Depressão pós-parto


escrito por: Tricia em sexta-feira, novembro 03, 2006 às 4:58 PM.

Sara procurou ajuda psicológica três semanas após o nascimento do seu primeiro bebé, que nasceu saudável e se desenvolve como qualquer outro recém-nascido naquela idade. “Não me sinto capaz de tratar do meu bebé. Ele chora muito e eu nem sempre consigo consolá--lo. Não sei se tem fome ou frio. Eu acho que... não sei ser boa mãe. Dou comigo a chorar, agarrada a ele e sinto-me confusa: deveria sentir-me feliz por ser mãe de um bebé tão bonito, mas sinto-me perdida, cansada, triste, culpabilizada, com medo de o perder se tomar uma decisão errada, se o deixar cair... se a forma como o amamento não é a melhor, se ele não adquire mais peso, se adoecer... Sinto-me um desastre enquanto mãe. Não estava preparada para isto. Sinto-me mal quando estou sozinha com ele e pior ainda quando toda a gente me dá conselhos como devo tratar dele. Sinto-me desesperada, não durmo, não me apetece cuidar de mim, sou uma inútil... Vim até aqui porque o pediatra me aconselhou. Ele diz que o bebé está bem, eu é que não estou. Por favor, ajude-me.”

Sara é uma entre oito mulheres que em cada cem puérperas, sofre de depressão pós-parto. Convém lembrar que atitudes, expectativas, sentimentos e emoções medeiam Gravidez e Maternidade. Estes dois conceitos são habitualmente confundidos por muitos e tomados como sinónimos quando, de facto, são em si duas realidades e vivências bem distintas, tecidas que são em imaginários diferentes.

A Gravidez refere-se ao período de aproximadamente 40 semanas que vai da concepção ao parto. A mulher experimenta alterações físicas espectaculares e visíveis que acarretam vivências psicológicas particulares. Tudo se passa “dentro” da própria mulher. Daí que a gravidez se constitua como um momento particular de retorno a si própria, de algum narcisismo saudável, de um investimento maciço no próprio corpo, na sua imagem, no que ele contém: Vida. A gravidez é também, consciente ou inconscientemente, vivida pela mulher como uma confirmação da sua identidade sexual como mulher.

A Maternidade, entretanto, assume-se como um projecto de longo prazo (no mínimo 18 anos) que envolve a prestação de cuidados e a dádiva de amor, de valores que possibilitem um desenvolvimento sadio e harmonioso à criança recém-nascida. Requer iniciativas, actuações, disponibilidade, responsabilizações, abnegação. Requer que, mais do que se desejar ter um filho, se deseje ser mãe.

Ora, o desejo de se ter um filho e o desejo de se ser mãe, nem sempre são coincidentes. O período crítico de stresse físico e psicológico não termina com o parto – acontecimento que transforma a gravidez em maternidade. O puerpério é período de emoções intensas e variadas que implicam novas transformações fisiológicas, da relação, ritmo e rotina familiar, nem sempre antecipadamente previstas. Se a leitora foi recentemente mãe e se sente vulnerável psicologicamente neste período, deixe-nos ajudá-la a compreender que esta vulnerabilidade é uma vivência muito mais comum do que pode supor.

O que são Baby Blues?¹

Desejou tanto este momento feliz da sua vida, o nascimento do seu bebé, todos os amigos e familiares a cercam de atenções e conselhos, o seu sonho de começar a construir a sua própria família é agora uma realidade – então porque é que se sente tão infeliz?

Não se sinta alarmada. Está a sofrer de uma forma comum de depressão pós-parto que começa geralmente a manifestar-se por volta do terceiro dia após o parto e pode permanecer durante 10 a 14 dias. Os sintomas mais frequentes são chorar sem razão, irritabilidade e o sentir-se “em baixo”. Estes sintomas poderão ter pouco a ver com a personalidade da mulher. Pode tratar-se de alguém que noutra situação de stresse emocional, não se deprima com facilidade. Estudos apontam para que a causa mais frequente para os baby blues seja a descida abrupta dos elevados níveis de progesterona que ocorre no corpo da mulher após o parto, níveis estes pouco detectáveis no sangue nesta altura. Esta alteração drástica pode produzir um impacto tremendo nas emoções da puérpera. Aproximadamente 50 a 80% das mulheres, quer seja no primeiro ou no décimo parto, podem experienciar “baby blues”. Para além dos sintomas referidos, 10 a 15% das mulheres com este síndroma podem desenvolver um nível depressivo mais intenso caracterizado por alguns destes sintomas:

