Atendimento Personalizado


escrito por: Débora, em sábado, janeiro 06, 2007 às 10:04 PM.


Muitas mulheres estão optando por ter seu filho nas casas de parto, um ambiente menos tecnológico e mais aconchegante que o dos hospitais

Deborah Trevizan


Não é como nossas avós, que costumavam ter os filhos em casa, só com o auxílio de parteiras. Mas também está longe daquele aparato tecnológico encontrado nos hospitais. Nas casas de parto há sala, quarto, área de convivência e até jardim. Não há médicos e sim enfermeiras obstétricas. Concebidas para atender gestantes de baixo risco, todas elas atendem gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e acabam atraindo também mulheres que têm convênio médico particular que estão em busca de um atendimento mais personalizado e de um parto mais natural. "Elas procuram ainda a chance do acompanhante estar junto e o contato precoce com o bebê", completa a enfermeira Flora Maria Barbosa da Silva, que atua na profissão há dez anos e em casas de parto há cinco. No Brasil são sete casas em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Brasília, todas com atendimento 24 horas. Conheça um pouco mais sobre o funcionamento dessas casas.
● Quem pode ter filhos numa casa de parto?
Todas as mulheres que procuram as casas passam por uma triagem. As que têm doenças preexistentes como hipertensão,diabetes ,portadoras de HIV, as que tiveram partos por cesárea e as grávidas de gêmeos não são aceitas.Há também casos em que a mulher é aceita na triagem,mas durante o pré-natal apresenta alguma alteração na sua saúde ou na do bebê e, por isto, é encaminhada para o hospital.
● O que acontece se,de última hora, a mulher tiver de fazer uma cesárea?
Nas casas de parto não são feitas cesáreas. Em qualquer situação que fuja da normalidade e que se transforme em um parto de risco, é feita a transferência imediata para um hospital.Todas as casas devem contar com uma ambulância durante 24 horas, além da obrigatoriedade de equipamentos de monitoração e de emergência.
● O que acontece se o bebê tiver algum problema?
O atendimento de emergência é feito lá mesmo. São itens obrigatórios nesses locais equipamentos para reanimação do bebê e monitoramento dos batimentos cardíacos e do líquido amniótico durante o trabalho de parto, além de incubadora móvel para o caso de o bebê precisa ser transferido para um hospital.
● Quais profissionais trabalham em uma casa de parto?
A equipe é composta por enfermeira ou enfermeiro com especialidade obstétrica, um auxiliar de enfermagem, um auxiliar de serviços gerais e um motorista de ambulâncias. Não há médicos pediatras ou obstetras.
"Para a gestante de baixo risco esta forma de cuidado é suficiente e não há a necessidade de médicos", afirma o obstetra Jorge Khun, que trabalhou durante um ano em uma casa semelhante em Berlim.Mas não há consenso entre os médicos sobre a segurança do local. Uma resolução do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, inclusive, proíbe que os médicos trabalhem nas casas de parto "por não serem as mesmas dotadas de infraestrutura indispensável ao adequado atendimento à gestante, à parturiente e ao recém-nascido" .
Todas as casas de parto são gratuitas e ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). As grávidas passam por uma triagem e são aceitas as que têm uma gestação de baixo risco

● Que tipo de parto é realizado?
Um dos diferenciais de humanização nestas casas é a possibilidade de a mulher ter livre escolha da posição em que quer ter o filho. Não existem as tradicionais camas de parto como nos hospitais em que as mulheres ficam deitadas em posição ginecológica com os pés nos apoiadores. As posições mais usadas são a "semideitada" , a "de lado"e a de cócoras.A mulher tem à sua disposição chuveiros, banheiras, bolas para se exercitar durante o trabalho de parto e podem caminhar, inclusive nas áreas de convivência e externas.Pode ingerir alimentos e líquidos durante o trabalho de parto. Ela sai entre 12 e 24 horas após dar a luz.
● Elas são regulamentadas por lei?
Sim.Uma portaria do Ministério da Saúde regulamenta a criação dos Centros de Parto Natural, CPN's. Estes centros podem estar dentro ou fora dos hospitais.No caso das casas de parto, a localização é sempre fora e com a condução dos partos sendo feitas pelas enfermeiras. Todas são ligadas às unidades de saúde locais e algumas ficam próximas ou até anexas a hospitais.
● A mulher que opta em ter filho lá tem de fazer pré-natal convencional?
Sim.Toda mulher tem o direito e o dever de fazer o pré-natal desde o início da gestação,independente mente do tipo e do local para o parto escolhido.Ter feito um acompanhamento pré-natal é uma das exigências para que uma gestante seja aceita em uma casa, já que é uma forma de comprovar que a gestação está correndo bem e sem risco.

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Casa de Parto em Fortaleza?


escrito por: Tricia em quarta-feira, novembro 08, 2006 às 3:31 PM.


* foto da equipe de enfermagem MEAC retirada deste site

Infelizmente, aqui em Fortaleza não temos uma CASA de PARTO NATURAL. Pelo menos não funcionando...

Explico:

No ano de 2000, foi feito um enorme investimento aqui em Fortaleza, um projeto chamado LUZ DA JICA, na Maternidade Escola (vinculada à Universidade Federal) para tornar o local e os profissionais mais humanizados - era o inicio da humanização... Compraram equipamentos como cadeira de parto, bola, cavalinho, tudo que puderam. Gastaram milhões. Selecionaram algumas enfermeiras obstetricas, mandaram pro Japão pra fazer um estágio nas maternidades de lá, e verem como assistir um parto natural.

