas pacientes procuravam os serviços da clínica, já que havia uma resistência por parte do público contra a enfermaria de partos; essa objeção permaneceria, ainda, por muitos anos sob a forma de receio que as parturientes manifestavam ao internamente (Souza, 1967).

Apesar dos benefícios trazidos para o ensino dessa nova enfermaria de partos, a prática escolar da tocologia deixava, ainda, muito a desejar, pois o serviço clínico na enfermaria de partos, como também de muitas outras, era incompleto e defeituoso; as instalações das enfermarias eram precárias; havia um déficit de aparelhagem e era reduzidíssimo o número de mulheres grávidas que procuravam o serviço de objeto às funções letivas. Essa situação perdurou por muitos anos. Há uma nova reforma do ensino, que se inicia em 1879 e termina em 1894, criando a cadeira de Clínica Obstétrica e Ginecológica. Essa nova cadeira continuava a funcionar na mesma enfermaria Santa Izabel do Hospital São Cristóvão, tendo como professor Climério de Oliveira, que tomou posse em 1885 (Souza, 1967).

Os primeiros anos de ensino, após a posse de Climério de Oliveira, continuavam como os anteriores. Em 1892, ele envia uma carta ao professor Luiz Anselmo da Fonseca, cronista da Faculdade em 1891, fazendo os seguintes pronunciamentos a respeito do seu serviço clínico, que ainda funcionava no velho Hospital da Misericórdia:

O curso de Clínica Obstétrica e Ginecológica teve a regularidade possível, atenta às péssimas e precárias condições em que se acha instalado no Hospital de Caridade, instalações contra as quais tenho sempre protestado, já na Memória Histórica que redigi, já nos programas dos cursos, nas preleções, na Congregação. No terceiro Congresso Médico Brasileiro, tive a ocasião de assim enunciar-me: quem conhece o hospital em que funcionavam as clínicas desta Faculdade, a situação de suas enfermarias, a disposição de seus cômodos, o acúmulo de seus leitos, a distribuição de seus serviços clínicos, a sua ventilação, a construção de seus esgotos; quem ali respira fétidos odores e doentios ares e conhece, pelo que leu ou pelo que viu, qual o conjunto de circunstâncias que devem tornar saudável um estabelecimento dessa ordem; não pode deixar, sob o ponto de vista das grandes intervenções cirúrgicas, de considerá-la um foco de letalidade, ao invés de um meio de restabelecimento da saúde.

Conseguintemente, quem assume a responsabilidade de um serviço clínico de cirurgia geral ou especial como esse por exemplo, que tenho a honra de dirigir, que tem por função a maternidade, ligado, portanto, a um tríplice compromisso: com a humanidade, de zelar por suas vidas; com a pátria, de garantir-lhe o cidadão nascente; com a ciência, de fazer valer os seus princípios e os seus preceitos — e tudo isso num cubículo infecto, encravado entre boas e más enfermarias e as latrinas do hospital, servindo por enfermarias comuns às salas de Medicina e Cirurgia (...) e não tem, senhores, diante de si uma estatística de luto, mas lenamente animadora, não pode calar aplausos aos propignadores dos métodos antissépticos (...) e deixar de render um preito de homenagem ao talento cintilante de Lister, que produziu em uma de suas mais brilhantes fulgurações este vigente recurso que abriga a vida do doente, amplia as esperanças da cirurgia, aureola a ciência com os mais fúlgidos louros das mais transcendentes conquistas (Souza, 1967).

Esta nova enfermaria com funcionamento precário durou 18 anos, e somente com a mudança do Hospital da Santa Casa de Misericórdia para as instalações no Bairro de Nazaré é que houve melhora. Neste novo hospital havia uma enfermaria destinada à clínica de partos e, nesta mesma enfermaria, funcionava, também, a clínica ginecológica e a pediátrica. Apesar da ampliação do curso, do número crescente das gestantes que procuravam a clínica, da maior freqüência dos alunos e do melhor proveitamento destes, o professor Climério de Oliveira ainda não estava satisfeito com o Hospital de Santa Isabel e desejava fundar uma maternidade anexa à aculdade de Medicina. A idéia de criar maternidades anexas às Faculdades de Medicina vinha desde a Lei de 28 de abril

de 1854, que reformou as faculdades e eterminava a criação das maternidades; porém, somente 40 anos após essa lei começaram oficialmente, na Bahia, os trabalhos para construção da maternidade. O professor Pacífico Pereira foi quem deu o primeiro impulso, ao procurar o professor Manuel Vitorino, Senador Federal, e solicitar a influência deste para que fosse incluída na lei de orçamento da União para 1894 uma verba a ser aplicada na construçõa. Novas verbas foram votadas nos anos seguintes; com isso, a Santa Casa foi juntando os contos concedidos pelo Governo Federal para a fundação do aludido estabelecimento.

Nove anos depois, em 1903, o professor Alfredo Brito, então diretor da Faculdade, celebrou um contrato com a Santa Casa e aprovado pel governo da União para a construção dos pavilhões necessários para o serviço de clínica obstétrica. O professor Climério de Oliveira forneceu à Secretaria da Agricultura os dados para a organizaçã da planta e, em 26 de abril de 1903, depois de aprovada pelo poder competente, a obra foi contratada. No dia 3 de outubro deste mesmo ano foi colocada a primeira pedra.As verbas que o Governo Federal forneciam eram insuficientes, então Climério lançou uma campanha para ajudar a construção. Formou um Comitê de Senhoras da Sociedade Baiana; este realizou espetáculos no Teatro Politeama, com renda destinada à construção. O espetáculo era o drama A Maternidade, escrito pelo professor Climério de Oliveira. O Governo Federal e a Prefeitura também contribuíram, ficando a obra pronta cinco anos depois de iniciada e levou, ainda, algum tempo com retoques finais e aparelhamento, sendo inaugurada em 30 de outubro de 1910. Após a inauguração, o curso de Obstetrícia passou a ser feito na maternidade, por estar separado em duas cadeiras de Clínica Ginecológica e Obstetrícia (Souza, 1967).

Está posto novamente o problema do corpo. Aos médicos cabia alcançar dois objetivos: um local para observação do corpo — a clínica de partos, a maternidade, o hospital junto à escola. Inúmeras vezes os médicos reclamaram sobre a falta de prática durante o curso, especialmente na área obstétrica, a falta de uma clínica de partos junto às escolas. O segundo objetivo a ser alcançado pelos médicos é o que nos interessa mais nesse momento, ou seja, conseguir trazer à clínica, ao hospital, ao consultório a mulher ou, também, pode-se dizer, o corpo feminino. Conforme procuramos demonstrar no tópico anterior, houve todo um esforço por parte da corporação médica em construir uma imagem do médico que inspirasse confiança na população. Porém, isto ainda foi pouco para conseguir levar as mulheres à presença do obstetra e muito menos, ainda, para convencê-las e se abrirem para eles. A partir desta problemática, o discurso médico criou como que um "jogo" com a população feminina do Brasil Império. Jogo, porque, por um lado, o discurso médico, em harmonia com os demais discursos presentes no momento, utilizando as estratégias que lhe eram permitidas pelas circunstâncias, forjou para a mulher uma nova subjetividade, que, entre as alterações imediatas que possibilitou à esta, garantiu-lhe um novo papel na sociedade, abrindo-lhe as portas para uma vida social mais intensa, esboçando-lhe nova configuração dentro do lar, da família, tornando-a, enfim, um ser bem mais vivo que a mulher da sociedade patriarcal da colônia. Porem, o ponto de apoio deste discurso que criou a mulher da sociedade imperial foi a sexualidade feminina. Sexualidade que foi descrita a fundo, com acurada precisão fazendo a mulher um ser frágil e inconstante, a quem somente os médicos poderiam orientar, por serem os únicos que a conheciam. Deste "jogo" surgiram "o mito do amor materno", a "mãe dedicada", "boa esposa", "a rainha do lar", as histéricas, as mundanas e toda uma série de tipos femininos que ocupariam a literatura médica e o imaginário social do século XIX.

A mulher criada no século XIX, que povoou as páginas do romance nacional, destacava-se pela sua constituição frágil e débil.

