Maternidade e Tecnologia: a era do medo


escrito por: Tricia em segunda-feira, janeiro 08, 2007 às 4:28 PM.

por: Tricia Cavalcante Lima Pacheco, colaboradora da ONG Amigas do Parto.

Janeiro de 2007.

A tecnologia médica está presente em todos os processos da reprodução humana: desde a concepção, caso se faça necessário através das técnicas de RA (reprodução assistida), que tem atingido resultados impressionantes, até o parto, cujo reflexo se mostra nos altos índices de cesáreas em todo o mundo.

Devido a influencia de fatores sócio-culturais, dentre outros, as mulheres nunca se sentiram tão inseguras em relação a maternidade quanto hoje. Há um negativismo disseminado dominando todos os âmbitos da vida pós-moderna. Um sentimento mórbido de saber das desgraças do outro e contar as suas próprias, como se ter uma vida saudável fosse monótono e sem graça. Estar doente, fazer exames, tomar vitaminas tornou-se símbolo de status e ocupação. Dessa forma, as pessoas utilizam todos os tipos de serviços que o seu plano de saúde oferece, apenas por diversão. Exames e mais exames, todos os meses, de todos os tipos imagináveis. Sempre em busca de algo, sempre medindo, e comparando aos parâmetros considerados normais. Caso haja alguma diferença entre o objeto em estudo e a regra, instala-se o temor de que alguma tragédia está para acontecer, consequentemente, torna-se minada a segurança da mulher em sua capacidade de gestar e parir naturalmente.

Não seria exagerado definir essa tendência como o “ócio do medo”. Quando não se tem nada mais importante para fazer, a mente se ocupa em vasculhar e buscar problemas para resolver. E a gestação, que sempre foi vista como algo misterioso, é um prato cheio para esse tipo de ocupação. No entanto, vários estudos (1) comprovam que examinar demais uma gestante resulta apenas no aumento das taxas de cirurgia cesareana.

O ciclo é vicioso: a transmissão do conhecimento do corpo feminino e seus ciclos e processos entre mãe e filha não mais acontece. Jovens crescem e se tornam mulheres que desconhecem o próprio corpo e mal sabem ouvir seu instinto. Corpo e mente são sintonizados como uma rádio fora da estação. Cheias de insegurança, se apegam aos profissionais, as maquinas e aos números. Do outro lado, a Medicina, que com o surgimento da obstetrícia tomou a responsabilidade sobre o nascimento que antes pertencia às mulheres e suas parteiras para si, perdeu totalmente a emoção, como já disse Wilson Oliveira Jr(2). A terapeuta corporal Therese Bertherat também fala sobre as conseqüências do uso da tecnologia no psiquismo feminino; “Agora os monstros são mais terríveis, sob um aspecto tão banal que ninguém desconfia da carga de angustia que eles podem provocar. Um exame, um aparelho, um profissional. Mas o exame, que supostamente deve dar segurança, na realidade causa pânico; o aparelho, feito para mostrar, só deixa entrever sinais cabalísticos; o técnico, grudado no aparelho, tem uma tela no lugar dos olhos, não tem ouvidos para escutar e só pensa em uma coisa: fazer a triagem dos embriões, considera-los dentro das categorias estatísticas, ou excluí-los, se forem grandes ou pequenos demais, em desacordo com a norma.“ (3) Resultado: iatrogenia do parto e nascimento.

A tecnologia tem servido principalmente ao propósito do domínio masculino sobre o poder da mulher em gerar a vida. Esse tipo de controle pode ser percebido sutilmente através dos exames, da observação em todos os aspectos, e finalmente do sentimento de incapacidade que domina cada vez mais mulheres em seus partos. Se refletirmos mais sobre esse ponto de vista, talvez chegaremos a conclusão que o obstetra Eliezer Berenstein descreve no seu livro “A Inteligência Hormonal da Mulher”; “desde as mais remotas épocas, a natureza – e especialmente a terra – tem sido vista como uma nutriente e benévola mãe, mas também como uma fêmea selvagem e incontrolável.”(4) E este caráter imprevisível é inaceitável em nossa sociedade pós-moderna. O medo da natureza como conseqüência do uso exagerado da tecnologia tem prejudicado bastante a capacidade de parir e gestar.

Apesar de muitas mulheres ignorarem até agora, em meio a tantos “olhos” observando o bebê ainda no ventre, há algo inerente a si mesma: o instinto feminino. Toda a máquina corporal pode estar funcionando bem, mas somente a mulher pode ter absoluta certeza de que as coisas vão bem. Ela está em total contato com o seu filho, ela o sente de várias maneiras. Mas a modernidade lhe oferece o poder da visão sobre o interior do seu útero, para satisfazer o desejo do profissional, e posteriormente dos pais, e ela passa a desconsiderar as outras formas de interação com o filho, em detrimento da tecnologia, deixando assim de experimentar uma interação muito mais completa e engrandecedora.

Absolutamente não somos contra o uso da tecnologia, mas sim contra o seu excesso. Não podemos negar que a tecnologia tem conseguido solucionar problemas cada vez mais cedo. Porém, nada que um bom pré-natal consiga prever.

Se agarrar somente a resultados de exames é enxergar por uma janela embaçada subestimando todo o trabalho que nosso corpo está tendo em se reproduzir, e toda a energia que a natureza investe nesse processo. A gestação de uma vida é algo tão maravilhoso e complexo que não se pode medir apenas em um ângulo. E cabe a nós mulheres tomarmos consciência do limite entre o conhecimento do nosso corpo e invasão de privacidade que as máquinas proporcionam.

Referências:
1. Posso ter um parto em casa? Seis mitos sobre parto e seus riscos, 1990. Artigo publicado no site da ONG Amigas do Parto. Tradução: Tricia Cavalcante L. Pacheco
Tradução e Revisão: Carla Beatriz Piuma Maise. URL: http://www.amigasdoparto.org.br/ce_parto_01_36.asp

2. A MEDICINA NÃO PODE PERDER A EMOÇÃO. Wilson Oliveira Jr.* Artigo publicado no site da ONG Amigas do Parto. URL: http://www.amigasdoparto.org.br/artigo_005_01.asp

3. Berthetar, Marie. Quando o Corpo Consente – São Paulo: Martins Fontes, 1997. pág. 18.

4. Berenstein, Eliezer. A inteligência hormonal da mulher. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

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Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


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