Resultado: não deu em nada.
Os equipamentos estão parados. A casa de parto está fechada. Atende apenas pre-natal no periodo da manhã. Tudo enferrujado se acabando com o tempo.

Ainda houve uma confusãozinha para abrirem a Casa de parto da UFC, movida pelo Dr. Odorico, que esbarrou no Ministério Publico e foi extinta pelo Sindicato dos Obstetras do CE.

É. Pelo que se vê, as pessoas aqui ainda não estão maduras suficientemente para receber certas coisas.

Pesquisando no site da Universidade Federal do Ceará, me deparei com um material mirrado:

"A Maternidade Escola Assis Chateaubriand cumprindo sua missão institucional de promover a formação de recursos humanos em ações de aprendizado, ensino, pesquisa e extensão, buscando a excelência no atendimento humanizado à saúde da mulher e do recém-nascido, vem se consolidando como hospital de referência no Estado do Ceará. A condição de unidade de referência na assistência terciária, responsável, então, pelas ações de média e alta complexidade, tem exigido recursos humanos cada vez mais capacitados, além de recursos materiais de alta tecnologia.

Estrutura Física
• Área Construída: 10.842,18m2
• Número de salas de aula: 8 salas
• Número de salas de cirurgia no Centro Cirúrgico: 6 salas
• Centro de Parto Natural - Pré e Parto (PP): 1 centro
• Número de salas de Ambulatórios: 38 salas

Número de Leitos
• Ginecologia: 24 leitos
• Obstetrícia: 124 leitos
• UTI Neonatal: 22 leitos
• Médio Risco: 30 leitos
• Mãe Canguru: 5 leitos"


Maternidade-Escola Assis Chateaubriand - MEAC
Campus do Porangabuçu
Rua Cel Nunes de Melo S/N - Rodolfo Teófilo

Fone 1: 3214 37 80
Fone 2: 3214 37 60
Fone 3: 3214 32 55
Ambulatório: 3214 37 85
BLH/Laboratório: 3214 30 16

Website: www.meac.ufc.br
E-mail: meac@meac.ufc.br

Diretora Geral: Profª. Dra. Zenilda Vieira Brunoo

Site: Maternidade Escola de Fortaleza

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Casas de Parto podem ser uma realidade no Ceará


escrito por: Escrevo secretamente em às 8:55 AM.



Soube pelos jornais que, na mudança de governo, um dos cotados para assumir a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará é um cara que apóia incondicionalmente as Casas de Parto. Talvez, com a força do Estado e da prefeitura, unidos, se consiga abrir e colocar em funcionamento a Casa de Parto que funciona próximo à Maternidade Escola Assis Chateubriand, hospital de referência para a capital e o interior do Estado.

Mas, acredito também que seja necessário, para se chegar a um acordo entre a representação da classe médica e os principais defensores das Casas de Parto, que as partes envolvidas no processo tenham disposição para o diálogo. E para ceder. Só assim se chega a um consenso, que é o que permitirá a abertura e o bom funcionamento do local.

Também sou partidária da idéia que representantes das mulheres, as maiores interessadas nesse processo, deveriam ser chamadas para a mesa de negociações.

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Centro de parto normal e assistência obstétrica centrada nas necessidades da parturiente*


escrito por: Tricia em quinta-feira, outubro 26, 2006 às 4:52 PM.

autoras: Nilce Xavier de Souza Machado[1], Neide de Souza Praça[2]

RESUMO

Levando em conta os vários estudos e reflexões a respeito do novo modelo de assistência ao parto e nascimento assistência humanizada), e trabalhando como enfermeira obstétrica em um Centro de Parto Normal, surgiu o questionamento a respeito desse conceito, devido às diversas conotações dadas a esse termo. Este artigo foi produzido com a finalidade de divulgar nossa proposta de substituição da expressão “assistência humanizada ao parto”, por “assistência obstétrica centrada nas necessidades da parturiente”, e de discorrer como essa assistência é prestada no Centro de Parto Normal do Hospital Geral de Itapecerica da Serra (SP), que segue um protocolo de condutas obstétricas e normas preconizadas pelo Ministério da Saúde.

DESCRITORES: Humanização do parto. Enfermagem obstétrica. Assistência centrada no paciente.


* Extraído da Dissertação:

“ Infecção puerperal em um Centro de Parto Normal”, Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), 2004.

1 Enfermeira Obstétrica do Hospital Geral de Itapecerica da Serra, SP. Mestre em Enfermagem Obstétrica e Neonatal pela EEUSP.
nxsm@ig.com.br
2 Enfermeira Obstétrica. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da EEUSP.
ndspraca@usp.br.

Rev Esc Enferm USP
2006; 40(2):274-9.
www.ee.usp.br/reeusp/

INTRODUÇÃO
Desde meados da década passada, vem se disseminando pelo país um modelo de assistência obstétrica, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que
realça a mudança no olhar do profissional de saúde sobre a parturiente e sua família. Trata-se dos Centros de Parto Normal.