Em geral, as mulheres são muito mais delicadas, mais ternas, mais sensíveis, mais pacíficas, mais de formar corações e conduzí-los que o homem (Nunes, 1846). Foram criadas para ser esposas e mães. Todos os órgãos são delicados, flexíveis, fácil de excitar e ferir, suscetíveis em todos os sentidos (Nunes, 1846). Os médicos não se limitavam a afirmações genéricas, onde exploravam aspectos psicológicos das mulheres. Seu discurso trazia observações que só poderiam se pautar sobre uma sólida observação, observação que lhe garantia o rigor científico e a posse da verdade.
Voltemos às teses para exemplificarmos este processo. Com relação ao tratamento dispensado às mulheres em época anterior, não havia o tratamento das moléstias das mulheres, antes por ignorância do que por causa dos "preceitos" e assim, as mulheres padeciam e que, a função de melhorar a vida, curar, que nestes casos cabia ao padre não era dispensado ao sexo feminino (Nunes, 1846). O discurso médico "criava" os tipos, mostrava claramente suas características, o tratamento apropriado, caso fosse um tipo patológico, mas isto, é preciso ressaltar, colocava-os sempre sob sua tutela ou, pelo menos, exigia participação nas decisões tomadas por outras instituições responsáveis pelo controle populacional. Vê-se aqui, apesar de ser um caso extremo, a internação das histéricas, como os médicos deram importância à internação e à educação, desde que orientada por eles. Ainda intervindo pela mulher acometida por alguma espécie de patologia, temos o seguinte relato a respeito das alterações no psiquismo que estes estados acarretam: É curioso apreciar como simples perturbações orgânicas, dada sua repercussão no psiquismo, podem assim contribuir indiretamente, no determinismo do crime (Da Silveira, 1926). O processo menstrual pode acarretar desde excitabilidade nervosa exagerada e modificações do humor, até as impulsões às vezes irresistíveis e verdadeiras psicoses que têm como causa uma auto-intoxicação genital (Da Silveira, 1926). Alto valor em medicina legal assumem as perturbações psíquicas em mulheres puérperas. Os crimes de infanticídio são na maioria dos casos cometidosnum estado patológico de inconsciência (Da Silveira, 1926). Vê-se, então, que as mulheres poderiam contar com a defesa dos médicos, desde que levassem a eles seus problemas e suas confidências. Com relação à educação da mulher, destacamos o seguinte trecho: Com um tal sistema de educação que não prepara a moça para as responsabilidades da vida, que ela vincula sobre a humanidade conseqüências medonhas que não escapam mesmo a um observador pouco escrupuloso, urge que o corpo médico ciente dos efeitos de uma educação que exclue toda a noção de fisiologia, erga a voz em favor da reforma do ensino público, porque segundo Balzac e repetido por Pestalozzi, "le future des nations repose sur l'education des mères de famille" (Rennotte, 1895). Inúmeras foram as técnicas empregadas para atrair o público feminino aos locais de internamento. É difícil datarmos, através da leitura das teses, o momento em que esta atração passou a se efetuar de maneira satisfatória. O que podemos perceber é que, apesar de atenderem ao chamado médico, as mulheres viam a clínica como um local ao qual deveriam acorrer num momento de grande necessidade, desconsiderando, porém, a continuidade do tratamento. Isto em muito dificultou o trabalho médico, pois a eles interessava a permanência das mulheres na clínica para observação e testes.

Mas, tendo em vista a necessidade da presença das mulheres na clínica, especialmente na maternidade, pois para médicos e estudantes este seria o único meio de adquirir a prática na difícil arte de partos (Fonseca, 1933), os médicos tentaram em decorrência da não-correspondência das mulheres aos seus apelos, conseguir o apoio do governo no que concerne aos processos de internação, controle e cadastramento nas clínicas existentes no Império. Há uma séria objeção ao estabelecimento desta clínica que é a falta de parturientes, que de certo modo haveria com a organização atual; mas se o governo quiser tomar as devidas providências não somente abundarão as parturientes, mas obterá aumento da população, perfeito conhecimento dos nascimentos e evitará os infanticídios que se dão em grande número no Rio de Janeiro. Para este fim dever-se-á obrigar a toda e qualquer mulher rica ou pobre que tiver parido a levar ou mandar levar o recém-nascido à apresentação em casa do subdelegado do distrito; este não deve ser qualquer cidadão indistintamente, mas um empregado próprio do governo. A pessoa encarregada de apresentar a criança o fará em um livro apropriado o dia e hora do nascimento da mesma, bem como o nome que se lhe deu ou o que se lhe deseja dar, o sexo, os defeitos, etc., etc.; escreverá o nome da mãe, do pai (se for declarável), a sua morada, o estado em que vivem, a profissão, etc., etc.. Depois deste ato dará um bilhete declarando ter sido apresentada a criança ..., nascida no dia ..., filha de ..., moradora na rua ... número ... . Rigor excessivo, rigor na execução destas medidas; e para isto deve-se dar maior publicidade a estas leis. Com a necessária vigilância poder-se-á punir os infanticídios que ainda tiverem lugar, e obterse-á uma lista exata dos nascimentos, o que não se alcança atualmente com o péssimo sistema de confiar aos curas a parte relativa ao nascimento e falecimento da população, pois isto pertence à administração civil e não à igreja. A mulher pobre, para livrar-se de todos estes incômodos com toda a facilidade, preferirá parir no hospital do que em casa, e as pessoas que hoje acolhem facilmente uma mulher em trabalho de parto deixarão de fazê-lo para furtar-se às "exigências da lei" (Guimarães, 1863).

CONCLUSÃO

Discursos moralistas e filantrópicos sobre o aleitamento materno, cujas primeiras destinatárias eram as mulheres das famílias abastadas, que continuavam possuindo empregadas em função de amas-de-leite. Do abandono infantil, parcialmente explicado pelo desejo egoísta e narcisista destas em manter o corpo belo, de conservar a forma estética e pelo medo de perder o marido, a exemplo dos aristocratas franceses. Do infanticídio disfarçado pelas comadres (curiosas) bastante adestradas para ocultar o crime ou mesmo das crianças encontradas nos necrotérios ou nas vias públicas ou aquelas lançadas na roda (casa dos expostos) e da prática do aborto realizado pelas mulheres (ou ajudadas por curiosas) acenam para as mulheres (ricas ou pobres, casadas ou solteiras) de vários pontos do social, na intensão de recluí-la e com isto afastá-la do perigo da prostituição e da perdição, ao menor deslize. Nessa cruzada, a participação dos médicos foi significante. Os seus discursos sobre a ausência de leis severas que punissem as práticas de aborto e infanticídio vieram de encontro à construção dos dispositivos legais para seu enquadramento criminal, antes mesmo da proclamação da República (Coutinho, 1858). Simultaneamente a este processo, as prescrições médicas de aborto foram sendo reduzidas extremamente ao essencial. Assim, se no início do século XIX a arte obstétrica priorizava a vida da mulher ao menor sinal de perigo, as "novas" técnicas alcançadas (fórceps e cesariana) possibilitaram que o discurso fosse modificado. Hoje prioriza-se que o processo finalize com uma mãe e filho sadios, apesar do desejo ou não da mulher ou mesmo de uma gravidez que coloque em risco sua saúde e vida.

This research aimed at recovering the peculiarities of the development of Obstetrical Art in Brazil during XIX century, starting in 1808, when a legal act signed by D. João VI included this discipline in the initial curriculum of the schools of medicine and surgery founded in Bahia and Rio de Janeiro. Research was undertaken through the review of 83 medical theses in the field of Obstetrics, produced in Bahia and Rio de Janeiro in XIX century. The data showed that Obstetrical Art was raditionally performed by women called "aparadeiras" (catchers) or "comadres", who cared for women before, during and after delivery, and provided assistance in other situations, like venereal diseases and abortion. The inclusion of physicians-obstetricians in this practice led not only to a scrutinizing of the female body, but also to the production of an anatomical and physiological knowledge of the female organism from a male standpoint.

