Cesariana, uma distorção na obstetrícia brasileira


escrito por: Tricia em terça-feira, agosto 05, 2008 às 10:26 AM.

GILDA DE CASTRO

Desde os anos 80, o Ministério da Saúde tenta diminuir o número de cesarianas no Brasil, mas não obtém sucesso, pois há vários problemas que condicionam essa situação, que é vergonhosa no quadro da obstetrícia no mundo contemporâneo. A Organização Mundial de Saúde insiste que o parto cirúrgico não pode ultrapassar 15% dos casos que abrangeriam todas as intercorrências desfavoráveis ao processo natural da parturição.

Isso não sensibiliza, entretanto, os médicos nem convence as mulheres de que elas e seus rebentos passariam por procedimentos muito mais saudáveis se o parto fosse normal, pois ele se refere à situação estabelecida pela natureza e testada pelas fêmeas de todos os mamíferos através dos tempos. Optamos, desde meados do século XX, por medidas mais invasivas, que oneram os serviços de saúde e podem acarretar danos irreparáveis ao bebê ou ao organismo materno.

Os profissionais argumentam que é o melhor caminho diante do desenvolvimento da tecnologia médica e as gestantes dizem que, no terceiro milênio, não podem dar à luz como Eva. Isso acontece, infelizmente, apenas em nosso país, indicando que temos mais essa distorção no serviço de saúde.

O anúncio de que será oferecido à gestante que optar pelo parto normal um quarto específico para o procedimento, com leito e banheiro, não reverterá essa estatística perversa, porque há muitos interesses em jogo que condicionam a escolha insensata. Isso fica facilmente demonstrado na situação das maternidades que atendem as classes privilegiadas, pois a cesariana ocorre em 80% dos nascimentos.

Há, nesse caso, um acordo entre o médico e a gestante, com agendamento prévio da cirurgia no início do pré-natal, resguardando-se ambos do incômodo do parto no meio da madrugada, em fim de semana ou na época de importantes compromissos sociais. O profissional obtém mais vantagens porque cobra mais caro, desincumbe-se da sua tarefa em menos de duas horas, garante sua paciente e faz obstetrícia com dia e hora marcados.

Trata-se de uma rotina oposta do que age na outra vertente, que precisa conferir, diariamente, a lista das gestantes que estão prestes a dar a luz, condicionando suas viagens e mesmo seus outros compromissos profissionais ao chamado emergencial na maternidade. Fica muito fácil justificar a primeira postura, diante do leigo, em cima de considerações teóricas sobre possíveis intercorrências para uma mulher que sofre alterações significativas em seu organismo vinculadas ao processo da gestação.

Ela não consegue questionar os argumentos técnicos e prefere assegurar que será atendida pelo responsável do pré-natal, que conhece o seu caso e oferecerá um tratamento personalizado.
Nenhuma medida oficial será, portanto, suficiente para mudar os rumos da obstetrícia brasileira se o alvo não for o médico. Norte-americanas que vêm residir aqui são advertidas quanto à incompetência dos nossos profissionais para assistir a parto normal que demanda acuidade superior para intervir adequadamente no momento certo. Ou seja, os obstetras brasileiros apresentam falhas na sua formação e isso exige mudanças significativas nos cursos de medicina.

Torna-se imperioso também cobrar que cada profissional apresente sua própria estatística, demonstrando sua capacidade para atuar num fenômeno natural sem intervenções bruscas e desnecessárias em gestantes saudáveis. Isso será possível se ele for mais transparente, magnânimo e sensato diante da vida, da sociedade e da especialidade médica que escolheu livremente.

Publicado em: 02/08/2008

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Ginecologia tem maior índice de erro médico, diz estudo


escrito por: Tricia em sexta-feira, dezembro 15, 2006 às 6:49 AM.



15/12/2006 - 12:26
Fonte: Terra


O maior número de processos que tramitam na Justiça por erro médico estão relacionados à área de ginecologia e obstetrícia, conforme mostra um levantamento feito pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Do total de 353 decisões de natureza civil analisadas, 18,5% correspondem a casos de erro médico nestas áreas. Na terceira posição relacionada às especialidades com maior índice de erro está a cirurgia plástica, com 13,7%.