Os Centros de Parto Normal atendem as normas preconizadas pelo Ministério da Saúde(1), conforme Portaria 985/99 GM. Constituem-se em unidades de atendimento ao parto normal, localizadas fora do centro cirúrgico obstétrico. Dispõem de um conjunto de elementos destinados a receber a parturiente e seus acompanhantes, permitindo um trabalho de parto ativo e participativo, empregando práticas baseadas em evidências recomendadas e que os diferenciam dos serviços tradicionais de atenção obstétrica. As primeiras recomendações para esta modalidade de assistência foram citadas pela Organização Mundial da Saúde, em 1996(2).

Vale destacar que os Centros de Parto Normal surgiram com o objetivo de resgatar o direito à privacidade e à dignidade da mulher ao dar à luz num local semelhante ao seu ambiente familiar, e ao mesmo tempo garantir segurança à mãe e seu filho, oferecendo-lhes recursos tecnológicos apropriados em casos de eventual necessidade. Seguem um padrão de procedimentos previamente estabelecidos e que direcionam as ações que realizam.

O estímulo à implantação deste modelo de assistência, no país, ganhou força, a partir da década de oitenta, quando o movimento de mulheres, no Brasil e no mundo, passou a questionar as práticas obstétricas de rotina e apresentar propostas para humanizar o atendimento(3).

Nesse período disseminou-se a divulgação de que na maioria dos países desenvolvidos a assistência ao parto e nascimento de baixo risco fundamenta-se na atenção prestada
por enfermeiras obstétricas e por parteiras especializadas, cuja formação está voltada para o suporte emocional e o atendimento da mulher e do recém-nascido, sem interferir no processo fisiológico do parto, permitindo à mãe vivenciar esse momento de forma prazerosa e segura. Este modelo de assistência prevê que, durante a gestação, a mulher tem a oportunidade de estabelecer o plano de assistência ao parto, junto com o profissional que a atende, e seu primeiro contato, como parturiente, se dá na primeira relação com os profissionais não médicos, garantindo-se, contudo, o acesso a níveis de assistência de maior complexidade.

Este movimento de mudança na assistência obstétrica envolve, também, legitimidade profissional e corporativa, com um redimensionamento dos papéis e poderes na cena
do parto, com o deslocamento da função principal no parto normal, do médico obstetra para a enfermeira obstétrica (procedimento legitimado pelo Ministério da Saúde), e do centro cirúrgico (palco da ação) para a sala de parto ou casa/centro de parto(4).

No espaço hospitalar, existe uma série de obstáculos para se implantar uma metodologia de assistência que promova o parto normal. A equipe de saúde não aceita com tranqüilidade a mobilidade da mulher, e ela própria sente-se pouco à vontade para decidir sobre os procedimentos de seu parto. Sobrepondo-se a essa situação, os Centros de Parto Normal tornam menos hierarquizadas as relações entre as parturientes e os prestadores de cuidados, e oferecem um ambiente onde a mulher sente-se mais à vontade diante dos eventos que a circundam(5).

O Ministério da Saúde(1), exercendo seu papel normatizador, implantou um conjunto de ações por meio de Portarias Ministeriais com o objetivo de estimular a melhoria da
assistência obstétrica e de regulamentar a atuação do enfermeiro obstetra na realização do parto normal sem distocia, aplicando práticas baseadas em evidências.
Essas considerações nos mostram a estreita relação entre os Centros de Parto Normal
e a assistência obstétrica baseada em evidências, ambos tendo a enfermeira obstétrica
como principal aliada e implementadora.

Considerando essa situação e levando em conta os vários estudos e reflexões a respeito do novo modelo de assistência obstétrica ao parto e nascimento - assistência humanizada em Centro de Parto Normal - julgamos que a expressão assistência humanizada não reflete a abrangência da assistência prestada nesses serviços de assistência ao parto e nascimento, o que originou nosso questionamento a respeito desse conceito. Acresce-se o desgaste do termo pelas diversas conotações a ele atribuídas.

Nossa trajetória profissional, como enfermeira obstétrica, com atuação em diversos serviços de obstetrícia, que seguiam o modelo tradicional de assistência ao parto foi
enriquecida pelo trabalho atual no Centro de Parto Normal de Itapecerica da Serra, SP, inserido em uma instituição que tem como objetivo a redução do número de cesarianas e o incentivo ao parto normal. Nele é adotada a tecnologia apropriada
ao parto e nascimento com estímulo à assistência que valoriza as necessidades da parturiente.

Essa experiência, agregada à vivência profissional anterior, motivou-nos a refletir sobre a abrangência do termo assistência humanizada, amplamente empregado pelos órgãos e profissionais de saúde ao tratarem dos Centros de Parto Normal. Este artigo, extraído de pesquisa anterior(6), foi produzido com o objetivo de justificar a proposta de adequação de nova terminologia à assistência prestada a parturiente em Centro de Parto Normal. Sua finalidade é divulgar nossa proposta de mudança de terminologia, melhor adequando o conceito de assistência humanizada ao parto. A expressão assistência humanizada não reflete a abrangência da assistência prestada nesses serviços de assistência ao parto e nascimento


JUSTIFICANDO A PROPOSTA

As presentes transformações no modelo assistencial direcionado à parturiente e a conseqüente valorização do trabalho da enfermeira obstétrica, nos Centros de Parto Normal, para a realização do parto e nascimento, remete-nos à importância de realçar o significado da relação entre assistência e Centro de Parto Normal.