AGRADECIMENTOS

Este artigo é resultado da pesquisa "História da parturição no Brasil, século XIX" , realizada com apoio do CNPq e do CPq/PRPq/UFMG em 1989. Na ocasião estendo meus agradecimentos aos alunos: Walther Esteves Lima (Medicina); Ulicéia Gonçalves Vilela (Medicina); Maria de Fátima Gomes (História) e Carlos A. Mitrand (História), pelas suas contribuições na realização da pesquisa como, também, a Míriam Monteiro de Castro (Medicina) na revisão do presente artigo. Ao professor Antônio Cândido de Melo Carvalho meu eterno agradecimento pela tradução ao inglês do resumo inicial. E à Mariana Aparecida de Lélis Adão por seu esforço e carinho em datilografar este trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRIQUET, R. Obstetrícia normal. São Paulo, Ed. São Paulo, 1971.

COUTINHO, E.C. "Quais as circunstâncias que justificam a provocação do aborto" (...) "Como reconhecer em que circunstâncias houve o aborto?" Teses apresentadas à Faculdade de Medicina da Bahia em novembro de 1858.

DA SILVEIRA, N. Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil. Tese inaugural da Faculdade de Medicina da Bahia, 1926.

DUROCHER, M.M.J.M. Considerações sobre a clínica obstétrica. Rio de Janeiro, 1887. Ou mesmo Deve ou não haver parteiras? Rio de Janeiro, s.d. Considerações práticas sobre o centeio e a ergotina. Rio de Janeiro, s.d.

FONSECA, O.A.R. Em torno da medicina. Rio de Janeiro, 1933. GUIMARÃES, A. Breves considerações sobre o estudo e exercício da medicina no Brasil e em França. Doutor em medicina pelaFaculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Paris, 1863.

NUNES FILHO, R.J. Algumas considerações sobre o homem, especialmente suas relações entre o físico e o moral. Tese apresentada na Faculdade de Medicina da Bahia em 2 de novembro de 1846.


RENNOTTE, M. Influência da educação da mulher sobre a medicina social. Tese apresentada à Faculdade de Medicina e de Farmácia do Rio de Janeiro, 26.03.1895.

SALLES, P. História da medicina no Brasil. Belo Horizonte, Ed.G. Holman, 1971. p. 141-161.
SOUZA FILHO, J.A.

O ensino da clínica obstétrica na Universidade da Bahia. Salvador, Ed. da Universidade Federal da Bahia, 1967.
TOSI, L. A mulher e a ciência. Ciclo de Conferências proferidas na Faculdade de Medicina — UFMG, em junho/88.

FONTE: SCIELO.BR

Marcadores: , , ,

Seis mitos sobre parto domiciliar


escrito por: Tricia em sexta-feira, novembro 03, 2006 às 4:57 PM.


Posso ter um parto em casa?
Seis mitos sobre parto e seus riscos


Tradução: Tricia Cavalcante L. Pacheco
Tradução e Revisão: Carla Beatriz Piuma Maise

Autor: David Stewart, Ph.D., Executive Director, National Association of Parents and Professionals for Safe Alternatives in Childbirth (NAPSAC) International

Este artigo pode mudar sua vida. Estas podem ser as mais importantes páginas que você já leu até hoje sobre parto e que irão orientá-lo a escolher a alternativa mais segura para você e seu filho.

Grande parte da obstetrícia praticada nos hospitais americanos hoje em dia é baseada em mitos e não em dados científicos. O que você ainda não sabe é que a Medicina moderna pode trazer danos a sua saúde e a do seu bebê, talvez até permanentemente. Os autores desta pequena e excelente publicação pesquisaram todas as informações citadas aqui. Você pode confiar no que foi escrito, tudo é cientificamente comprovado em pesquisas sérias sobre evidências práticas.

As escolhas que você faz hoje sobre o tipo de parto que vai dar a luz o seu bebê – parto hospitalar ou domiciliar, médico ou parteira, parto natural ou medicalizado – terão um impacto considerável na vida do seu filho e na sua também, seja para melhor ou pior. A escolha é SUA.

Eu posso ter meu filho em casa?
Hoje, nos EUA, no final do século XX, os avanços na Ciência e Tecnologia contribuíram para a melhoria na sua qualidade de vida. Hoje em dia, mais e mais mulheres, de diferentes estilos de vida, estão optando por ter seus bebês da maneira antiga — em casa. Por quê?

Na verdade, apesar de todos os benefícios que a Tecnologia e as descobertas cientificas nos proporcionam, a Medicina ainda não conseguiu criar uma máquina melhor que o corpo humano, para o parto e nascimento de uma criança. Ainda que nossos corpos não funcionem da maneira que deveriam, nós somos mais privilegiados que nossos ancestrais por dispor da Medicina moderna, que pode salvar vidas.

Então porque as famílias estão optando por dar à luz em casa? Apesar de alguns casais terem suas razões pessoais, a maioria planeja parto domiciliar porque acreditam que, geralmente, a gestação e o parto são fenômenos fisiológicos normais que fazem parte da vida da mulher, e que é uma função de um corpo saudável — não um estado de vida ou morte que requer supervisão médica de um cirurgião para acontecer bem.

A Ciência não foi capaz de aprimorar o corpo humano nas funções em que este foi criado para exercer.

Em outros 20 paises, mais bebês sobrevivem no primeiro mês de vida, do que nos EUA.

O parto tem os seus riscos. No entanto, em apenas uma pequena porcentagem de casos, as habilidades de um obstetra/ginecologista e o uso de equipamentos modernos como o ultra-som e os monitores fetais são realmente necessários para a mãe e o bebê sobreviverem sem danos a longo prazo.

A taxa de mortalidade neonatal nos EUA em 1989 atingia um pouco mais que 10 por 1.000 nascidos vivos[1]. Os EUA têm os equipamentos mais sofisticados e modernos e o sistema de saúde mais caro no mundo. No entanto, em vinte outros países — alguns dispondo de menos tecnologia que eles têm nos laboratórios e hospitais — mais bebês sobrevivem em seu primeiro mês de vida, do que os bebês americanos.

Porque esses outros países têm obtido resultados melhores?

Com menos hospitais bem equipados e obstetras disponíveis, alguns desses paises — como Holanda, Suécia e Dinamarca — usam parteiras como os responsáveis pelo atendimento de rotina das mulheres durante a gestação e o parto. [2]

A OMS — Organização Mundial de Saúde — diz que os EUA deveriam investir no sistema de atendimento pré-natal com enfermeiras obstétricas (parteiras).

Considerando o risco potencial do uso rotineiro da tecnologia, a OMS tem pedido repetidamente às autoridades médicas dos EUA para investirem no sistema de atendimento materno-infantil com enfermeiras-obstetras como a única forma de diminuir as altas taxas de mortalidade. [3]

Parteiras, na verdade, atendem partos no mundo inteiro. Médicos, apesar de terem um treinamento avançado e serem especializados em cirurgias, não provaram ser melhores que parteiras no atendimento ao parto normal, além disso nenhuma pesquisa realizada comprovou que hospitais são os locais mais seguros para se dar à luz.

Na verdade, estudo após estudo vem demonstrando que, para a maioria das gestantes dos EUA, o sistema de atendimento pré-natal e ao parto feito por parteira é altamente aconselhável. Nas próximas páginas, você saberá por quê.

Referências:
1. National Committee to Prevent Infant Mortality, HOMEBIRTH No. 8, Sept/Oct 1990, p. 5.
2. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 114.
3. Mothering, Jan/Feb, 1990.
--------------------------------


Estudos indicam que partos domiciliares são seguros.
Mito nº1 — Parto hospitalar é estatisticamente mais seguro que parto em casa.

A segurança, em se tratando de parto, é medida por quantas mães e bebês morreram e quantos sobreviveram, pelo menos com um pouco de saúde.

Estudos realizados comparando partos hospitalares e não-hospitalares indicaram que poucas mortes, ferimentos e infecções ocorreram em partos domiciliares atendidos por parteiras. Nenhum estudo comprova que hospitais são mais seguros do que parto em casa.

Foi constatado que, o risco de problemas respiratórios em bebês recém-nascidos é 17 vezes mais alto nos partos hospitalares do que nos partos em casa.
Os EUA têm a maior taxa de intervenção obstétricas durante o trabalho de parto, assim como têm enfrentado sérios problemas com o crescimento de erros médicos.
Enquanto a taxa de mortalidade neonatal e materna tem diminuído drasticamente desde a virada do século, fatores como nutrição e higiene têm influenciado bastante nesse resultado.