Os organizadores do levantamento apontam que, apesar do número de reclamações em relação à ginecologia e obstetrícia ser maior, é preciso lembrar que a freqüência de realização de procedimentos nesta área também é maior.

A pesquisa mostra que grande parte dos problemas que levam a processos judiciais está relacionada a casos aparentemente simples e ao diagnóstico. Por exemplo, um dos casos relatados no estudo se refere à realização desnecessária de cirurgia com suspeita de gravidez ectopia (gerada fora do útero), quando, na verdade, se tratava de cistos no ovário.

Em outro caso, a demora do profissional em constatar a necessidade de cesárea no parto acabou resultando, segundo alegou a vítima, na morte do bebê.

O estudo "O médico e a Justiça: um estudo sobre ações judiciais relacionadas ao exercício profissional da Medicina", que será apresentado na tarde de hoje, em São Paulo, engloba decisões do Tribunal de Justiça de São Paulo, do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal.

FONTE: Terra

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Bibliografia comentada sobre a assistência ao parto no Brasil (1972-2002)


escrito por: Tricia em quinta-feira, dezembro 14, 2006 às 9:47 AM.

An annotated bibliography on childbirth in Brazil (1972-2002)

Maria Lucia Mott (Org.)
Centro Universitário Adventista


RESUMO

A organização desta bibliografia teve por objetivos: 1) divulgar trabalhos sobre a assistência ao parto no Brasil, produzidos em diferentes áreas de conhecimento (história, antropologia, enfermagem, medicina, assistência social, psicologia e sociologia); 2) colocar em contacto pesquisadores que trabalham o tema; 3) dar espaço para assuntos, abordagens e autores não contemplados no dossiê. Foram referenciados e resumidos 77 trabalhos (artigos, dissertações, teses, relatórios, cartilha), produzidos por cerca de 50 autores, publicados ou realizados entre 1972 e 2002.

Palavras-chave: assistência ao parto, bibliografia, Brasil (1972-2002).

ABSTRACT

The organization of this bibliography aimed at 1) publishing studies on birth assistency in Brazil, produced in different fields of knowledge (history, anthropology, nursing, medicine, social assistance, psychology, and sociology, 2) bringing researchers — on the into contact and 3) opening space for subjects, approaches and authors not included in the Dossier. The list references and summarizes 76 works (papers, theses, dissertations, reports, primers) by about 50 authors, published or produced between 1972 and 2002.

Key words: birth assistency, bibliography, Brazil (1972-2002).





Esta bibliografia tem dupla origem: deve-se, em primeiro lugar, à impossibilidade de o dossiê dar conta, em um único número da revista, dos vários enfoques e recortes sobre a assistência ao parto no Brasil. Em segundo, à multiplicação de pesquisas realizadas nas duas últimas décadas sobre o tema, muitas delas de conhecimento público bastante restrito apesar da qualidade, da importância das propostas e das informações levantadas.

Tornava-se, pois, necessário juntar essa produção multidisciplinar esparsa, colocando em circulação os trabalhos realizados nos diferentes estados brasileiros, por pesquisadores vinculados a centros de pesquisa e universidades, a grupos feministas e a organizações governamentais e não-governamentais.

O levantamento dos trabalhos foi realizado por meio da divulgação de um pedido feito na Internet (grupos de discussão, departamentos universitários, pesquisadores, etc.) para o envio das referências e dos respectivos resumos. Portanto, não foi feita uma pesquisa sistemática em bibliotecas, coleções de revistas, como usualmente são organizadas as bibliografias. A resposta foi muito boa: pesquisadores de várias áreas de conhecimento (história, antropologia, enfermagem, medicina, assistência social, psicologia e sociologia), utilizando distintas abordagens, e de diferentes áreas geográficas do país responderam imediatamente; outros enviaram indicações e resumos de trabalhos de terceiros.1 Vale destacar que a grande maioria dos resumos foi realizada pelos próprios autores; uma parte pequena foi feita por quem indicou a referência; e uma parte menor ainda resultou da transcrição de resumos previamente elaborados (em teses, periódicos, etc.).

Somaram-se, assim, 76 trabalhos (artigos, dissertações, teses, relatórios, cartilha), produzidos por cerca de 50 autores, publicados a partir de 1972.2

Deve ser mencionado que autores, títulos e recortes temáticos importantes, como por exemplo a mortalidade materna, em que não só questões sociais, mas também étnico-racias são consideradas, infelizmente não estão suficientemente contemplados, o que aponta para a necessidade da continuação deste trabalho.