As instituições deveriam propor-se a organizar os serviços de assistência obstétrica na perspectiva da promoção e da facilitação de um parto saudável, fisiológico e da prevenção de possíveis intervenções e agravos, inclusive aqueles resultantes da assistência, como a dor iatrogênica e a lesão genital da episiotomia desnecessária, entre outros(4).

A literatura é rica em trabalhos voltados à assistência à mulher que vivencia o ciclo gravídico-puerperal e que, em sua totalidade, emprega o termo assistência humanizada. Por sua vez, existem autores que referem que para trabalhar com humanização é necessário despojar-se da onipotência própria da formação médica, trabalhando com uma equipe multiprofissional em que o espaço de cada um deve ser respeitado(7).

Na assistência humanizada, demonstrar interesse e compromisso com o outro requer a conscientização dos possíveis dilemas éticos presentes nessa relação. Na proposta de
relação humanizada, as informações a serem transmitidas aos clientes e deles recebidas são fundamentais(8).

A humanização da assistência reside, também, nas relações interpessoais, em especial entre o profissional e o cliente e o acompanhante(9). O relacionamento entre paciente e profissional e instituição é fundamental para o processo de humanização, sendo
este composto por fatores como comunicação, empatia, conhecimentos técnico-científicos e respeito pelos seres humanos(10).

A humanização engloba uma série de diferentes aspectos referentes às idéias, aos valores e às práticas, envolvendo as relações entre os profissionais de saúde, os pacientes, os familiares e os acompanhantes, incluindo os procedimentos
de rotina do serviço e a distribuição de responsabilidades dentro dessa equipe. No entanto, tais fatores tornam- se fragmentados se a experiência do nascimento não
for reconhecida em seus aspectos emocionais(11).

Ao prestar assistência humanizada à mulher, que vivencia o ciclo gravídico puerperal, os profissionais devem desenvolver habilidades relacionadas ao contato com essa mulher, favorecendo sua adequação emocional à gravidez e ao parto(12). Podem também ajudá-la a superar os medos, as ansiedades e as tensões. No modelo humanizado de atendimento, a parturiente e seu acompanhante devem ser recebidos
pela equipe com empatia e respeito, considerando sempre suas opiniões, preferências e necessidades. Acreditamos que a assistência humanizada está representada na expressão assistência centrada nas necessidades da cliente e vale ser aqui apresentada em maior profundidade.

Não encontramos diferencial na assistência a que ambas de propõem, apenas cremos que a segunda apresenta maior amplitude para destacar a real assistência prestada
e os elementos nela envolvidos.

Consideramos que a assistência obstétrica centrada nas necessidades da cliente deva ser baseada não apenas em procedimentos e normas técnicas pré-estabelecidas, mas na valorização da individualidade, visto que o ser humano é diferenciado pela própria natureza por ser racional e possuir características específicas, como caráter, personalidade, sentimentos, opiniões, crenças, desejos, aspirações, valores próprios, dignidade e senso de justiça, que devem ser respeitados, considerados e valorizados. Ao assistir o indivíduo, o prestador do cuidado deve considerá-lo como um todo, com sua subjetividade e complexidade, sendo membro de um grupo familiar e de uma comunidade(13). Deve, ainda, identificar as mensagens enviadas pelo cliente/paciente e reconhecer seus códigos, compreendê-los e atuar de maneira a satisfazer as necessidades de atenção e de cuidado da clientela. Nesse processo de cuidar, não devem ser esquecidos o contexto de vida e os valores que o cliente traz quando de sua internação. Saber identificar as diferenças culturais e individuais contribui para a redução de desequilíbrios entre a assistência prestada e as necessidades básicas da cliente/paciente.

Nesse sentido, o cuidado deve ser oferecido de maneira holística, valorizando-se a pessoa que o recebe(14). Portanto, a parturiente deve ser considerada como um ser biopsico- sócio-espiritual, para a qual a assistência de enfermagem deve atender as necessidades. Dentre outras, devemos destacar a promoção de sua adaptação ao ambiente institucional e a interação harmônica com o contexto onde recebe o cuidado – Centro de Parto Normal.

As necessidades humanas possuem diversos conceitos, porém nenhum deles é definitivo. Assim sendo, é possível estabelecer bases para futuras abordagens e reformulações. Essas necessidades são universais e classificam-se em nível psicobiológico, psicossocial e psicoespiritual, diferenciando- se apenas no modo de satisfazê-las para cada indivíduo. A assistência das necessidades humanas básicas consiste em um trabalho de equipe, que visa ao autocuidado, a recuperação, a manutenção e a promoção da saúde em colaboração com outros profissionais(15). Como se vê, há estreita relação entre a filosofia de assistência que deve ser oferecida à mulher que vivencia o nascimento e o parto, e o Centro de Parto Normal. Julgamos oportuno, portanto, discorrer sobre a relação deste binômio - Centro de Parto Normal - assistência centrada nas necessidades da parturiente.

