As mãos que suportam o Brasil: As 60 mil parteiras do País querem ser reconhecidas pelo trabalho que fazem

REVISTA ISTO É, MEDICINA & BEM-ESTAR, EDIÇÃO Nº 1830, 03/11/2004, Aureliano Biancarelli

Elas "assistem" 15% dos três milhões de partos que acontecem no País a cada ano. São cerca de 60 mil parteiras que "amparam" 450 mil crianças. Cerca de 70% estão nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Os números são do Ministério da Saúde. Na prática, essas mulheres, muitas de lenço na cabeça, rostos enrugados e olhares humildes, assistem milhares de mães e bebês onde em geral a rede de saúde não chega. Diante da lei, são clandestinas que exercem uma função não autorizada pelas associações de classe de médicos e enfermeiras nem têm sua profissão reconhecida. A maioria não sabe ler nem conta com instrumentos ou treinamentos. A ferramenta são as mãos sensíveis - que, com a experiência, ajudam a identificar um feto fora de posição - e a paciência, que as faz permanecer ao lado da gestante às vezes por muitas horas de contrações.

Recentemente, cerca de 250 dessas parteiras tradicionais se encontraram em Oliveira dos Campinhos, no Recôncavo Baiano. Juntaram-se para reivindicar o que é um direito adquirido na prática: terem a profissão reconhecida por lei, o que significaria remuneração pelo trabalho. A regulamentação, elas acreditam, garantiria também um mínimo de respeito por parte dos profissionais de saúde. Muitas relataram que são tratadas como bruxas e que às vezes são perseguidas por médicos quando precisam conduzir a um hospital uma gestante em risco. Não foi o primeiro encontro promovido pela Rede Nacional das Parteiras Tradicionais. Mas o de Oliveira dos Campinhos foi ungido pelo apoio oficial. Na reunião, estava a médica Maria José Araújo, do Ministério da Saúde. "A aprovação da lei que cria a profissão das parteiras tradicionais, embora seja uma questão delicada, está entre as prioridades do ministro Humberto Costa", afirmou.

O Ministério se manifestou a favor do Projeto de Lei 2.354/2003, da deputada federal Janete Capiberibe (PSB-AP), que está na Comissão de Seguridade Social e Família. "A maioria dos senadores nasceu de parteiras. Temos certeza de que aprovarão o projeto este ano", afiança Suely Carvalho, presidente da ONG Cais do Parto e ela própria parteira no Recife. O temor das mulheres está na resistência de instituições médicas, de hospitais e laboratórios. Mais de uma vez, as entidades médicas afirmaram que o parto fora do hospital e sem assistência de um médico significa sério risco para a gestante e a criança. O objetivo do encontro foi justamente pressionar pela aprovação do projeto. Em alguns Estados, como Ama pá, e em alguns municípios, como São Luís (MA), as parteiras recebem até meio salário mínimo. Desde 1991, o SUS inclui de forma indireta o parto tradicional como um procedimento cujo valor está em torno de R$ 16, mas o pagamento é feito ao município. "Na prática, não conhecemos um único município que repasse os pagamentos às parteiras", completa Suely.

Em Campinhos, as parteiras dividiram experiências. Aos 22 anos, Sônia Alves, de São Francisco (MG), já fez mais de dez partos. Agora é a sua vez de dar à luz. Ela está no final da gravidez e o parto será feito por sua mãe, Apolinária Alves de Oliveira, 53 anos, que diz já ter "puxado" 3,6 mil crianças. "Aprendi aos 14 anos, quando uma vizinha precisou de socorro e não tinha parteira por perto", lembra Apolinária.

Pagamento - Sônia e mãe formam uma rara dupla. No geral, sem nenhuma perspectiva de remuneração, as filhas não querem seguir os passos das mães. É o que comprovam seis parteiras de Caiana dos Quilombos (PA) que foram ao encontro. Duas delas somavam uma prole de 45 filhos. Nenhum seguiu o trabalho das mães. "Quem vai querer subir e descer serras, passando horas ajudando só por amor?", pergunta Maria Benvinda, 65 anos, parteira desde menina. Desafios como esses não intimidaram Gracye de Andrade, 21 anos, de Vitória do Jari (AP). Ela aprendeu o ofício com a avó e com a mãe. "Tinha 15 anos quando um vizinho veio chamar para um menino que estava nascendo. Minha avó estava longe. Minha mãe tinha ido à cidade. Fiz o parto sozinha. O bebê nasceu, contei dois dedos para cortar e amarrar o umbigo. Depois botei ele em cima da barriga da mãe", explica, com a simplicidade típica das parteiras. Trabalho, aliás, que Gracye pretende continuar exercendo.
FONTE:GTPOS

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Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


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