FONTE: Scielo.br

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O renascimento do parto e do amor


escrito por: Tricia em segunda-feira, novembro 20, 2006 às 8:31 AM.


Essa publicação do Michel Odent é simplesmente maravilhosa!!! É um excelente livro sobre todo tipo de amor... e como a ciencia explica a quimica que envolve os processos sexuais, do parto, e do vinculo entre mãe e bebê.

Ah! Também é um ótimo livro para os maridos que não acreditam no que a gente fala... sim, porque convencer o marido de que você quer um parto humanizado natural, dá uma trabalho danado.


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O renascimento do parto. ODENT, Michel. Florianópolis: Saint Germain, 2002.
134 p.

ODENT, Michel. Florianópolis: Saint Germain, 2002. 142 p.A cientificação do amor.


A presença de Michel Odent no Brasil no I Congresso de Ecologia do Parto e do Nascimento em 2002 foi acompanhada do lançamento do livro A cientificação do amor e da reedição revisada e ampliada de O renascimento do parto. Suas obras aliam a informação científica a uma linguagem simples e profundamente sensível, constituindo uma rica contribuição à discussão da humanização da assistência ao parto.

O renascimento do parto é um livro da década de 1980, em que ele relata sua
experiência como diretor de uma maternidade a 100 quilômetros de Paris. Descreve sua aprendizagem com as mulheres e as parteiras sobre a psicofisiologia do parto, provavelmente, como ele diz, por não ter passado por uma formação em obstetrícia. Seus princípios de “simplificação e eliminação de procedimentos desnecessários” da sua abordagem como cirurgião o nortearam em todo seu caminho como obstetra. A observação da busca espontânea das mulheres pela posição vertical no momento da expulsão levou-o a questionar o uso da mesa obstétrica, com a conseqüente passividade da mulher, e as dificuldades provocadas pelo parto horizontal. A construção de uma sala com uma cama larga e baixa, com cores quentes nas paredes, pouca luz, privacidade e silêncio, constituiu o que chamou de o “primeiro passo concreto para devolver o parto às mulheres”. Nessas condições elas poderiam se sentir livres física e emocionalmente para agir e se movimentarem.
Com o objetivo de promover o relaxamento e a entrega emocional das mulheres nesse período, surgiu o parto na água, sem que este fosse o objetivo, mas uma conseqüência do respeito ao desejo de as mulheres permanecerem na piscina na hora da expulsão do bebê. Todas as ações estavam inseridas em um ambiente institucional receptivo, afetivo e facilitador da intimidade entre a clientela e a equipe.

O livro é recheado de depoimentos e fotos calorosas de cenas de parto que nos emocionam e nos estimulam a propiciar essa experiência a todas as mulheres. Nessas condições, o autor evidencia como a mulher tem capacidade de parir se não atrapalharmos sua vivência. Torna claro como o ambiente ajuda a mulher a criar a própria ocitocina e endorfinas necessárias nesse processo. Desenvolve uma análise sobre como a estimulação química das contrações, a episiotomia, a analgesia, a obrigação de ficar na posição deitada, a amniotomia, o uso da palavra “Força!” e até
mesmo o treinamento de específicas respirações atrapalham a fisiologia do parto e a
espontaneidade da mulher. Desmistifica ainda a idéia de que o parto de cócoras e na água sejam
apenas voltados para as mulheres consideradas de baixo risco.
Para que a parturiente possa entrar em contato consigo mesma, condição necessária para o bom transcurso do parto, quem a estiver assistindo precisa exercitar também o contato consigo mesma/o. Esse é um belo ensinamento que Michel Odent oferece não só para o trabalho com o parto mas também para as diversas relações de cuidado com o ser humano, tais como as psicoterapias e diversas terapêuticas corporais. Odent é claro defensor de que a assistência ao parto seja realizada por parteiras, questão polêmica, entendendo que elas estão mais qualificadas emocionalmente para lidarem com a intensidade da experiência da mulher nesse momento e serem menos intervencionistas que os médicos.