Discorrendo sobre assistência obstétrica
centrada nas necessidades da parturiente

Julgamos que o conceito de atenção obstétrica centrada nas necessidades da cliente melhor dimensiona o conceito de assistência humanizada, amplamente empregado, atualmente. Justificamos tal opção pelo seu caráter amplo que envolve um conjunto de conhecimentos, de práticas e de atitudes que visam não só a promoção do parto, mas também um nascimento saudável e a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal, com início no pré-natal e garantia de que a equipe de saúde realiza procedimentos comprovadamente benéficos, para a mulher e para o recémnascido, que evite as intervenções desnecessárias, que preserve sua privacidade e autonomia, já que o nascimento é um evento fisiológico e mobilizador, considerado um dos fatos mais marcantes da vida(1). Existem autores que acreditam que as ações assistenciais para ser eficazes devem considerar não só as atividades técnicas, mas as expectativas da mulher. Toda a equipe deve estar atenta no sentido de oferecer-lhe apoio, atenção e respeito de suas crenças e valores, seus medos, suas necessidades(16). Conforme dito anteriormente, os textos com abordagem na assistência obstétrica prestada em Centros de Parto Normal reforçam o papel da humanização, porém, acreditamos que substituir esta expressão por assistência centrada nas necessidades da cliente mostrará a real abrangência da proposta de atenção desse novo modelo de assistência ao parto e nascimento.

Consideramos, outrossim, que a assistência obstétrica centrada nas necessidades da cliente caracteriza-se pelo direito à autonomia da parturiente, em que a informação é fator relevante, sendo a base principal para que tenha a liberdade de escolher ou recusar qualquer procedimento relacionado com seu próprio corpo, e que esta escolha seja pertinente e convergente ao seu bem-estar. Portanto, esta informação deve ser inteligível, exata, concisa, adaptada ao nível sociocultural e cognitivo de quem a recebe, para que o indivíduo possa ser capaz de, conscientemente, escolher qual a proposta para sua assistência que melhor se adapte, conforme seus princípios morais e éticos. Se não houver informação com qualidade, o direito de decidir adequadamente torna-se inexistente.

Vale esclarecer que, no Centro de Parto Normal, campo desse estudo, a parturiente e seu acompanhante são informados, constantemente, pela enfermeira obstétrica que os assiste, sobre a evolução do trabalho de parto e sobre eventuais mudanças de conduta para que possam colaborar durante todo o processo do trabalho de parto ativo até o nascimento. À cliente em trabalho de parto é permitido expressar seus sentimentos quanto aos procedimentos com os quais não concorda, cabendo à equipe, dentro de suas possibilidades, mudar a conduta de modo que a parturiente sinta-se segura em relação à assistência prestada.

Acreditamos também, que o empenho em manter o relacionamento entre os próprios profissionais e clientes, constitui- se parte da assistência obstétrica centrada nas necessidades da cliente, em que o respeito e a dignidade se tornem uma constante e sejam vistos como norma a ser praticada naturalmente. Vale acrescentar que ainda há maternidades que não oferecem assistência obstétrica centrada nas necessidades da cliente, pois não priorizam a individualidade, a cultura e os costumes de cada mulher. Submetem-na, no momento da internação, a rotinas preestabelecidas pela organização, e na maioria das vezes retiram-lhe o direito à privacidade. Para evitar essa situação, a instituição deve preocupar-se com as necessidades da cliente como princípio da assistência de enfermagem definido em sua filosofia, oferecendolhe condições que, muitas vezes, são representadas por recursos humanos qualificados, por materiais e equipamentos e pela apropriada estrutura física do local(17). Para essa visão ampliada da assistência obstétrica, chamada de atenção humanizada, propomos sua substituição pela expressão assistência obstétrica centrada nas necessidades da cliente, considerada por nós de maior amplitude e pertinente à implantação e implementação de Centros de Parto Normal.

Demonstrando a assistência obstétrica centrada
nas necessidades da parturiente aplicada
em Centro de Parto Normal


Acreditamos ser oportuno citar que a assistência obstétrica centrada nas necessidades da parturiente é plenamente desenvolvida no Centro de Parto Normal de Itapecerica
da Serra, SP, pois este segue os procedimentos definidos pelo orgão gestor máximo do país para a atenção à mulher durante o parto e o nascimento. Esta unidade, cujos partos são atendidos por enfermeiras obstétricas, realizou 10.559 partos normais no período compreendido entre janeiro de 2000 e janeiro de 2003.

A assistência obstétrica centrada nas necessidades da cliente caracteriza-se pelo direito à autonomia da parturiente

A seguir, destacamos os procedimentos adotados por esta unidade de atenção ao parto normal, os quais reforçam nossa certeza quanto à proposta de mudança de terminologia(18). No Centro de Parto Normal de Itapecerica da Serra, a parturiente conta com dieta livre, tem direito a um acompanhante de sua escolha, tem liberdade para movimentação durante o trabalho de parto, é estimulada à adoção de métodos não farmacológicos no alívio à dor - banho de aspersão e de imersão para relaxamento, massagens na região lombossacra, exercícios de respiração e de relaxamento, estímulos a movimentos corpóreos, tais como abaixar, levantar e balanço pélvico – o acompanhante é estimulado a participar na realização de massagens relaxantes para alívio da dor, são estimuladas as eliminações espontâneas (micção e evacuação). É a parturiente quem autoriza a realização do exame tocoginecológico, com respeito a sua privacidade. O profissional deve considerar o desejo de independência da parturiente no início do trabalho de parto e sua dependência no final deste, deve estimular a ingesta hídrica, realizar monitoramento fetal pela ausculta intermitente, usar o partograma, encorajar o parto em atmosfera favorável, permitir interação entre mãe e filho, estimular o contato pele a pele imediatamente após o nascimento, bem como o aleitamento precoce com estímulo à amamentação na primeira meia hora após o nascimento, estimular o vínculo afetivo com a secção do cordão umbilical pelo acompanhante, em condições estéreis, prevenir hipotermia do recém-nascido, favorecer a dequitação fisiológica com exame rotineiro da placenta e de membranas ovulares, permitir que a família fotografe o parto e o nascimento se desejar, autorizar alta precoce pós-parto para mãe e filho, com retorno ambulatorial após 48 horas, para consulta de ambos. Ao acompanhante é permitido o esclarecimento de dúvidas sobre condutas e procedimentos, bem como o estímulo à participação em todos os procedimentos durante o trabalho de parto e o parto.