No geral, a mortalidade infantil tem crescido desde os anos 30, mesmo assim, os partos domiciliares demonstraram ser mais seguros. Em 1939, Baylor Hospital Charity Service em Dallas, Texas, publicou um estudo que revelou uma taxa de mortalidade neonatal de 26.6 por 1.000 nascidos vivos em casa comparando com a taxa de mortalidade no hospital, que chegou a 50.4 por 1.000.[1]

Desde meados dos anos 1970, pesquisas realizadas no nordeste da Califórnia, Arizona, England e no Tennessee apontaram para a maior segurança dos partos em [2] O único estudo populacional randomizado, que comparou 1,046 partos domiciliares contra 1,046 partos no hospital, foi publicado em 1977 por Dr. Lewis Mehl, médico de família e estatistico. [3]

Enquanto as taxas de mortalidade neonatal e materna são estatisticamente as mesmas em ambos os grupos, segundo a pesquisa, a taxa de problemas de saúde foi maior no grupo hospitalar: 3.7 vezes mais bebês que nasceram no hospital necessitaram de ressucitação. Foi constatado ainda que as taxas de infecção nos recém-nascidos foram 4 vezes maiores no grupo do parto hospitalar, e a incidência de problemas respiratórios nos bebês nascidos no hospital foi 17 vezes maior do que os bebês que nasceram em casa.

Uma outra pesquisa realizada ao longo de seis anos, pelo Texas Department of Health, de 1983 a 1989, revelou que a taxa de mortalidade infantil nos partos assistidos por parteiras não certificadas, em casa, foi de 1.9 a cada 1.000 comparada com a taxa dos partos realizados por médicos de 5.7 a cada 1.000.[4] A taxa nos partos assistidos por parteiras treinadas e certificadas foi de 1 a cada 1,000 e por outros tipos de assistentes foi de 10.2 mortes por 1,000 nascidos vivos.[5]

Um estudo envolvendo 3.257 partos fora do ambiente hospitalar, no estado do Arizona assistidos por parteiras licenciadas entre 1978 a 1985 mostrou que a mortalidade materna atingiu 2.2 a cada 1,000 e a mortalidade neonatal atingiu 1.1 a cada 1,000 nascidos vivos.

Em depoimento na reunião da Comissão Americana de Prevenção à Mortalidade Infantil, Marsden Wagner, Enfermeiro Parteiro e Diretor da Organização Européia de Saúde Mundial, sugeriu a necessidade dos EUA, de uma formação acadêmica de enfermeiras obstétricas como forma de contrabalancear a quantidade de médicos obstetras, fomentando assim a prevenção ao excesso de intervenções no processo normal de nascimento. [6]

Wagner afirma ainda que na Europa, as parteiras são bem mais numerosas que os obstetras: "Em nenhum país europeu os médicos realizam atendimento primário às gestantes de baixo risco, nem durante a gestação, nem no parto". Ele alega que os EUA têm o mais alto índice de intervenções obstétricas, no entanto também tem enfrentado sérios problemas com a grande quantidade de erros médicos, e aconselha dizendo que um serviço bem estruturado e organizado de atendimento à gestante feito por parteiras nos EUA poderia reverter esta situação.

Referências:
1. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 241.
2. Ibid, p. 115-116, 127, 243-246.
3. Ibid, p. 247-253.
4. Texas Lay Midwifery Program, Six Year Report, 1983-1989, Bernstein & Bryant, Appendix VIIIf, Texas Department of Health, 1100 West 49th St., Austin, TX 78756-3199.
5. Labor Pains: Modern Midwives and Homebirth, Sullivan & Weitz, 1988.
6. Mothering, Jan/Feb, 1990.

--------------------------------




Parteiras são profissionais capacitadas
Mito nº2 — Você tem mais atenção dos profissionais nos hospitais do que em casa.


No hospital, os obstetras geralmente não sentam ao lado da parturiente em trabalho de parto, mas se apóiam em máquinas e nos outros para obter informações e então aparecem no ultimo momento, na sala de parto. A maioria dos médicos não tem uma relação próxima com cada gestante e não as incentivam a ter um parto natural.

As enfermeiras da sala de parto dão um apoio muito maior à mulher durante todo o trabalho de parto. A rotina hospitalar, no entanto, envolve uma certa burocracia, mudança de profissionais, plantões de acordo com horários, e uma flutuação de quantas mulheres cada enfermeira deve ficar responsável. E enfermeiras não têm autoridade para evitar que um médico impaciente tente acelerar o trabalho de parto normal.

Nas últimas décadas, as mulheres têm reclamado do ambiente frio e clinico dos hospitais onde dão à luz, assim muitas instituições têm se rendido a essa pressão da sociedade para modificar esses ambientes esterilizados para um ambiente mais parecido com um lar. [1] Muitos estão permitindo que os acompanhantes entrem nas salas de parto, e alguns até incentivam a participação da doula no parto. Mas, para muitas mulheres, o ato fisiológico de dar à luz não combina com esse ambiente clinico e hospitalar, por mais que tudo corra bem.

Os partos domiciliares planejados, assistidos por um profissional experiente, têm gerado ótimos resultados.

Enquanto estatísticas indicam que partos não-planejados ou sem assistência em casa têm causado resultados piores do que os partos hospitalares, os partos domiciliares planejados e assistidos por um profissional experiente, têm gerado ótimos resultados. [2]

Existe uma variedade enorme de profissionais, à sua escolha, que atendem partos domiciliares — médicos obstetras, enfermeiras obstétricas, parteiras certificadas ou não. Um pequeno número de médicos, alguns membros do American College of Home Obstetrics, atendem partos domiciliares ou nas clínicas. Muitas maternidades nos EUA são administradas por médicos dessa especialidade.

Parteiras especializadas são enfermeiras formadas que deram continuidade à sua formação especializando-se em obstetrícia. A maioria desses profissionais trabalha sob supervisão médica e com o apoio de um hospital, mas poucos têm experiência em parto domiciliar.

Esta profissão é baseada em um conjunto de procedimentos aplicados por um profissional capacitado à mulher e ao bebê durante o primeiro ano de vida, e, em muitos outros paises, parteiras são responsáveis pelo acompanhamento pré-natal e do parto, e esse sistema tem gerado taxas de mortalidade infantil bem menores que as dos EUA. Parteiras são treinadas para observar algum sinal de problema durante a gestação e o parto, e se for necessário, elas chamam um médico obstetra.

Parteiras são responsáveis pelo atendimento primário no pré-natal e no parto
em países com taxa de mortalidade neonatal bem menor que a dos EUA.
Consultas pré-natal com parteiras costumam ser agradáveis, relaxantes e amigáveis
e duram, em média, de trinta minutos a uma hora.

O número de parteiras inscritas nos cursos de formação em obstetrícia tem nos últimos vinte anos, assim como a demanda por este serviço. A maioria das parteiras ainda não formadas tem terminado o curso de capacitação, e vêm sendo treinadas, na prática, com outras parteiras experientes. Esta prática é legalmente permitida apenas em doze estados americanos, e, em alguns desses, é pedida uma licença para exercer o trabalho. Nos estados americanos onde a profissão ainda é ilegal, o trabalho é enquadrado como “prática de Medicina sem diploma”.crescido muito

A prática da profissão de parteira é livre em vinte estados americanos, sendo feita sob regulamentação estatutária ou em estados americanos que ainda não possuem legislação específica. [Ed. — Information about the current midwifery legal situation in individual states or Citizens for Midwifery Grassroots Network.]

Consultas de pré-natal com um médico obstetra em um hospital público ou no consultório geralmente pedem muito tempo de espera por uma consulta rápida. Comparando com as visitas das parteiras, que geralmente são bem relaxadas, mais longas, amigáveis e pode durar até 30 min ou 1 hora. Enfermeiras obstetras normalmente usam este tempo para orientar os benefícios de uma boa alimentação, da prática de atividades físicas, e em como você pode ir se preparando para o parto.

Apesar da formação das enfermeiras obstetras variar um pouco, muitas coletam alguma amostra para laboratório, caso necessário, escutam o coração do bebê, para avaliar se há sinal de sofrimento fetal durante o trabalho de parto, carregam consigo uma bomba de oxigênio portátil, e são treinadas em ressucitação cardio-pulmonar.

Referências:
1. A Good Birth, A Safe Birth, 1990, Korte & Scaer, p. 8-21.
2. Ibid, p. 64-68.