A compreensão do parto como parte integrante da vida sexual e emocional da mulher proposta em O renascimento do parto é aprofundada em A cientificação do amor, obra datada do ano 2000. Neste livro, com uma abordagem profunda e interdisciplinar da vinculação amorosa, apresenta a compreensão das bases fisiológicas e a integração entre diferentes momentos da vida: o sexo, o parto, a amamentação e o amor romântico. Com uma linguagem simples, mas com riqueza de referências científicas, esta obra reflete em parte seu trabalho no Primal Health Research Center,1 em que são apresentadas pesquisas sobre a relação entre os diversos distúrbios emocionais (suicídio, anorexia, violência, drogadicção, autismo e esquizofrenia) e a ocorrência de perturbações no período primal, compreendido desde a vida intra-uterina até o primeiro ano de vida. Sua hipótese é a de que o cuidado com a forma como nascemos e com a vinculação amorosa mãe–bebê pode propiciar a construção de uma sociedade mais amorosa, menos destrutiva e de mais respeito pelos seres humanos e pela natureza. Propõe uma compreensão holística do nascimento, mostrando as relações entre os estados orgásticos, o parto, as diferentes formas de amor, a oração e as emoções místicas. O contato das mulheres consigo mesmas durante o processo do parto é fundamental. Nessa situação, as funções intelectuais neocorticais devem estar colocadas em segundo plano, facilitando a expressão de funções cerebrais mais instintivas, características do parto e do aleitamento. Observa como as mulheres
costumam entrar em estado especial de consciência, similar às emoções místicas e ao orgasmo.
Através de uma integração dos conhecimentos, indica uma possibilidade de reconexão do homem com as diversas partes de si mesmo.
Nesse sentido, Odent atravessa diferentes temas, sempre na busca da compreensão do que seria mais fisiológico na forma humana de amar e de nascer. Passa pela atração dos seres humanos pela água dentro da história evolutiva da nossa espécie, explicando como ela facilita o parto e a lactação; discute o nascimento de Jesus como modelo de encontro mãe–bebê e aprofunda a discussão sobre a recuperação da natureza biológica do nascimento.
Nessa nova edição apresenta ainda uma discussão sobre os distúrbios clínicos na gravidez, entendidos como conflitos na fisiologia da mãe e do bebê. Sua obra traz uma grande contribuição para o encontro da mulher com sua corporalidade, diminuindo a dissociação corpo–mente tão
incrementada na nossa cultura. Traz o desafio de compreendermos o biológico sem dissociá-lo os elementos culturais da formação das famílias. Nesse sentido, devemos refletir sobre suas atuais
colocações2 a respeito dos possíveis prejuízos da participação do pai do bebê no nascimento.
Apesar de ter sido tão estimulador dessa prática, apresentando várias fotos de pais apoiando as mulheres em O renascimento do parto, hoje ele discute que a presença do pai ou uma acompanhante pode prejudicar o processo de introspeção e entrega emocional da mulher. Buscando preservar a entrega da mulher ao parto, refere-se ao estímulo das funções intelectuais do néocortex com a presença de observador que coloque palavras e atitudes inadequadas.
Apesar de reconhecer que os maridos sejam a referência emocional das mulheres nas famílias nucleares urbanas, Odent não considera que os homens, segundo sua observação nos partos, teriam condições de acompanhar a experiência profunda de uma mulher em trabalho de parto. Exemplifica para a sua discussão o parto de animais e de seres humanos em diferentes culturas em que os machos são excluídos. Suas palavras nos remetem a uma compreensão essencialista de gênero, pautada no modelo de masculinidade hegemônica, em que os homens não teriam
sensibilidade e afetividade para acompanhar a vivência das mulheres, e em que caberia apenas a elas o cuidado com as crianças.
Nessa discussão, não podemos nos esquecer do envolvimento dos fatores psicossociais presentes em cada experiência humana. As pesquisas com pais participantes do parto3 revelam o valor do suporte emocional que eles podem oferecer às mulheres, já que o pai costuma ser a única pessoa
presente na sala de parto voltada exclusivamente para atenção ao estado emocional da gestante.
Além disso, a participação dos pais possibilita o compartilhamento do nascimento pelo casal em um período de crise com a chegada de um filho e o exercício da solidariedade entre homens e mulheres. Oferece ainda a oportunidade para a formação de vínculos pais–bebês, propiciando
uma experiência importante de uma paternidade afetiva na construção de novos modelos para a
masculinidade.4

