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Ciclo da Vida


escrito por: Tricia em segunda-feira, fevereiro 06, 2006 às 10:38 AM.

:: Jornal Diário do Nordeste ::
CADERNO VIVA 10 ANOS (2/4/2006)

O começo e o fim da vida. Por que e como humanizar estes momentos decisivos de nossa existência.

São acontecimentos naturais envoltos em mistérios e incertezas. Um festeja a vinda de um novo ser ao mundo. O outro, a partida, a finitude. Por mais difícil que seja aceitar a realidade, o fato cronológico de começo e fim da vida possui muitos pontos de interseção.

Humanizar estes dois momentos de nossa existência, oferecendo conforto e respeito ao semelhante, é um conceito cada vez mais aceito pelas corporações médicas e de enfermagem ao redor do mundo, conforme preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS).

No Brasil, a despeito da morosidade com que são tratadas as questões relativas à saúde, tem-se observado sensíveis mudanças ao longo dos últimos 10 anos, com a criação de grupos atuantes e que gradativamente estão mudando o perfil da relação médico-paciente (e família): a Rede pela Humização do Parto e do Nascimento (ReHuNa) e a Rede Nacional de Tanatologia (RNT), ambas com fortes laços com o Ceará. A primeira, criada em 1993, em Campinas (SP), foi espelhada em parte no programa de humanização da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac), enquanto a segunda, fundada em 1996, tem o psicólogo cearense Aroldo Escudeiro como um de seus apoiadores.

Para iniciar a série de reportagens que marca os 10 anos do Viva, a escolha do tema - humanização - espelha o foco que permeia todas as matérias abordadas pelo caderno. Afinal, humanizar é muito mais do que tratar o outro educadamente. É envolver-se com as pessoas, para melhor entender seus medos, suas alegrias, ansiedades. É solidarizar-se, amar o próximo.

Meninas-mães

O rosto, os sonhos e os gestos são de menina, o corpo em transformação tenta convencer que a infância chegou ao fim. É assim o retrato das “meninas-mães”, adolescentes grávidas que, cada vez mais, engrossam as estatísticas no Brasil. Os dados da Fundação Getúlio Vargas confirmam um aumento no número de partos em meninas de até 14 anos. Entre 1998 e 2002, foram realizados 27 mil partos por ano em meninas-mães, só nas maternidades que integram o Sistema Único de Saúde (SUS).

Marta da Silva Monteiro faz parte dessas estatísticas. Com 15 anos, ela deu à luz ao seu primeiro filho, Maikel, e, aos 17 anos, veio Mikaele. Hoje, aos 19 anos, ela reconhece que teve que amadurecer mais cedo para assumir o papel de mãe. “Se eu pudesse voltar no tempo, teria concluído os estudos, vivido mais e aproveitado minha juventude”.

De acordo com a ginecologista do Serviço para Adolescentes da Meac, Valéria de Oliveira, a infância está sendo encurtada e tanto a menarca quanto a primeira gravidez estão mais precoces. “É como se o ciclo da vida se encurtasse”, já que a iniciação sexual também acontece muito cedo.

Valéria explica que há 20 anos a gravidez na adolescência era considerada de alto risco porque se acreditava que o corpo não estava preparado. No entanto, hoje, a médica afirma que o parto é considerado normal se a adolescente não apresentar problemas de saúde (hipertensão, diabetes, etc). “A natureza é tão maravilhosa que faz com que o corpo se ajuste a esse novo estágio”, afirma. O maior dano é o social porque muitos adolescentes param de estudar para serem pais.

HIPERTENSÃO - Mesmo assim, a cardiologista da Meac Regina Coeli alerta para o alto índice de mortalidade materna em adolescentes gerado por pressão arterial elevada. Em sua pesquisa de mestrado, a médica constatou que é imprescindível a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (Mapa) dessas jovens durante o pré-natal. Segundo Regina Coeli, o exame é fundamental para identificar quem tem propensão a desenvolver o problema e, assim, tomar as medidas preventivas. “Tem muita mulher de 16 anos morrendo e ninguém fala nada”, revela.