--------------------------------






A Tecnologia pode complicar um parto normal
Mito nº 3 — De quanta mais tecnologia você dispõe, mais fácil será o parto.

No esforço de evitar complicações cada vez mais cedo, e aumentar o nascimento de bebês saudáveis, a Medicina tem modificado o ambiente que envolve o parto de uma atmosfera de atenção, carinho e apoio à parturiente para uma atmosfera de Tecnologia, clínica, fria e moderna.
Apesar de a Tecnologia salvar vidas quando necessário, o uso rotineiro dela pode interferir no processo normal do parto e nascimento.

Cada intervenção médica em um trabalho de parto normal tem seus efeitos colaterais.

O modelo de parto hospitalar dos EUA tem a maior taxa de intervenções médicas
como também, uma grande quantidade de processos por erros médicos.

É comum nos hospitais o uso de soro e monitoramento eletrônico do feto para assegurar que a mãe permaneça hidratada e que as contrações e os batimentos cardíacos do bebê sejam gravados. No entanto, muitas mulheres não gostam de permanecer confinadas numa cama, com agulhas em seus braços e cintos presos à barriga.

Mulheres que são orientadas a permanecer ativas e livres durante o trabalho de parto, reclamam menos de dor nos quadris, e muitos especialistas em parto defendem a tese de que os movimentos e caminhadas durante esse período tornam as contrações mais eficazes.

Alguns hospitais ainda requerem que as mulheres permaneçam deitadas em decúbito dorsal, e que mantenham suas pernas levantadas nos estribos. Como essa posição coloca trabalho do útero contra a gravidade, e faz com que cada contração seja menos eficiente, algumas vezes é necessário se usar o fórceps de alivio para puxar o bebê pela vagina. Evidências cientificas mostram que o fórceps é raramente utilizado quando a mulher tem liberdade de assumir posições mais confortáveis durante o período expulsivo.

Obstetras freqüentemente rompem a bolsa das águas com um instrumento como forma de acelerar o processo do parto. Este procedimento automaticamente dá ao parto um tempo limite, já que a possibilidade de infecção hospitalar aumenta com cada hora que passa, após a bolsa ter sido rompida.

Uma vez que a bolsa que protege o bebê é eliminada, o cinto de monitoramento, usado para acompanhar as variações nos batimentos cardíacos do bebê, pode dar lugar ao monitoramento eletrônico fetal (ou eletrodo de escalpo) — uma ponta de eletrodo minúscula é presa ao couro cabeludo do bebê para continuar monitorando o coração e para coletar a informação sobre o sangue do bebê.

Cada uma dessas intervenções usadas em um trabalho de parto normal envolve um grau de risco, e ainda não foi comprovado que o uso desses procedimentos proporciona mais vantagens, elimina complicações ou torna o bebê mais sadio.

Um estudo recente publicado em um jornal médico prova que o uso rotineiro de monitoramento eletrônico fetal, comparado com o antigo modo de ouvir o coração do bebê após as contrações com fetoscópio, pode causar mais problemas de saúde do que prevenir [1]. Em oito experimentos clínicos randomizados, a mortalidade materna e neonatal não foi reduzida com o uso do monitoramento eletrônico fetal. E talvez, por causa do monitoramento eletrônico, cesáreas desnecessárias foram realizadas, além disso o resultado dos partos monitorados com fetoscópio foram bem melhores e mais positivos. [2]

Atualmente, pelo menos 25% das mulheres tem filho através de cirurgia. Compare esse dado com a taxa de 10% de cesárea em outros paises cuja mortalidade neonatal e materna é bem menor [3] . Esses números indicam que nós não estamos conseguindo bons resultados praticando mais cesáreas.

Há várias décadas atrás, em um esforço para diminuir a dor do parto, médicos ofereciam rotineiramente drogas anestésicas às suas parturientes. Ao longo dos anos, o uso discriminado de muitos desses medicamentos, serviram de subsídios a estudos que revelaram que a droga usada como anestesia durante o trabalho de parto à mãe causa efeitos colaterais no bebê, incluindo asfixia, hipoxia, e danos ao cérebro e ao sistema nervoso [4].

As drogas ainda estão disponíveis para eliminar a dor do parto nos hospitais, apesar de que ainda não foi comprovado que essas drogas usadas como anestesia são realmente seguras para o bebê. [5]

Mulheres que utilizaram drogas anestésicas no trabalho de parto relataram diminuição no sentimento da relação mãe-filho e aumentaram a duração e a severidade da depressão pós-parto. [6]

O hormônio artificial ocitocina, uma droga ministrada para intensificar o trabalho de parto e aumentar as contrações uterinas após o parto também tem efeitos colaterais potenciais, incluindo casos raros de ruptura uterina e um leve aumento na icterícia do recém-nascido. [7]

Interferir no andamento natural do parto com uso indiscriminado de Tecnologia pode causar mais males do que benefícios.

Referências:
1. New England Journal of Medicine, March 1, 1990.
2. The Cutting Edge, Feb. 1990, p. 4, P.O. Box 1568, Clayton, GA 30525.
3. Birth Without Surgery, Carl Jones, 1987, p. xii.
4. The Five Standards of Safe Childbirth, 1981, Stewart, p. 185.
5. Ibid, p. 175
6. A Good Birth, A Safe Birth, 1990, Korte & Scaer, p. 18, 201-209.
7. The Five Standards of Safe Childbirth, 1981, Stewart, p. 300.
--------------------------------




Germes normais domésticos não afetam a mãe ou o bebê
Mito Nº. 4 – O hospital é um lugar mais salutar para ter um bebê do que em casa.

A febre puerperal matou milhares de mulheres no século 19. Na época, os médicos, que também cuidavam dos doentes e moribundos, começaram a atender os partos nas clínicas. Como os hospitais se tornaram lugares para nascimentos e mortes, as infecções se tornaram uma praga para as gestantes e outros pacientes dos hospitais.

Cerca de 100 anos atrás, na Áustria, um médico chamado Ignaz Semmelweis tentou diminuir o número de mortes maternas por infecções, que eram altas, na taxa de 40% entre as mulheres que tinham seus bebês na maternidade do hospital de Viena. [1] Semmelweis descobriu que, simplesmente ao lavar as mãos entre a realização de autópsias e o atendimento a partos, a taxa de infecções causada por médicos diminuía drasticamente. Semmelweis foi ridicularizado pelos seus colegas e não foi senão até cinco anos após sua morte, que seus descobrimentos começaram a receber aceitação. Com o advento da técnica asséptica no final do século XIX e o desenvolvimento de antibióticos na década de 1940, uma gradual melhora foi vista. [Ed. Assim como bactérias resistentes têm se desenvolvido de maneira que estas não são afetadas pelos antibióticos, pode se esperar que essa tendência seja revertida, e podemos esperar ver um crescimento nas mortes por infecções adquiridas em hospitais.].

Na década de 30, estudos na cidade de New York e em Memphis, Tennessee, mostraram que menos mulheres morreram por infecções e hemorragias nos partos domiciliares do que as que morreram pelas mesmas complicações nos hospitais. [2]

Os procedimentos de controle de infecção altamente modernos e caros
não conseguem eliminar a causa das infecções nos hospitais.

Hoje em dia, os rigorosos e caros procedimentos de controle de infecção ainda não eliminaram as infecções nosocomiais, ou hospitalares, causadas por organismos comuns e perigosos, como certos grupos de estafilococos.

De acordo com uma reportagem no Wall Street Journal, a agência de regulação hospitalar dos EUA, A Comissão da Junta de Autorizações em Organizações de Cuidados com a Saúde (The Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations), está falhando ao obrigar padrões de controle de infecções, comprometendo a saúde dos pacientes de hospitais: “A Comissão da Junta está permitindo perigos à saúde e à segurança por deixarem hospitais sem inspeções por semanas, meses e mesmo por anos. Dessa maneira, com uma inspeção mal feita faz com que hospitais irresponsáveis tenham pouco temor à Comissão, já que as punições, nos anos mais recentes, quase inexistiram”. [3]

Cada família se habitua aos seus próprios germes domésticos e desenvolve uma resistência a eles. Uma vez que menos pessoas estranhas costumam estar presentes no momento do parto domiciliar do que num parto hospitalar, as chances de adquirir germes estranhos são menos comuns em uma situação de parto domiciliar.