Considerando a presente luta pelo direito da mulher de escolha de seu/sua acompanhante
no parto, a reflexão sobre o questionamento proposto por Odent indica a importância de que
os/as acompanhantes sejam preparados com informações e sensibilização para a experiência.
Além disso, as equipes obstétricas e pediátricas precisam ser treinadas para lidar com a família e a profundidade emocional do nascimento. A colocação dessa questão por Odent nos remete
ao desafio para a sua proposta de abordagem ecológica do nascimento em que a aliança entre
cultura e natureza deverá estar sempre presente.

Odent é um cientista revolucionário e um visionário da construção do que ele chama de era do Homo ecologicus, em que o cuidado com vinculação entre a mãe e o bebê no período em torno do nascimento possibilitará o desenvolvimento de uma sociedade voltada para o amor, onde o respeito ao outro e à natureza estejam presentes. A leitura de suas obras, sem dúvida alguma, é um grande estímulo para que cada um de nós, profissionais, mães e pais, receba as próximas gerações com mais amor.

1 Ver http:// primalhealth.com.

2 Esse questionamento sobre a participação dos pais
no parto está presente em A cientificação do amor, no
prefácio da segunda edição americana de O
renascimento do parto e no artigo Is the Participation
of the Father Prejudicial to the Birth?, publicado na
Internet em http://wwwçmidwiferytoday.com/fathers/
waterfamily, em 18 de abril de 2001.
3 BERTSCH T. D., NAGASHIMA-WHALEN, L., DYKEMAN, W.,
KENNELL J. H., and MACGRATH, S. “Labor Support by First-
Time Fathers: Direct Observations with a Comparison to
Experienced Doulas”. Journal of Psychosomatic Obstetric
Ginaecology, II, 1990, 251-260. CARVALHO, Maria Luiza
Mello de. A participação do pai no nascimento da
criança: as famílias e os desafios institucionais em uma
maternidade pública. 2001. Dissertação (Mestrado em
Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social) –
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
4 CARVALHO, 2001.

Autora: MARIA LUIZA DE CARVALHO
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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A Formação da Profissão Obstétrica e a Patologização da gravidez e do parto.


escrito por: Tricia em segunda-feira, outubro 23, 2006 às 4:45 PM.


Desde tempos imemoriais as mulheres foram atendidas no parto por outras mulheres. A entrada dos homens no campo necessitou de uma mudança na ordem simbólica e nos aspectos materiais da sociedade. A disputa pelo parto ocorre em vários níveis, mas acontece principalmente “em torno da vida conforme organizada em torno do acontecimento especial do parto.” (Arney, 1982: 22) (Grifo acrescentado).

Para o atendimento ao parto, havia várias mulheres e uma parteira, sendo que a prática destas baseava-se na concepção do nascimento como um processo normal e natural. O nascimento fazia parte da ordem moral do universo e o parto era para ser assistido sem grandes interferências, visto como uma crise pela qual as mulheres tinham que passar. A atitude das mulheres no parto revelava seu caráter moral. O nascimento de natimortos ou deformados indicava uma baixa moral dos pais aos olhos de Deus. Quando ocorria algo anômalo era necessário chamar o cirurgião, homens que usavam instrumentos – geralmente despedaçando o feto (Arney, 1982: 23).

No século XVI, na França, no Hôtel-Dieu iniciam-se aulas para parteiras e inaugura-se uma cooperação entre médicos e parteiras, com a observação de partos. A França provê material para uma abordagem técnico-científica da parturição, ao privilegiar a observação em detrimento da intervenção, neste período. A conceituação do corpo como máquina, no século XVII, reforça esta tendência e possibilita uma abordagem racional-científica do nascimento. Dentro do paradigma corpo-máquina a tarefa do médico no parto seria “manter a máquina funcionando bem” (Arney, 1982: 24). Com a concepção racionalista e a conseqüente disciplinarização do parto obscurece-se a fronteira entre normal e anormal e o parto é compreendido como um processo mecânico contínuo sobre o qual pode-se interferir, ‘melhorando’ seu funcionamento. Esta reformulação da base ideológica das parteiras é, segundo Arney, mais importante do que a invenção do fórceps, para a entrada dos homens na prática dos partos (Arney, 1982: 25). O ‘parto científico’ expande-se para a Inglaterra e, no início do século XVIII, algumas mulheres das classes abastadas optam por parto em hospital realizado por parteiro. Neste sentido o hospital torna-se um recurso organizacional estratégico para a entrada dos parteiros masculinos no campo profissional, até então restrito às mulheres (Arney, 1982: 29). Houve um avanço masculino neste campo profissional e, segundo Arney,