Com esta relação de condutas recomendadas pelo Ministério da Saúde, e definidas no protocolo de atendimento da unidade, acreditamos que conseguimos caracterizar a amplitude da assistência obstétrica prestada à mulher em Centros de Parto Normal, a qual, com base nos estudos anteriormente citados e em nossa experiência profissional, seria melhor caracterizada como assistência obstétrica centrada nas necessidades da parturiente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vale ressaltar que mesmo comprovado por evidências, o modelo assistencial empregado nos Centros de Parto Normal é gerador de resistências entre profissionais da área da saúde que têm dificuldade em admitir que a assistência obstétrica prestada nessa unidade é coerente com uma proposta de atenção integral à mulher em trabalho de parto.

Acreditamos que, por tratar-se de unidade com proposta inovadora, os Centros de Parto Normal em funcionamento, atualmente, no país, constituem-se em ricas experiências assistenciais e de ensino, tanto para os profissionais, quanto para os estudantes da área da saúde, mas em especial para as mulheres neles atendidas, pois podem usufruir de sua autonomia durante a atenção recebida. Cabe a nós, enfermeiras obstétricas que atuamos nessas unidades, divulgarmos nosso trabalho, favorecendo, portanto, a troca de experiências; assim, estaremos contribuindo para a disseminação da proposta deste modelo de assistência. A dimensão dos fatores assistenciais, profissionais e institucionais que regem a filosofia dos Centros de Parto Normal reforçam nossa proposta de substituição da expressão assistência humanizada para assistência obstétrica centrada nas necessidades da parturiente.

REFERÊNCIAS
(1) Brasil. Ministério da Saúde. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. (FEBRASGO) / Associação Brasileira de Obstretrizes e Enfermeiros Obstetras (ABENFO). Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher. Brasília; 2001.
(2) Organização Mundial de Saúde (OMS). Maternidade segura. Assistência ao parto normal: um guia prático. Brasília; 1996. (OMS/SRF/MSM).
(3) Costa Filho CF. Tratado de obstetrícia FEBRASGO. Rio de Janeiro: Revinter; 2000. Infecção puerperal. Cap. 28, p. 380.
(4) Diniz CSG. Entre a técnica e os direitos humanos: possibilidades e limites da humanização da assistência ao parto [tese]. São Paulo: Faculdade de Medicina da USP; 2001.
(5) Osava RH. Assistência ao parto no Brasil o lugar dos nãomédicos [tese]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 1997.
(6) Machado NXS. Infecção puerperal em um centro de parto normal: ocorrência e fatores de risco [dissertação]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 2004.
(7) Fabre ZL, Tobias L, Berreta IQ, Santiago ML. Humanização em UTI pediátrica: a equipe e a família. Arq Catarinenses Méd. 1992;21(1):34-7.
(8) Guimarães RL, Lunardi VL. O dilema ético frente à necessidade de revelação do diagnóstico de infecção hospitalar. Texto Contexto Enferm. 2000;9(2):137-46.
(9) Basile ALO, Pinheiro MSB, Miyashita NT. Centro de parto normal: o futuro no presente. São Paulo: JICA; 2004.
(10) Malik AM. Humanização. Coren-SP. 2000;(29):2-5.
(11) Rattner D. Humanizando o nascimento e parto: o workshop. In: Síntese do 1º Seminário Estadual Qualidade da Assistência ao Parto: contribuições da enfermagem; 1998 maio 14-15;
Curitiba. Curitiba: ABEn - Seção PR; 1998. p. 24-5.
(12) Carneiro LM. Parto humanizado: humanizar é preciso. J Rede Saúde. 2000;
(20):16-7.
(13) Cianciarullo TI. A avaliação do sistema de assistência de enfermagem como base do desenvolvimento do conhecimento na enfermagem. In: Cianciarullo TI, Gualda DMR, Melleiro MM, Anabuki MH. Sistema de assistência de enfermagem: evolução e tendências. São Paulo: Ícone; 2001. Cap. 16, p. 293-302.
(14) Souza MF. As teorias de enfermagem e sua influência nos processos cuidativos. In: Cianciarullo TI, Gualda DMR, Melleiro MM, Anabuki MH. Sistema de assistência de
enfermagem: evolução e tendências. São Paulo: Ícone; 2001. Cap. 2, p. 29-39.
(15) Horta WA. O processo de enfermagem. São Paulo: EPU/Edusp; 1979. p. 33-4.
(16) Paschoal MLH, Rogenski NMB. Sistema de assistência de enfermagem perioperatória. In: Cianciarullo TI, Gualda DMR, Melleiro MM, Anabuki MH. Sistema de assistência de enfermagem: evolução e tendências. São Paulo: Ícone; 2001. Cap. 11, p. 201-19.
(17) Ceccato SR, Van der Sand ICP. O cuidado humano como princípio da assistência de enfermagem à parturiente e seus familiares. Rev Eletrôn Enferm. [on-line] 2001; 3(1) Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista.html. [Acesso em 19 mar. 2002].
(18) Hospital Geral de Itapecerica da Serra (SP). Protocolo de assistência humanizada ao parto e nascimento. Itapecerica da Serra: HGIS; 1999.