Todo o esforço é feito para prover um ambiente limpo nos partos domiciliares. As parteiras e os obstetras que atendem os partos domiciliares usam luvas estéreis, assim como instrumentos esterilizados para cortar o cordão umbilical.


Estudos a respeito de pesquisas sobre partos domiciliares indicam taxas muito menores de infecções na mãe e no bebê do que as taxas comuns dos hospitais. Em um estudo de 10 anos (1970-1980) de 1.200 nascimentos na Fazenda (The Farm, uma comunidade Hippie americana) em Summertown, Tennessee, EUA, 39 mães sofreram de infecções pós-parto, e apenas um bebê desenvolveu septicemia. [4]


Ao chamar a maternidade de um hospital de “berço de germes”, o Dr. Marsden Wagner, Diretor Europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS), alertou os médicos em uma conferência médica internacional em Jerusalém, no outono de 1989, que partos hospitalares põem em perigo mães e bebês primariamente, por causa dos procedimentos impessoais e o abuso de drogas e Tecnologia. [5]

Referências:
1. The Birth Gazette, Fall, 1987, review of The Cry and The Covenant, p. 32-33.
2. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 240-241.
3. The Wall Street Journal, Oct. 12, 1988.
4. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 127.
5. Mothering, Out/Nov/Dez, 1989.




Não há lugar melhor do que o lar para o nascimento de uma criança
Mito nº. 5 – Um hospital é o lugar mais confortável para ter um bebê

A idéia de estar confortável durante o parto de um bebê pode parecer impossível e impressionar muitas mães que tiveram seus bebês no hospital. Elas se lembram de estarem confinadas a uma cama de hospital, de não receberem água nem alimento, de serem separadas de seus outros filhos e membros da família e amigos que poderiam estar lhe dando apoio nessa hora, tolerando freqüentes exames de toques e verificação dos sinais vitais, sendo transferidas de uma sala para outra numa cama no auge das contrações mais intensas e tendo suas pernas levantadas e colocadas em um estribo para dar à luz.
As salas de parto e suas mobílias agradáveis são um esforço para eliminar um dos estresses e desconfortos que vêm de estar no ambiente estranho de um hospital.
Estudos mostram que o trabalho de parto pode ser comprometido por um ambiente não familiar. Desconforto e medo podem, na verdade, aumentar a dor experimentada durante o parto, enquanto que relaxamento pode diminuir o stress materno, aumentando o fluxo de oxigênio para o bebê e facilitando o trabalho de parto.
Em sua própria casa, uma mulher em trabalho de parto tem a vantagem do ambiente familiar. Ela pode se mover com liberdade, usar a roupa que desejar, tomar sucos ou chás estimulantes, continuar a cuidar de seus outros filhos, se ela estiver em condições para tal, relaxar numa banheira de água morna, ter seus pés massageados por amigos queridos e tentar diferentes posições para o parto. Um trabalho de parto normal é um estresse saudável para o bebê, limpando seus pulmões dos fluídos e preparando-o para sua primeira respiração fora do útero.
Após o parto, o bebê nunca é tirado de perto da mãe. A família inteira pode subir numa cama limpa para o muito necessário abraço e soneca. O vínculo emocional que toma lugar nos momentos após o parto entre a mãe e o bebê e entre o bebê e o resto da família promovem um melhor ser humano, encorajam a amamentação e a rápida recuperação da mãe.




Profissionais capacitados que atendem partos domiciliares existem, e estão disponíveis.
Mito nº 6 — É impossível achar um profissional qualificado para assistir meu parto em casa.


Enquanto discussões a respeito dos ‘prós e contras’ de partos não-hospitalares e a quem cabe a responsabilidade de assistí-los, continuam sendo feitas na comunidade médica e de especialistas, milhares de bebês saudáveis estão nascendo em seus próprios lares a cada ano.

No entanto, o parto domiciliar não é para todas as mulheres. É necessário que haja um alto grau de confiança no seu corpo, na sua saúde, e no conhecimento adquirido, além de um alto nível de auto-responsabilidade para ir contra a maioria que acredita que partos hospitalares são mais saudáveis e melhor.

Quando você estiver analisando o melhor local para o seu parto, leia livros indicados no Guia de Pesquisa deste site. Converse com mulheres que deram à luz em casa, em casas de parto, em clinicas, maternidades e em grandes hospitais. Discuta sobre isso e tire suas dúvidas com seu médico, ou parteira.

Converse com muitos profissionais adeptos ao parto humanizado que estiverem próximo à sua cidade. Avalie o nível de conhecimento, experiência prática, formação, filosofia e a cada descoberta, verifique se o trabalho dele é compatível com as suas expectativas. Apesar de a maioria dos obstetras realizar partos nos hospitais, alguns aceitam assistir partos em outros locais. Médicos especializados em clínica-geral que atendem gestantes, podem ser contatados, no entanto, ultimamente, nessa área, os riscos de erro médico é um pouco maior, e eles cobram mais caro.

Enfermeiras-obstétricas certificadas atendem em várias capitais, e em alguns hospitais realizam acompanhamento pré-natal, assim como nas clínicas e nas casas de parto. Parteiras bem treinadas e capacitadas são especialistas em partos normais. Algumas são diretoras de maternidades, e outras têm atendido gestantes de várias partes do país.

Nos EUA, em 1989, o custo médio que uma família costumava pagar por um parto hospitalar tradicional sem complicações, era de $4.334, segundo pesquisa do Seguro Americano de Saúde, realizada envolvendo 173 hospitais comunitários, 70 maternidades e 153 parteiras. [1]

Em 1989, a grande maioria das famílias americanas pagava cerca de $4.334 por um parto sem complicações no hospital.

O colapso dos custos por um parto hospitalar incluir uma taxa padrão do médico no valor de US$ 1.492,00 (R$ 3.500,00) para um parto normal e US$ 2.053,00 (R$ 4.800,00) para uma cesárea, e custos hospitalares (que não incluem outras taxas como os serviços por um anestesista) em torno de US$ 2.842,00 (R$ 6536,60).

Em vinte outros paises, mais crianças sobrevivem ao seu primeiro mês de vida, do que nos E.U.A.

Em 1989 a taxa média cobrada por uma parteira era $994.
Em 1989 a taxa média cobrada por uma parteira era de US$ 994,00 (cerca de R$ 2.300,00), um valor que normalmente inclui o cuidado pré-natal, aulas de parto e o material para o parto, enquanto que a taxa de um médico não inclui nada disso.

Qual tipo de atendimento de parto é o certo para você? Em alguns estados americanos, as escolhas são limitadas e baseadas nas leis que restringem a prática das parteiras. A ONG “Friends of Homebirth” (Amigas do Parto Domiciliar) foi fundada em 1989 com o alvo de trabalhar para garantir o direito das mulheres americanas para poder escolher um parto domiciliar com uma atendente treinada. O parto domiciliar é uma escolha razoável para muitas famílias e a legislação restritiva americana deve ceder ao direito Constitucional (americano) da escolha paterno-materna responsável.

Para encontrar alternativas de atendentes de parto, as americanas têm a opção de entrar em contato com educadoras perinatais e o grupo local da “La Leche League ”.


Referências:
1. Health Insurance Association of America, 1989, 1025 Connecticut Ave. NW, Washington D.C., 20036-3998.



Fonte: - Friends of Homebirth

Marcadores: ,

Mãe dá à luz com ajuda de crianças


escrito por: Tricia em terça-feira, outubro 17, 2006 às 4:35 PM.

Meninos de 11 e 13 anos não conseguem chamar o Samu e fazem parto improvisado de irmão em Aparecida de Goiânia

10/10/2006
por: Jonathan Jayme Da editoria de Cidades

Os irmãos Juliano Fernandes Cardoso, 11, e Luciano Fernandes Cardoso, 13, ajudavam nos afazeres do barracão de apenas três cômodos no Jardim Tiradentes, em Aparecida de Goiânia, quando a mãe, Sirlei Mariano Cardoso, 31, sentiu as contrações. A então gestante precisou da ajuda dos filhos para dar à luz ao pequeno Kaíke. Em uma demonstração de bravura, os meninos deixaram a infantilidade de lado e conduziram o nascimento do irmão na semana passada.