As parteiras não dispunham, como grupo, de um cabedal de conhecimento prescritivo que lhes permitisse repelir os avanços práticos e ideológicos dos homens armados com sua nova ciência. (Arney, 1982: 29).

No século XVIII, o Iluminismo expande-se pela Europa, a ciência é valorizada também na atividade de partejar e, posto que a ciência à época é apanágio e território eminentemente masculino, os homens ganham terreno. A presença masculina no parto, que no passado era associada à morte – os cirurgiões-barbeiros e os parteiros com fórceps só eram convocados pelas parteiras em casos extremos –, é modificada com a nova atividade do parto científico. Para Arney, diversos fatores contribuíram para a entrada gradual e maciça dos homens no mercado de partos. O primeiro deles era o fato de ser uma atividade altamente lucrativa para os homens, que gastavam menos tempo com as parturientes do que as parteiras – em parte graças ao uso de instrumentos, como o fórceps. Parteiros ingleses no século XVIII como, p. ex., William Smellie e William Hunter adquiriram posições de reputação e prestígio social com a prática privada de partos à medida que as mulheres de classes sociais mais abastadas passaram a optar pelo parto em hospital assistidas por estes profissionais (Arney, 1982: 28, 29). Outro aspecto apontado por Arney é mais sutil e complexo: as antigas práticas de parto continham uma atmosfera de mistério e medo, quando não de terror. As parteiras lidavam com o mistério, e quando os homens eram convocados com seus instrumentos instalava-se o terror. Nas palavras de Hugh Chamberlen, um parteiro desta época, “Quando o homem chega, um ou ambos [mãe ou feto] necessariamente vai morrer” (Wertz & Wertz, 1977 apud Arney, 1982: 33). Smellie, em meados do século XVIII, criou programas para parteiros instando-os a adotarem práticas menos destruidoras, e com o avanço de atendimento de parteiros em partos normais, em especial nas camadas aristocráticas e da alta burguesia – de maior visibilidade social –, a associação entre parteiros e morte foi perdendo força. A atividade de partejar funcionava também como porta de entrada dos homens na prática da clínica geral. À medida que os homens aprenderam a realizar partos sem danificar bebês e mulheres, tornaram-se aceitos como assistentes do parto e como curadores. Contudo, o medo em torno de gravidez e parto manteve-se e pode ter servido como base para a construção da noção de gravidez e parto como patologias, um conceito que foi fundamental para que os homens obtivessem o controle sobre o parto nos séculos seguintes (Arney, 1982: 33).

A construção do campo profissional da obstetrícia diferiu entre Inglaterra, França e Estados Unidos – os países abordados por Arney em seu estudo. O autor aponta que as parteiras declinaram mais rapidamente na América do que na Inglaterra, e faz a ressalva de que este dado pode ser devido a um artefato de registro. A prática de partos era um modo eficaz de a medicina entrar nas famílias, além de ser uma atividade muito lucrativa se comparada com outros campos da profissão (Arney, 1982: 40).