- Sentimentos de inadequação / incapacidade;
- Dificuldade em tomar decisões;
- Medo de ficar só;
- Sentimentos de rejeição em relação ao bebé;
- Desejo de deixar a família;
- Ataques de pânico;
- Medo e ansiedade;
- Sentimentos de falta de controlo;
- Falta de interesse por actividades anteriormente apreciadas;
- Pesadelos, etc.;


Se tem este tipo de vivências, é importante para si sentir-se apoiada agora por aqueles que a rodeiam, especialmente pelo seu cônjuge. Necessita de ser tão acarinhada como o seu bebé. Lembre-se que, na maior parte dos casos, este tipo de alteração do humor passará por si próprio. Procure descansar e alimentar-se regularmente para evitar hipoglicémia e permitir aumentar a sua resistência às novas solicitações. Alguns destes sintomas, sentidos de uma forma não persistente, são modos de adaptação à maternidade. Se eles persistirem, indicam que necessita de tratamento e acompanhamento psicológico.

O que é a Depressão Pós-parto?

A Depressão Pós-Parto (DPP) pode ter lugar alguns dias ou mesmo meses após o nascimento. Tal como os baby blues, pode aparecer após o nascimento de um primeiro filho ou depois dos partos subsequentes. Estudos recentes apontam para que uma mulher geralmente com sintomas depressivos terá mais hipóteses de ter DPP. Os sintomas da DPP são similares aos vivenciados durante os baby blues – tristeza, desespero, ansiedade, irritabilidade, sentimentos de incapacidade, insónias, etc. – mas a mulher sente-os de uma forma mais agressiva e prolongada. A DPP pode muitas vezes impedir uma mulher de realizar as actividades do dia-a-dia e de cuidar do bebé de uma forma adequada. Quando as capacidades para lidar com as tarefas quotidianas estão afectadas, pode dizer-se que é um sinal de que a mulher necessita de aconselhamento psicológico e medicamentoso para aumentar o seu bem-estar. Se uma mulher nestas condições não se tratar, os sintomas agudizam--se e podem persistir para além de um ano.

Para além dos sintomas descritos, podem acrescentar-se outros:
- Astenia, cansaço e irritabilidade;
- Dores de cabeça, dores no peito, palpitações cardíacas;
- Perda ou aumento da vontade de comer com consequente emagrecimento ou ganho excessivo de peso;
- Desinteresse sexual;
- Labilidade emocional (variações bruscas de humor);
- Preocupação excessiva ou total desinteresse pelo bebé;
- Sentir-se desvalorizada ou culpada;
- Medo de se magoar ou de magoar o bebé.

S&L


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a DEPRESSÃO PÓS-PARTO tem cura! Saiba como!

É imprescindível saber que a DPP é tratável e tem cura. O tipo de tratamento depende da severidade dos sintomas, podendo-se tratar com antidepresssivos e psicoterapia.

Que fazer em caso de Depressão Pós-Parto?
O principal é saber que se tem DPP, há cuidados que tem de ter consigo para melhorar o seu bem-estar:

- Tente descansar enquanto o bebé dorme;
- Pare de exigir demasiado de si própria. Faça o que pode e deixe o que é secundário;
- Fale com o seu marido, amigos e família sobre aquilo que sente;
- Não fique muito tempo sozinha. Vista-se e saia de casa. Dê pequenos passeios com o bebé ou sozinha, depois de deixar o bebé aos cuidados de alguém;
- Passe tempo de qualidade a sós com o seu cônjuge;
- Peça ajuda ao seu médico e não tenha vergonha de lhe contar o que sente. Ele encaminhá-la-á para um especialista habilitado a lidar com a sua situação;
- Converse com outras mulheres que já passaram pelas vivências do pós-parto e aprenda com as suas experiências.

Em Portugal pouco se conhece sobre associações ou grupos de interajuda de mulheres que vivenciam DPP. Se se sentir com coragem, crie um grupo de interajuda. O efeito será multiplicador.

O que é a Psicose Pós-Parto?

Abordá-la-emos de uma forma mais breve, também, porque felizmente é a forma menos frequente, embora a mais grave, de adoecer psicologicamente após o parto. Esta doença pode manifestar-se imediatamente, com mais frequência nos 3 primeiros meses do pós--parto. A mulher pode perder o contacto com a realidade, ter alucinações auditivas (ouvir vozes, obedecer-lhes, etc.) e visuais (ver as coisas de uma forma diferente das outras pessoas e até coisas que não existem). Podem-se juntar outros sintomas como ideias delirantes, agitação, cólera, pensamentos e comportamentos bizarros. Se a mulher tem psicose pós-parto necessita de tratamento médico imediato, mesmo que a própria negue esta necessidade, podendo precisar de internamento, pelos riscos que esta doença acarreta para si, para o bebé e para os outros.