Eles dividiram as tarefas. O primogênito ficou de puxar a água da cisterna e esquentá-la em uma bacia para que a mãe pudesse tomar banho e seguir para a maternidade. Juliano ficou responsável de ir até um telefone público mais próximo e chamar uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O casebre sem luz, telefone e água tratada, não ajudava nas condições de emergência em que a genitora se encontrava. As outras filhas de Sirlei, Amanda, 10, e Adriely, 8, estavam na escola. O marido está preso na Casa de Prisão Porvisória (CPP) desde o dia 2 de setembro e também nada pôde fazer para ajudar.

Confiança – Sirlei decidiu confiar nas únicas pessoas que poderiam auxiliá-la: os filhos mais velhos. Juliano não teve sucesso na missão de chamar por socorro. "Quando liguei no 192 eles acharam que era trote e disseram que iam chamar a polícia para prender minha mãe e eu", conta. O menino, que tem fama ser o mais reclamão dentro de casa, respondeu que se algo acontecesse à mãe e ao irmão que estava prestes a nascer, quem denunciaria o caso às autoridades seria ele. Luciano cumpriu o papel designado pela gestante.

Mas já não dava mais tempo. Sirlei anunciou ao filho que a criança estava quase nascendo. O franzino Luciano segurou forte nas mãos da mãe e disse palavras de apoio. "Fiquei com muito medo, mas tinha que ajudar minha mãe", relata. Juliano voltou correndo pela rua de terra que passa na frente do barraco e anunciou que a ambulância não viria. Quando chegou, por volta de 11h30, Sirlei já murmurava as dores do parto. Ele também passou a incentivá-la.

Orientações – "Primeiro veio a bolsa e minha mãe pediu para eu puxar que o bebê viria logo atrás", diz Luciano. E assim o fez. A gestante ficou receosa de que o filho não desse conta de segurar o bebê e pediu para que Juliano chamasse uma vizinha, identificada apenas como "Nega". Quando a mulher chegou, Sirlei dava à luz ao pequeno Kaíke. Os filhos continuaram no apoio à mãe e desta vez foi a amiga que decidiu chamar por socorro. O medo de deixar o filho mais velho pegar o "caçula" se foi. Quando os paramédicos do Samu chegaram ao local para finalizar os procedimentos médicos, Luciano segurava o irmão que acabara de ajudar a nascer.

Fonte: Site DM

Marcadores: , , ,

"na água... legal!"


escrito por: Tricia em terça-feira, outubro 10, 2006 às 4:19 PM.

engraçado como todo mundo simpatiza com parto na água né? Acham bonitinho... mas dificil encontrar quem opte por este tipo de parto para si. Pelo menos aqui no Brasil.

Bom, pra quem quiser se informar mais a respeito do assunto, recomendo o Site Oficial da Sheila Kitzinger, uma das maiores defensoras dessa modalidade no mundo.

---------------


Aviso aos navegantes: o site da ONG Amigas do Parto foi atualizado hoje, hein... Vale a pena conferir as novidades!

Marcadores: , , ,

Feito em Casa


escrito por: Tricia em terça-feira, maio 30, 2006 às 10:32 AM.

É mais antigo do que andar para a frente e até por isso o parto em casa, hoje em dia, assusta tanta gente. Com toda a segurança, tecnologia e infra-estrutura das maternidades, pode parecer maluquice. Mas quem já fez garante que a experiência é inigualável
POR BIA REIS, MÃE DE TOMÁS


Em vez da sala de parto e o quarto do hospital, o conforto da própria casa. No lugar de médicos e enfermeiras de luvas e aventais, uma parteira. Nada de anestesia, cortes ou procedimentos invasivos, mas, sim, uma experiência mais natural do nascimento. O parto feito em casa, também chamado de domiciliar, causa estranheza, gera medo e parece ser coisa de gente maluca. Porém, essa foi a regra que vigorou durante muitas décadas, até meados dos anos 50, e cada vez mais tem conquistado a mulherada dos dias de hoje. E tem mais: é seguro, a probabilidade de infecção é menor e o vínculo que se estabelece com o bebê é muito maior.

"Hoje respiramos uma cultura hospitalar. Para quem mora nas grandes cidades e vive esta época, ter um parto em casa é inconcebível, é coisa de índio, de bicho", relata a enfermeiraobstetra Vilma Nishi, mãe de Carolina e Luisa. De acordo com ela, as mulheres que se interessam pelo parto em casa têm a característica de serem mais ligadas à natureza e, de alguma forma, procuram realizar o desejo de vivenciar um processo mais natural. "Se engravidamos naturalmente, deve haver um jeito natural também de darmos à luz", diz a parteira.

Na consulta inicial, as parteiras conhecem a história dos pais e seus desejos. O pré-natal continua sendo feito por um médico, que acompanha as condições de saúde da mãe e o desenvolvimento do bebê. Com a parteira, a mulher vive outro tipo de experiência, mais ligada às emoções e sensações. Muitas mulheres descrevem as consultas como uma verdadeira terapia. São conversas, massagens e períodos de reflexão.

As pessoas que defendem o parto em casa acreditam que tanto os pais quanto os bebês são beneficiados. Elas dizem que no hospital os médicos colocam a mãe em uma atitude passiva. "A mulher deve ser protagonista do parto. Em casa, ela tem liberdade para escolher a posição que quer ficar, a música que quer ouvir, o que quer comer. O profissional apenas presta uma assistência", explica a enfermeira-obstetra Marília Largura, de 71 anos, mãe de Paulo, Victor e Sarita.

Marília diz que o primeiro contato do bebê com a equipe médica costuma ser marcado por tensão, nervosismo, excesso de manipulações e verificações. Já em casa, a mãe pode ficar com o filhote durante o tempo que quiser, dar banho, amamentá-lo e curtir os primeiros momentos na tranqüilidade do lar. Outro aspecto positivo, na visão da parteira, é que o parto domiciliar estreita a relação dos pais com as crianças. "Quanto mais partos eu assisto em casa e no hospital, mais eu me convenço de que o lugar mais natural para dar à luz, quando se está sadio, é na própria casa", explica.
As parteiras rejeitam as afirmações de que o parto em casa traz riscos de infecção tanto para a mulher quanto para a criança. "Em casa a mulher está no seu hábitat, com suas próprias bactérias. As chances de infecções são infinitamente menores", argumenta Vilma.

Humanização

Vilma, uma das parteiras mais conhecidas de São Paulo, construiu sua carreira trabalhando durante quase 30 anos em hospitais. Sua vida mudou em 2001, quando conheceu o trabalho de uma parteira alemã, adepta do parto humanizado. Desde então, Vilma dá assistência às mulheres que têm o sonho de dar à luz em sua própria casa, como fez Claudia d'Orey, mãe de Valentina, 1 ano e 4 meses.

Claudia conheceu a parteira quando estava no quinto mês de gravidez. Ela já havia procurado 15 médicos e não tinha se identificado com nenhum deles. "Me encantei com a Vilma logo na primeira consulta. Em vez dos exames tradicionais, ela fez massagens, conversou muito comigo, me deixou confiante", descreve a musicista, que, até então, não sabia da possibilidade de dar à luz em casa.

Os quatro meses seguintes foram recheados de consultas, informações sobre o parto e o pós-parto, além das massagens. "Estabelecemos um vínculo muito forte nesse período", conta Claudia. E, assim que sua bolsa estourou, por volta da 1 hora da madrugada, ela logo ligou para Vilma. A parteira seguiu para a sua casa conforme o combinado. Ao contrário do que muita gente imagina, a casa não precisa ser adaptada para que a mulher dê à luz. As parteiras costumam levar apenas um equipamento para acompanhar a freqüência cardíaca do bebê, tesoura para cortar o cordão umbilical, gaze e algodão. Toalhas e lençóis, por exemplo, não precisam ser esterilizados, já que nenhuma intervenção cirúrgica é feita.

Valentina nasceu perto das 10 horas da manhã. Durante o trabalho de parto, Vilma conversou com Claudia, fez massagens e, nos momentos de dor, passou segurança e tranqüilidade. Como acontece nos partos realizados em casa, a mãe não recebeu nenhum tipo de anestesia nem sofreu procedimentos invasivos. Durante o trabalho de parto, as parteiras indicam posições mais confortáveis, mas deixam a mãe à vontade para decidir onde e como quer ficar. "Nós transmitimos segurança e calma para que a mãe faça o seu papel", acredita Vilma.