A noção de gravidez e parto como patologias, associada à valorização das práticas científicas relacionadas ao corpo abrem o caminho para a apropriação deste campo pela medicina. Outros fatores tiveram um relevante papel na construção deste quadro, passo a esboçá-los brevemente. De acordo com Foucault, no século XVIII, a medicina – como técnica geral de saúde, mais do que apenas o cuidado e cura das doenças – expande-se como função direta do grande crescimento demográfico do Ocidente europeu e da necessidade de coordená-lo através do surgimento do conceito de “população”. Este conceito surge não apenas como um problema teórico, mas como “objeto de vigilância, análise, intervenções, operações transformadoras” (Foucault, 1998b: 198, 202). O bem-estar físico e o crescimento das populações surgem como objetivos políticos, e a importância que a medicina adquire no século XVIII tem sua origem, segundo Foucault, no “cruzamento de uma nova economia ‘analítica’ da assistência com a emergência de uma ‘polícia’ geral da saúde” (Foucault, 1998b: 197). A “noso-política” surge no século XVIII, resultante de um problema multifacetado: o estado de saúde da população como um todo, tomado enquanto objetivo político geral, um encargo coletivo (Foucault, 1998b: 195). Foucault frisa que a iniciativa, organização e controle da noso-política encontram-se espalhados por todo o tecido social, não estando restritos ao aparelho de Estado, e a medicina funciona como ponta-de-lança nesse processo. Esta nova política médica difunde-se gradualmente por toda a Europa a partir do século XVIII e tem como reflexo a “organização (...) do complexo família-filhos, como instância primeira e imediata da medicalização dos indivíduos” (Foucault, 1998b: 200). Desta maneira, a criança – o futuro da população – passa a ser foco de uma atenção estratégica e, sobretudo, medicalizada. A família deve tornar-se o meio favorável à proteção e desenvolvimento da criança, e o laço conjugal passa a existir principalmente para servir de matriz ao futuro adulto. Em função do papel fundamental da mulher na gestação e no cuidado com a saúde dos filhos acentua-se concomitantemente a progressiva medicalização do corpo da mulher. Na expressão de Foucault, a família no século XVIII torna-se alvo de “um grande empreendimento de aculturação médica” (Foucault, 1998b: 200). O movimento higiênico que, no decorrer do século XIX, consolidou-se de forma hegemônica no Ocidente e teve seu auge nos anos 30 do século XX, constituiu-se como a via principal de construção de um novo paradigma.

O principal compromisso de um casal era com os filhos, em especial com a saúde destes. A nova mãe ‘higiênica’, responsável principal pela sobrevivência da prole e pela manutenção do casamento, envolvida primordialmente com a esfera doméstica, encontra nos médicos (ou é por eles encontrada como) a grande aliança (Costa, 1979: 255pp). Neste contexto o médico adquire uma posição altamente prestigiosa, posto que, ao mesmo tempo atende, orienta, cuida e ainda mantém intactas as estruturas sociais de poder, na realidade praticamente investindo-se do bio-poder.

No tocante à questão da estruturação da profissão, segundo Arney, no decorrer do século XIX as parteiras estavam mais ocupadas com suas práticas e com suas parturientes do que em estabelecer um corpo de conhecimento ou uma organização profissional. Assim, foram gradualmente sendo destituídas da prática dos partos. Nos Estados Unidos, a ciência foi muito mais importante para o estabelecimento da medicina como profissão do que na Inglaterra, tendo sido utilizada como pedra angular das grandes escolas médicas. Mais do que um marco para a divisão de sexos, a ciência foi fundamental para os praticantes masculinos conseguirem ultrapassar as barreiras da modéstia e do decoro. A patologização da gravidez tem um papel de destaque para a entrada de parteiros homens no mercado do parto. O parto científico realizado por médicos sublinhava a importância da ‘segurança’ de partos realizados por homens ao invés de parteiras, mulheres. Aliado a este aspecto, havia a associação entre o parto natural como uma prática dos selvagens e os argumentos evolucionistas importados da Inglaterra alicerçavam a noção de que, com a civilização avançando, a ‘natureza’ necessariamente se retraía e as mulheres perdiam a habilidade ‘natural’ de parirem com o mínimo de ajuda. Deste modo, a patologização do parto adquiria uma conotação positiva, nos Estados Unidos, pois definitivamente as mulheres americanas não queriam ter partos como as selvagens (Arney, 1982: 43). De acordo com Arney, as principais contribuições americanas para a formação da profissão da obstetrícia foram a medicalização e patologização da gravidez. É introduzida a anestesia com éter em 1842, para eliminar “as dores intoleráveis do parto”. Com a introdução da anestesia, a participação da mulher no parto é também eliminada, e isso ao mesmo tempo facilita a tarefa do médico e reforça a idéia de que o parto, para ser seguro, deve ser manejado por estes profissionais; concomitantemente torna-se necessária a utilização de instrumentos e de pessoas habilitadas para usá-los apropriadamente. A introdução do uso de ergotamina neste período, para acelerar o parto, foi mais um reforço no processo de medicalização deste, pois os riscos de tetanismo e de uma ruptura uterina reforçaram a necessidade da presença de médicos na parturição (Arney, 1982: 44).