A hipertensão arterial é um complicador - em todas as faixas etárias - uma vez que pode causar pré-eclampsia e eclampsia, problemas que podem colocar a vida da gestante em risco. Na adolescência, a hipertensão é muito recorrente devido, principalmente, a alimentação inadequada e ao sobrepeso comuns nos jovens de hoje. A incidência é maior na primeira gestação.

A Maternidade Escola Assis Chateaubriand oferece um serviço específico voltado para as mulheres na adolescência, onde uma equipe formada por médicos, psicólogos e assistentes sociais, realiza um programa educativo e preventivo sobre as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e gravidez.

Pelo natural

Quando lhes é dado o direito de escolha, muitas mulheres ainda escolhem o parto cesáreo. A desinformação, o medo de sentir dores e a indicação “conveniente” de médicos são os principais fatores para essa decisão. Assegurar a saúde da mãe e do bebê sempre será o fator determinante para a escolha do tipo de parto.

O parto normal é natural e deve ser visto pelos médicos e futuras mães como primeira opção. A cesariana só se torna um procedimento seguro quando a mãe e o bebê estão sujeitos a algum tipo de risco, uma vez que a cirurgia pode representar de sete a vinte vezes mais chances de evoluir para infeções e problemas correlatos. Apesar das inúmeras campanhas de esclarecimento realizadas nos últimos anos, pesquisas recentes indicam que as brasileiras ainda acreditam que o parto normal é que oferece maiores riscos.

SEGURANÇA - Raquel Freitas Caminha, 22 anos, é hoje uma defensora do parto normal, mas nem sempre foi assim. Quando ainda estava grávida de sua primeira filha Yasmim, o plano era fazer uma cesariana. “Era para eu ter feito a cirurgia, mas, no dia, mudou tudo. Pude ter uma amiga me acompanhando durante todo o trabalho de parto e foi tudo muito tranqüilo”. Raquel teve uma gestação normal, sem nenhuma complicação e quando chegou ao hospital já estava com seis centímetros de dilatação. Como não sentia muitas dores e estava acompanhada, resolveu mudar os planos.

O medo era de passar muito tempo sentindo dores. Mas ela conta que o parto foi rápido porque ficou caminhando e tomou banho morno, procedimentos que ajudaram a acelerar o trabalho de parto. “Só tive normal porque estava com minha amiga o tempo todo me dando força, pegando na minha mão, conversando comigo. Se ela não tivesse lá, não teria conseguido sozinha”. Após o parto, tudo transcorreu de forma muito calma. Uma hora depois, Raquel já estava sentada - e sem muitas dores - amamentando Yasmim.

OUTRA OPÇÃO - A professora Karinne Nogueira da Costa, 27 anos, há quatro meses deu à luz a seu primeiro filho. Como Raquel, também já estava decidida a fazer o parto cesáreo. “Eu nem cogitei a possibilidade de ter um parto normal. Com toda a tecnologia de hoje não é preciso sentir tantas dores”, defende. Karine não se arrepende da escolha. A decisão foi feita de forma muito segura porque os médicos eram conhecidos e a irmã foi autorizada para acompanhar todo o parto.

Num momento muito importante, em que o medo e ansiedade estão fortemente presentes, elas surgem para oferecer uma mão amiga, uma massagem relaxante ou simplesmente um olhar amoroso. As doulas são como anjos ou mães que acolhem e auxiliam as gestantes na sala de parto. Na Maternidade Escola Assis Chateaubriand, as antigas parteiras que faziam parte do quadro da Meac e se aposentaram foram resgatadas para exercerem o papel de doulas.

