De quem é a responsabilidade do parto?


escrito por: Tricia em terça-feira, setembro 02, 2014 às 12:53 PM.

Quando eu tive a minha primeira experiência de não-parir, em 2004, a mágoa e a frustração eram tão intensas que fiquei revoltada com todo mundo da humanização. Mandei um texto esculhambando médico, doula, enfermeira, listas de discussão, colegas virtuais, todos. Mas isso realmente adiantou? Nada.  Porque a responsabilidade de parir era minha, e de mais ninguém. Demorei uma década pra compreender a dimensão desse conselho.

Dez anos e mais duas experiências depois, tive a certeza de que a culpa pela minha primeira cesárea foi única e exclusivamente minha. E a segunda também. Sim, mas a segunda foi necessárea, eu tive eclampsia. Sim, mas eu não poderia ter mudado de medico ainda no pré-natal? Não poderia ter melhorado a alimentação? Ter trabalhado o meu lado emocional? São tantos “se...”

Não posso, nem devo, ficar jogando a responsabilidade de parir (nem de criar, nem de alimentar meus filhos, nem de cuidar de um deles doente) pro médico (cesarista fofinho, ou pediatra), pra doula que não fez nada e ficou passando a mão na minha cabeça dizendo que eu não seria menos mãe por causa daquela cesárea, nem muito menos pra minha mãe que dizia que parto normal não era pra mim. Não. A responsabilidade de mudar o meu destino naquele momento estava nas minhas mãos, porque se eu tivesse me trancado dentro de um quarto, eu teria parido sozinha.

Muitas mulheres (eu, inclusive!) criam no imaginário um parto modelo, romântico, surreal, cheio de borboletas voando, nada de gritos, tudo limpo, cortinas brancas, água morna, marido ali do lado segurando a mão. Esse modelo é alimentado durante a gestação e quando chega o grande momento, a mulher esquece de por os pés no chão e leva uma dura queda de paradigma: a realidade é outra.

Você nunca vai saber o que é a dor do parto até parir um filho, você nunca saberá a reação de uma mulher ao toque, ao carinho até ela chegar no trabalho de parto ativo. Algumas gemem, outras praguejam, outras mordem a equipe. Não tem como saber. Você nunca vai saber como seu filho vai nascer, por mais que você tenha comido salada e suco verde durante os nove meses. Você nunca vai experimentar ver a cor, o cheiro, e o som de um parto acontecendo, sem que passar por tudo aquilo. Porque parto é imprevisível. E a grande graça de ser mãe, é estar preparada para o imprevisível, e amar enfrentar tudo aquilo.

Parir é entregar-se, é aceitar, é doar. A forma mais selvagem de se aproximar de si mesma, dos seus limites (de dor, de consciência, de amor... parir um filho naturalmente é isso. Temos que ter cuidado de não idealizar demais o parto perfeito, pois no grande momento as coisas podem acontecer de uma maneira completamente diferente do planejado, mesmo que seja tudo normal, natural, mas nunca é como imaginamos. E de quem é a culpa? De ninguém. Essa é a vida real. Ou, se mesmo assim quiser culpar alguém, culpe a si mesma. VOCÊ é a única pessoa que pode mudar a própria historia.


Seja sincera consigo mesma. É isso mesmo que você quer? A primeira coisa que eu pensei depois de tomar um banho e deitar na cama pra amamentar minha cria recém-parida foi: “Parto normal não é pra qualquer uma. É muito selvagem”. Sim, querida. Eu compreendo os argumentos das adeptas a cesárea eletiva. Pense nisso. E se você ainda quiser parir, não fique sonhando demais, você pode se decepcionar com a simplicidade do seu parto. E no desenrolar dos fatos, quem pode mudar alguma coisa é somente você. Todo parto é uma lição.

1 Respostas a “De quem é a responsabilidade do parto?”

  1. # Blogger Cecília Vieira

    Lindo texto... Acredito que sim, a responsabilidade é da mulher/família. Sempre que eu dizia que queria ter o bebe em casa as pessoas imediatamente perguntavam "na banheira?". É como se existisse esse padrão determinado também. Agradeço a lucidez de não ter fantasiado coisas desse tipo. Eu tive bola, piscina, vivia falando de parir de cócoras e acabou sendo na cama, na tão difamada posição horizontal. Mas foi perfeito, foi lindo... Tive um primeiro parto no passado em que administraram ocitocina em mim sem necessidade, fizeram episio, mas não me senti violentada. Foi lindo e perfeito também. Mas apenas conhecimento me faz ter escolhas. Foi buscando conhecer que agora eu evitaria sim muitos procedimentos desnecessários. E essa busca por conhecer é uma longa e difícil jornada. Parabéns! Você é uma inspiração e força.  

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Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


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