Um problema na formação da profissão consistiu em que obstetrícia entrava no monopólio do parto pela via da patologia, mas nem todos os partos eram patológicos. Considerando a parturição como chave para o projeto obstétrico, a “normalidade residual” do parto tornava-se um problema para este projeto. Fazia-se necessário o desenvolvimento de meios para antever problemas e agir profilaticamente. Arney aponta que a Inglaterra e os Estados Unidos lidaram de modo diferente em relação à “normalidade residual”, em função de diferentes estruturações da profissão em cada país. Na Inglaterra, a obstetrícia tinha fronteiras fortemente demarcadas como profissão e os médicos atuavam tanto quanto as parteiras supervisionadas, enquanto nos EUA a obstetrícia era fracamente demarcada como profissão, mas em contrapartida a profissão médica estava fortemente demarcada: os partos eram feitos por generalistas e obstetras, mas sempre médicos. Esta diferença na rigidez das fronteiras profissionais influenciou as práticas do início da obstetrícia, posto que através delas a profissão estendeu seu alcance de modo a incluir os partos que fossem “potencialmente anormais”, além dos nitidamente patológicos (Arney, 1982: 51).

Nos EUA as práticas desenvolvidas pela especialidade rapidamente difundiram-se e tornaram-se rotina em todos os partos. Na Inglaterra, os especialistas médicos desenvolveram práticas nos partos complicados diferentes das que eram utilizadas nos partos sem complicações, e estas práticas permaneceram do lado médico da especialidade, não sendo utilizadas pelas parteiras. Arney aponta que fronteiras profissionais fortes e bem delimitadas tendem a conter as práticas por ela utilizadas, enquanto fronteiras fracas permitem uma difusão mais rápida para a prática geral (Arney, 1982: 52). Nos Estados Unidos, em fins do século XIX, as camadas pobres da população eram atendidas por parteiras, e alguns dados de pesquisas mostravam que estes partos eram mais seguros do que os ocorridos nas camadas da população que tinham acesso às intervenções médicas. A saída retórica para este problema consistiu, segundo Arney, em a profissão admitir que o parto era um evento “essencialmente normal e natural”, mas que havia sempre a possibilidade de algo sair errado. Desse modo, revestia-se de uma “dignidade patológica” (Arney, 1982: 54).

Joseph Bolivar DeLee é considerado um ícone de uma poderosa escola dentro da obstetrícia americana, a do “nascimento como patologia”. DeLee mostrava-se preocupado com o “potencial patológico” do parto, e com os “perigos do parto” para o bebê (Arney, 1982: 55). Em contraposição a ele, J. Whitridge Williams colocava-se como defensor de práticas mais conservadoras, mas o ponto de partida de ambos é o mesmo: o parto visto como potencialmente patológico (Arney, 1982: 57). Há inúmeros debates, com posições intermediárias entre os dois obstetras – ambos autores de influentes manuais de obstetrícia, com inúmeras reedições até os dias atuais –, verdadeiras batalhas pelo estabelecimento do campo profissional.

Em 1930 a posição de DeLee prevaleceu e o American Board of Obstetrics and Gynecology foi criado, desenvolvendo critérios para julgar a qualificação de especialistas. Com a profissão adquirindo status de especialidade, o olhar médico estreita-se, o “caso obstétrico” é destacado da pessoa e o “material obstétrico” é confinado ao útero e pelve (Arney, 1982: 59). À estruturação da obstetrícia como especialidade corresponde, portanto, uma construção social fragmentada da mulher, de sua vida e de seu corpo.

O modo de compreender e lidar com o corpo feminino, a gravidez e o parto articula-se de modo estreito à formação da obstetrícia como profissão em diferentes locais, em especial EUA e Inglaterra. Nos EUA esta visão tendeu a ser mais fragmentada, medicalizada e patologizada do que na Inglaterra.

Trecho retirado da Tese de:
** Lilian Krakowiski
Mestre em Saúde Coletiva e doutoranda do PPGSC do IMS/UERJ
Bolsista FAPERJ
Contato: liliank@cremerj.com.br;

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