Correspondência: Nilce Xavier de Souza Machado
Rua Concórdia, 44 CEP06850-000 - Itapecerica da Serra – SP
Artigo retirado do link:
Universidade de São Paulo

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Parto humanizado é direito da mulher


escrito por: Tricia em às 4:51 PM.


por: Leandra Rajczuk

Quem passa pela rua Jorge da Silva Luz, travessa da avenida do Oratório, no bairro de Sapopemba, zona leste da cidade, não imagina que ali existe um ambiente criado para que os bebês possam nascer mais tranqüilos e felizes. Esse lugar é a Casa de Parto, uma iniciativa do Projeto Qualis (Qualidade Integral em Saúde) da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, que integra o Programa Saúde da Família (PSF) do Ministério da Saúde e tem apoio do Instituto do Coração e da Fundação Zerbini (leia texto abaixo). A região, que tem cerca de 300 mil habitantes, foi escolhida para sediar a casa porque não possui nenhum leito de maternidade.

Inaugurada em 18 de setembro do ano passado, é a primeira e únida casa de parto do País onde é desenvolvido um trabalho de atendimento público e contínuo com plantões de 24 horas durante todos os dias da semana. "Muitas mulheres grávidas não tinham onde dar a luz e se queixavam da peregrinação a que eram submetidas em busca de uma vaga", afirma Ruth Osava, diretora da casa. "A partir daí surgiu a idéia de se criar a casa, que é um local sem características hospitalares dedicado ao contato mais próximo com a gestante antes, durante e após o parto."

É uma casa simples com folhagens desenhadas nas paredes, canteiros com flores e espaços que revelam um clima harmonioso. Um aquário com peixes ornamentais, próximo à entrada, tornam o ambiente ainda mais agradável e familiar. Para lá são encaminhadas gestantes do PSF/Qualis em condições clínicas de realizar o parto de forma normal, assistido pelas parteiras e sempre acompanhadas por um familiar que a própria gestante escolhe durante o pré-natal. "As mulheres triadas por médicos e enfermeiras de família passam por nova avaliação de risco na casa", explica Ruth. "Realizado o parto, o pai ou o acompanhante corta o cordão umbilical."

A equipe da casa é composta por enfermeira obstétrica ou parteira, que é a diretora técnica responsável, além de auxiliar de enfermagem, auxiliar de serviços gerais e motorista. Não há médicos no estabelecimento, mas existem obstetras e pediatras, designados pelo PSF para participar do treinamento específico da equipe da Casa de Parto para as situações de risco e de emergência. A capacitação das parteiras deve ser realizada através de aulas teóricas e práticas. "Temos uma sala devidamente equipada para proceder a ressuscitação dos recém-nascidos que precisarem de procedimentos mais avançados como, por exemplo, uma massagem cardíaca externa", enfatiza a diretora. "Apesar da suposta simplicidade do parto humanizado que realizamos, tanto a gestante como o bebê devem ser atendidos de forma eficiente."
A mulher é acompanhada desde o final de sua gestação, e admitida quando em trabalho de parto. Ela permanece no local entre 6 e 12 horas após o nascimento do bebê e recebe refeições preparadas de acordo com sua preferência. Após retornar ao domicílio, a mãe recebe também a visita da enfermeira ou médico de família. No dia 26 de março, às 11h40 da manhã nasceu Josué Ferreira da Silva, o primeiro filho do casal de evangélicos Josias e Helena, moradores da região. "Essa iniciativa é importante porque auxilia principalmente famílias carentes que não podem pagar um convênio particular", afirma Josias. "O trabalho feito pelas funcionárias é excelente e minha esposa recebeu muita atenção, reagindo com mais segurança frente ao parto. Isso me faz sentir tranqüilo como pai." Desde sua inauguração, a casa já realizou mais de 120 partos e, hoje, faz em média 30 por mês.

Elaboraçãode propostas

O Brasil é um dos campeões mundiais em número de cesarianas. Aproximadamente 35% dos partos realizados no Brasil são cirúrgicos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que no máximo 15% teriam justificativa para a operação. Segundo a professora Maria Luiza Riesco, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Escola de Enfermagem da USP, em São Paulo praticamente todos os partos ocorrem em hospitais e essa experiência nem sempre é positiva para todas as mulheres e também para as práticas assistenciais necessárias nessas situações. "Atualmente, o parto é muito medicalizado com várias intervenções e pouco espaço para a atuação da enfermeira obstétrica", diz. "Portanto, a casa de parto vem como uma opção de assistência mais humanizada para a mulher, pois possibilita, entre outras vantagens, a participação dos familiares."

A professora explica que cerca de 80% das gestações são de baixo risco, sendo importante ter a Casa de Parto como alternativa de um modelo assistencial diferenciado e de qualidade. "A casa ainda não é regulamentada como Estabelecimento Assistencial de Saúde (EAS) porque não se trata de um serviço de pronto atendimento, nem uma unidade de internação hospitalar ou ainda um serviço ambulatorial", argumenta Maria Luiza. "Para debater a questão, promovemos um workshop em março com a participação de especialistas da área que apresentaram propostas para a elaboração de um documento que está sendo produzido."