Por vezes ouvimos notícias que nos chocam de mães que maltratam o bebé e outros filhos até à morte e que por fim se suicidam. Esta desordem psicológica que reflecte uma personalidade pré-mórbida, já doente antes do parto, e a falta de um ambiente familiar “contentor” de emoções podem estar na origem destas tragédias humanas.

É ao longo da gravidez que a mulher deve fazer a individualização do seu bebé para que no momento da diferenciação do parto, a separação física e emocional se integrem e o nascimento não seja sentido como perda de parte de si e o filho considerado uma projecção ou prolongamento de si mesma. A gravidez e o puerpério determinam uma vulnerabilidade psicológica na mulher que experimenta nestes períodos uma crise de maturação normal e organizativa através de modificações psicológicas que lhe são próprias. A mulher vai ter de “fazer o luto” do bebé imaginário (que trouxe no seu ventre ) para se relacionar com o bebé real. Ser mãe na espécie humana não é a tradução de um instinto, mas um processo de aprendizagem. Existe uma evidência considerável de que o ajustamento psicológico e afectivo da mulher esteja fortemente associado à DPP. Tal situação depende em grande medida da carência de apoio social, especialmente dos familiares mais próximos. A percepção que a mulher tem do seu relacionamento marital, avaliado no seu grau de satisfação em termos de proximidade do relacionamento e do apoio do cônjuge, está relacionada com a sintomatologia depressiva durante a gravidez e após o parto.

Mulheres que sentem níveis elevados de stresse durante a gestação e após o parto e/ou que carecem de um cônjuge confidente e disposto a auxiliar nas tarefas familiares e cuidados com o bebé, parecem estar particularmente vulneráveis ao desenvolvimento da depressão pós-parto.

Não exija demasiado da sua nova função e tire o máximo partido desta experiência irrepetível, tendo consciência dos seus próprios limites e, por favor, não sinta vergonha: peça ajuda!

S&L

Bibliografia
Cox, W. (1997) Coping with Post-Partum Depression – Women Face Emotional Abyss After Birth http://www.wellmother.com/articles/copingppd.htm
Cruz, M.M.(1990) Encantos e Desencantos da Maternidade, Análise Psicológica 4(VIII):367-370.
DSM – IV – TR – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – American Psychiatric Association, 4ª ed. Climepsi Ed., 2002.
Nightingale, L.V. (1998) What Are The “Baby Blues”;
http://www.nightgalerose.com/free/baby.htm
O’Hara, M.W.(1987) Postpartum Blues, Depression and Psychosis: a Review. Journal of Psychosomatic, Obstetrics & Gynecology, 7:205-227.
Post Partum Depression;
http://www.4woman.gov/faq/postpartum.htm
Tavares, L. (1990) Depressão e Relacionamento Conjugal Durante a Gravidez e o Pós-Parto, Análise Psicológica, 4(VIII):389-398.
Your Emotion Well-Being: Understanding The Blues
http://www.duke.edu/~bkc/thml/webdoc7.htm

Lília Tavares - Psicóloga Clínica
* Exerce a sua actividade profissional numa entidade de reabilitação no concelho de Sintra.

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3 Respostas a “Depressão pós-parto”

  1. # Anonymous Anônimo

    Eu já pedi ajuda, mas parece que ninguém liga... já não aguento mais tanta tristeza e até me irrita ficar com as minhas filhas, uma de cinco meses e outra de quatro anos, e quando falo para meu esposo que preciso ir ao psicologo ou psiquiatra ele fala que é bobagem, já tomei até remédio para ver se eu apagava pelo menos por uns dias, mas não funcionou, não sei mais o que fazer, sera que alguém pode me ajudar??  

  2. # Anonymous Anônimo

    Querida, minha filha está passando também por isso, está agressiva com o marido e dispricente com o filhinho de 9 meses. primeiro, estou me agarrando às mãos de Deus para que nos oriente e já tomei decisão de encaminhá-la a um psiquiatra, ainda esta semana, pois a ciência e todo tipo de sabedoria e conhecimento do bem estão ligados ao nosso Pai Criador. Se for católica, peça ajuda também à Nossa Senhora, Mãe de Jesus.Vá rapidinho ao psiquiatra, minha filha e se Deus quiser, tudo vai ficar bem e você será feliz novamente. Abraço de Ana maria  

  3. # Anonymous Anônimo

    Estou passando pela mesma doença, tanto que chego a ter medo do bebê. é horrível, não sei se gosto dele, alguns dias gosto no outro nem sinto nada. os ruidos que ele faz me assustam muito, entro em pânico quando chora como se fosse um leão rugindo no quarto e não um bebezinho lindo. minha vida acabou e não suporto a ideia de não amar meu proprio filho.
     

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Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


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