Iracema Lopes da Silva, 72 anos, trabalhou como parteira por 33 anos e confessa que desde criança sonhava com essa profissão. “Queria muito ser parteira porque vi minha mãe morrer de parto quando eu tinha oito anos. Prometi que ninguém iria morrer de parto nas minhas mãos”, conta. Segundo ela, o papel da doula é muito importante porque as mulheres chegam à sala de parto sem nenhum conhecimento (muitas são adolescentes), nervosas e “somos nós que oferecemos apoio psicológico e afetivo”.

A larga experiência como parteiras e mães garantem a essas mulheres um grande respeito por parte dos profissionais de saúde (médicos e enfermeiras). No entanto, as doulas passam por treinamentos e cursos periódicos sobre como tratar as mães. A enfermeira obstetra, Ruth Teixeira, reconhece o trabalho das doulas. “Elas assumem o papel de mães. Às vezes você não precisa falar nada. Um toque, um olhar é o que as pacientes estão precisando”, explica.

De acordo com a doula Maria José Simões, 67 anos, muitas adolescentes chegam sozinhas e com medo. “Muitas delas falam: eu quero a minha mãe. Eu digo: pronto, a mamãe chegou”. Ela reconhece que assume o papel de mãe dessas gestantes, dando muito carinho, contando histórias engraçadas para distraí-las, fazem massagens nas costas, levando-as ao banheiro para um banho relaxante, acompanham nas caminhadas pelos corredores do hospital, além de incentivarem a realização de exercícios (no cavalinho ou na bola).

“Adoro ajudar. Todos os dias reservo duas horas para este trabalho com as meninas”, orgulha-se Maria José. O reconhecimento sempre vem depois. As “mãezinhas”, como ela costuma chamar, ficam muito gratas e não esquecem da força a mais que receberam. Segundo Maria José, uma mãe chegou, no Natal passado, com a filha de seis meses que a experiente doula ajudou a botar no mundo. “Fiquei emocionada com o presente. E olha que eu já estou acostumada a ver muita criança nascer”, conta entre risos.

Tempo de delicadeza

Resgatam-se antigas práticas e privilegiam os pais como protagonistas em detrimento da sofisticação e dos recursos tecnológicos. A sutileza e delicadeza de um olhar carinhoso, um toque e uma palavra amiga se tornaram tão importantes quanto a técnica apurada.

Em 2005, o Ministério da Saúde alterou a Lei nº 8.080, de 1990, para garantir às parturientes o direito à presença de um acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do SUS. A lei, além de contribuir para a humanização, também pode ajudar na redução do número de cesarianas que, no Brasil, está entre os mais elevados do mundo. Em 2004, as taxas de parto cesáreo do setor de saúde suplementar, segundo o MS, era cerca de 80%; 27% no SUS. Na Europa a média é de 16%.

A enfermeira obstetra Ruth Teixeira, trabalha há 12 anos nas salas de parto da Meac e viu nascer o projeto de humanização. Ela conta que a enfermeira Isolda Silveira iniciou o projeto em 1992 colocando músicas suaves e relaxantes na sala de parto e a estimular as mulheres a andar e sentar. Mas foi em 1996 que foi lançado o Projeto Luz - uma parceria entre a Secretaria de Saúde do Estado, Ministério da Saúde e a agência japonesa Jica - com o objetivo de melhorar as condições do atendimento materno. “Tentamos intensificar a mudança de posições, principalmente as verticalizadas, como a sentada e em pé porque ajudam a dilatar mais rápido e melhorar a circulação”.

Depois passaram a oferecer cursos de especialização em enfermagem obstétrica para as enfermeiras que fizeram partos, cursos e treinamentos até no Japão. “O próximo passo foi dar maior privacidade para as mães, colocando cortinas entre os leitos. Antes uma ficava de frente para a outra”, lembra Ruth. Foram inseridos novos equipamentos, como bancos especiais, o “cavalinho” e a bola, para que as parturientes diminuam o tempo antes do parto.