"A Vilma ficou invisível na hora do parto. Ela dizia que era um momento meu, muito íntimo. Entrei em outra sintonia. Uma hora, na sala, fiquei de cócoras e a cabeça do bebê saiu. Em seguida, me deitei no chão e a Valentina nasceu", conta Claudia. Acompanhada por duas amigas, tudo correu muito bem, mas ela diz que sentiu muita, mas muita dor. E quanto aos preparativos, a coisa não saiu exatamente do jeito que imaginou. Ela havia comprado velas, incenso, escolhido músicas para o momento. "Tinha uma fantasia de como seria, mas na hora foi tudo mais visceral e a dor é muito grande", conta.

Valentina nasceu e foi para o colo da mãe. A musicista ficou o tempo que quis com ela, ainda ligada pelo cordão umbilical. Só depois é que o bebê foi pesado e medido. Claudia amamentou a filha, e Vilma só foi embora quando a mãe já se sentia segura. Depois, voltou nas duas semanas seguintes, quase que diariamente. Com o tempo, as consultas foram se tornando mais distantes.

Hoje, Claudia enxerga seu parto como um ritual e afirma ter saído fortalecida da experiência. "Existe um mito em torno do parto, mas ele pode ser muito mais simples do que a gente imagina. E tem mais: é uma experiência única, inigualável. Não vou dizer que não senti dor, senti, e muita, mas a recompensa, a sensação depois, é boa demais", conta.

Barreiras

Mas não são todas as mulheres que, mesmo após conhecer a parteira e se identificarem com o trabalho, têm o filho em casa. Muitas vezes elas sofrem críticas de familiares e amigos, e acabam sendo desestimuladas. "Na verdade, não culpo a família nem os amigos pelas desistências. O parto sempre foi e continua sendo um momento de insegurança para a mulher", relata Marília, que nasceu de parto em casa e auxiliou sua filha a ter os três netos também na residência.

A enfermeira-obstetra conta que a sociedade é tão preconceituosa que há casos de vizinhos que chamam a polícia quando a mãe decide ter o filho em casa. "O mundo ficou muito neurótico", afirma Marília. Quem critica o parto domiciliar afirma que, em caso de emergência, tanto a mãe quanto o bebê ficam desamparados. Mas, de acordo com Vilma, ao primeiro sinal de que algo pode dar errado, a mulher e o recém-nascido são levados rapidamente para um hospital próximo.

A jornalista Joanna Savaglia, mãe de Rodrigo e Marina, enfrentou de perto o preconceito. Quando estava grávida da Marina, foi atrás de informações sobre parto em casa. Ela conta que no parto do Rodrigo não estava bem-informada sobre as possibilidades e acabou fazendo no hospital.

No sétimo mês de gravidez, Joanna decidiu ter Marina em casa. "Meu marido era contra, mas estava fácil de convencê-lo." A situação mudou quando a jornalista contou para colegas de trabalho que iria ter a filha na própria residência. "Elas me acharam maluca. Minha chefe telefonou para o meu marido e disse que era uma doideira o que eu queria fazer", relata.

O pai ficou inseguro e, como Joanna queria tê-lo ao seu lado na hora do parto, optou pelo hospital. No entanto, procurou um meio-termo. O parto foi realizado em um hospital, mas com uma parteira. Mas o sonho de dar à luz em casa ainda não foi abandonado: "Quem sabe eu não tenho um terceiro filho?", termina.

CONSULTORIA
Dr. Luiz Fernando Pereira Leite, obstetra.Tel. (11) 5573-9987.
Marília Largura, enfermeira-obstetra. Tel. (61) 3233-9389.
Vilma Nishi, enfermeira-obstetra. Tel. (11) 8141-4653.

Fonte: REVISTA PAIS E FILHOS

Marcadores: , ,

Quanto mais natural, melhor


escrito por: Tricia em às 9:26 AM.

Mulheres de classe média optam pelo parto em casa por desaprovarem a abordagem clínica e muitas vezes apressada dos hospitais
[André Dib]

FONTE: Diário de Pernambuco

A recém-nascida Aishá ganhou o mundo na última terça, às 22h13, com 3,5 kg e 50 cm de altura. A bebê é saudável - e faminta por leite materno, diz a mãe, a jornalista Rosely Arantes. Aishá seria mais uma a nascer num hospital, não tivesse Rosely, após se informar em reuniões de gestantes, escolhido recebê-la na intimidade do lar. Rosely diz que a mulher deve ser protagonista do parto.

O parto natural, feito em casa com a condução de uma parteira, tem sido o único recurso para muitas mulheres de grupos sociais menos favorecidos, sujeitas a um deficiente sistema público de saúde - muitas vezes nem isso. A novidade é que mulheres como Rosely, que desaprovam a abordagem clínica adotada pela medicina convencional, recorrem ao parto natural não como uma necessidade, mas como uma opção. Apesar de haver algum receio de na hora H abrir mão da maternidade, essas mulheres enumeram mais vantagens do que revezes em sua escolha.

A antropóloga Júlia Morin, que deu a luz à pequena Maria há seis meses na sua própria casa, diz que adorou a experiência. "Foi maravilhoso. Nãotem ninguém querendo dar remédio. Tinha muita confiança na minha parteira, e isso ajudou muito". Quanto às dores da dilatação, ela afirma que foram amenizadas com algumas estratégias. "Fiquei em movimento para acelerar a dilatação, entrei em banheira com água quente. O pior é ficar deitada, porque as contrações doem mais", explica.

A veterinária Patrícia Menezes diz que escolheu ter o filho em casa porque não se sentiu bem no hospital, onde teve sua primeira filha. "Houve falta de atenção, de diálogo. Já ouvi relatos traumáticos de partos em hospitais públicos, e não quis sofrer com isso", explica Patrícia, atualmente no quarto mês de gestação. Mesmo assim, Patrícia não abriu mão do pré-natal e exames afins. "Não estou fechada para o
caso de impossibilidade. A vida é algo instável, mas a intenção é que tudo aconteça de forma natural".

Após se informar melhor sobre o assunto, Rosely virou partidária do protagonismo das gestantes: "Antes, a mulher percebia os sinais do corpo e respeitava a si no trabalho do parto. No hospital, somos obrigadas a nos submeter a medicações que aceleram as contrações, obrigando o organismo a trabalhar num tempo que não é atural. Tudo porque o hospital não tem tempo para esperar, o que quase sempre leva à cesária. Isto é um terrorismo velado. A gravidez é tratada como doença, é algo que as pessoas sempre dizem que vai piorar. É preciso estar muito certa e tranqüila com o que se quer, porque a pressão para ir ao hospital é muito grande".

No caso de Aishá, foram oito horas de trabalho de parto. "Foi doloroso, mas eu não me arrependo, porque foi muito saudável, muito bonito", conta Rosely. Para ela, o envolvimento dos amigos, irmãos, e até dos vizinhos, que poderiam encarar tudo com preconceito, foi essencial para manter a tranqüilidade. Assim como o papel da parteira, no caso, a experiente Dona Maria dos Prazeres, que do alto dos seus 68 nos e cinco mil partos, soube orientar Rosely de acordo com cada momento.

"Mantenho a tradição de minha mãe e de minha avó. Daqui a três anos, estou com 50 nos de trabalho, e me sinto realizada como parteira tradicional e hospitalar", diz Dona Prazeres, cuja autoridade no assunto a fez assumir a presidência da Associação as Parteiras de Jaboatão. Sua maior luta é pelos direitos trabalhistas das parteiras, garantidos por lei, mas nem sempre cumpridos. "É um trabalho árduo, que não tem nem aposentadoria, e todo trabalhador é digno de seu salário. O governo tem que ter a responsabilidade de pensar nisso", defende Dona Prazeres.

Marcadores: , ,


---------------------------------



QUEM  SOMOS
 



Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


.


Assine o Parir é Nascer! (RSS)

Para receber as atualizações do Parir é Nascer, inscreva seu email abaixo:

Delivered by FeedBurner

---------------------------------



O  QUE  VOCÊ  PROCURA?
 















---------------------------------



INDICAÇÃO  DE  LEITURA
 
















---------------------------------



INTERESSANTES
 

---------------------------------



ONDE  NOS  ENCONTRAR
 

















Powered by Blogger




eXTReMe Tracker