Nesse sentido, foi organizado o evento Missão Técnica São Paulo — 99, entre os dias 13, 14 e 15 de maio, na Faculdade de Saúde Pública da USP, com o objetivo de estruturar propostas para implantação de casas de parto em outras cidades brasileiras. No dia 14 foi a vez do professor Maresden Wagner, assessor e ex-chefe da Saúde da Mulher e da Criança da OMS, considerado o grande estimulador do parto normal e humanizado. Em sua palestra, o especialista procurou abordar temas como a progressiva hospitalização da assistência ao parto, a incorporação crescente da tecnologia e a elevação das taxas de cesariana que produziram um impacto negativo sobre as oportunidades de capacitação e atuação de enfermeiras obstétricas no parto.
Para o professor, a população precisa ser informada sobre a verdade da cesariana que aumenta em até oito vezes a possibilidade de morte materna e é responsável pelo desenvolvimento de infecções em até 20% das mulheres que se submeteram a essa cirurgia. "A Suécia é o país com a menor taxa de mortalidade infantil e materna do mundo, pois 90% dos partos acontecem sem a presença do médico", avisa. "O modelo de assistência mais moderna e eficiente que existe é a casa de parto, porque oferece maior segurança e menor custo."

De acordo com Ruth Osava, há apenas 40 anos a parteira saiu de cena da cidade de São Paulo. "Em 1956, 80% dos partos aconteciam nos próprios domicílios", conta. "Hoje, temos hospitais que realizam até mil partos por mês, ou seja, é um local que parece ter sido planejado para que os partos normais não ocorram. É preciso voltar a acompanhar o ritmo de um parto natural como fazemos aqui na Casa de Parto, oferecendo uma assistência mais digna e segura ao nascimento e parto das mulheres."
Segundo a diretora, as mulheres precisam saber que não existe uma data provável de parto, mas um período. "No Japão, 10% das mulheres dão à luz nas casas de parto e esse índice vem aumentando cada vez mais", ressalta. "Ao invés de saber quando a gestante terá o bebê, penso que a conversa no futuro será essa: Onde você vai dar a luz?"

Soluções comunitárias

A procura por tratamentos de saúde complementares à medicina tradicional é uma tendência crescente em todo o mundo. Em São Paulo, essa iniciativa é denominada Qualis — Qualidade Integral em Saúde. O projeto integra o Programa Saúde da Família (PSF) do Ministério da Saúde e reúne diversos profissionais na capital, além de equipes de saúde da família. Cada uma delas é formada por médico, auxiliar de enfermagem, enfermeira e agentes comunitários. No Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, bairro da zona leste, o Qualis entrou em execução há três anos. Já em Vila Nova Cachoeirinha e Sapopemba, o serviço existe desde fevereiro do ano passado e conta com 12 unidades de atendimento à família.

"Esses grupos de apoio são capazes de resolver 90% dos problemas de saúde da população atendida", afirma o médico David Capistrano da Costa Filho, coordenador do Qualis em Vila Nova Cachoeirinha e Sapopemba. "As famílias cadastradas recebem informações que vão desde como e onde fazer exames pré-natais ou atualizar a carteira de vacinação das crianças, até o encaminhamento de pacientes para cirurgias."

Segundo Capistrano, os agentes comunitários de saúde são escolhidos pela comunidade e treinados por técnicos do Ministério. O programa destina cinco ou seis agentes para cada grupo de mil a 1.250 famílias que as visita pelo menos uma vez por mês para detectar necessidade de tratamento ou internação. "Os agentes residem em sua área de atuação por pelo menos dois anos", ressalta. "A única exigência é que ele tenha um bom realicionamento e saiba ler e escrever para anotar os dados referentes à situação dos moradores."

É dada preferência também aos auxiliares de enfermagem que sejam moradores locais e tenham curso de nível superior. As inscrições são abertas em jornais de grande circulação da cidade e a seleção é feita por uma equipe de recursos humanos do programa. Os médicos de família também fazem cursos de capacitação para trabalhar no sistema. "Como nossas universidades formam apenas especialistas, ainda não temos no Brasil unidades para capacitar essas pessoas", explica.

A cidade de São Paulo conta com distribuição hospitalar muito desigual. Na região da avenida Paulista existem 14 leitos por mil habitantes, mas, no Parque São Lucas, não existe nem um. "Sapopemba foi escolhida para abrigar a Casa de Parto porque ali não há nenhum leito obstétrico", observa o coordenador. "Além disso, realizamos uma pesquisa na Partoral da Criança e constatamos que a gestante precisa percorrer de quatro a cinco maternidades para conseguir ser atendida."

Mas o trabalho não se esgota apenas como um programa de atenção básica para melhorar a qualidade de vida dos menos favorecidos. Uma média de 10% das pessoas necessitam de tratamento especializado, incluindo saúde física e mental como atendimento odontológico e psiquiátrico. De acordo com Capitrano, o índice de aprovação do sistema é de 98%. "Outros bairros também estão motivados pela iniciativa e querem implantar unidades do Qualis em suas localidades", reflete. "Esse é um projeto viável do ponto de vista financeiro, porque nosso custo mensal por pessoa é inferior a R$ 6,00. Gastamos, anualmente, menos de R$ 70,00 com cada paciente."

Publicado em 1999.
fonte: Jornal USP

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Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


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