Há seis anos, a diretoria da Maternidade convidou todas as antigas parteiras aposentadas que trabalhavam na Meac para voltar às salas de parto. Elas passaram a ajudar as mães prestando apoio emocional, essencial em momentos como este. Essas senhoras assumiram o papel de doulas - que em grego significa “mulher que serve outra mulher”- e com suas experiências de parteiras e mães auxiliam as parturientes, acompanham, seguram a mão, fazem massagens e modificam, com pequenos gestos, o clima e o ambiente do parto. Depois que o bebê nasce, ele é colocado imediatamente em contato com a mãe. O primeiro contato dura cerca de 30 minutos, quando o recém-nascido é colocado próximo ao seio. “É muito emocionante quando a gente coloca o bebê em cima das mãezinhas. Parece que tudo passa. Aí já começa uma relação muito forte entre eles”, completa a enfermeira.

Outra mudança em curso é no sentido de conscientizar as mães - e os próprios médicos - para que o parto normal seja a primeira opção. Indicado por ser o modo menos invasivo e mais natural tanto para a mulher quanto para a criança, o parto normal só não deve ser realizado quando existe risco para o bebê e para a mãe. A mulher é preparada fisicamente e psicologicamente para aquele momento, além de acontecer no instante exato em que ambos estão prontos para o grande momento. Para o bebê, o ato de ser expelido de forma natural proporciona uma massagem e limpeza dos órgãos internos.

Ruth explica que com o parto normal a mulher retoma o papel principal no milagre da vida. “Perdemos muito a autonomia e o poder do nosso corpo. Parece que agora as instituições e os profissionais é que têm esse poder. A própria mulher é quem melhor sabe o poder e força que tem”, reflete.

Outra forma de incentivar o parto natural foi a criação, por lei, dos Centros de Parto Normal, 1999, unidades de saúde que prestam atendimento humanizado e de qualidade.

Serviços

Pré-Parto
- Ambulatório e pré-natal: As futuras mães são acompanhadas por uma equipe de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos, durante todo o pré-natal. A Meac disponibiliza exames, como o HIV, sífilis, ultrassom e consultas médicas.
- Para adolescentes: O atendimento acontece para jovens grávidas ou não. São realizadas palestras educativas sobre prevenção da gravidez e de doenças sexualmente transmissíveis. A adolescente grávida é acompanhada durante todo o pré-natal.
- Planejamento familiar: O programa esclarece as mulheres sobre os métodos contraceptivos.

Parto
- Humanização: Várias condutas são aplicadas para confortar a mãe na hora do parto. Massagens, a presença das doulas, liberdade para caminhar, sentar e ficar no cavalinho ou na bola. Todos os procedimentos priorizam a afetividade, o toque e a conversa, onde a mãe é a protagonista do parto.

Pós-parto
- As mães-adolescentes são orientadas sobre os cuidados com os bebês, sendo incentivadas para o aleitamento materno e encaminhadas para o serviço de planejamento familiar. Além disso, continuam participando de palestras sobre DSTs e prevenção da gravidez.
- Mãe-canguru: O projeto voltado para mães de bebês prematuros oriundos da UTI neo-natal coloca o corpo da mulher como uma incubadora humana. É estimulado o vínculo afetivo entre mãe e filho, incentiva a amamentação, auxiliando a mulher a restabelecer a produção de leite.
- Banco de leite: O serviço colhe e armazena leite materno para os bebês cujas mães não possuem leite suficiente. Também são realizadas campanhas periódicas.

O pai na hora do parto

Há algum tempo o papel do pai se restringia a esperar do lado de fora a mulher dar a luz e, depois, comemorar o nascimento do rebento. No entanto, a tendência hoje é tornar os pais protagonistas desse processo. Com a determinação do Ministério da Saúde de que a parturiente tem o direito assegurado por lei de um acompanhante, alguns pais estão tendo a oportunidade de estar mais presentes desde o início da vida dos filhos.

O produtor musical Cristiano Costa Maia acompanhou sua esposa Elizângela Marques de Castro desde o pré-natal. Grávidos do primeiro filho, os dois decidiram e planejaram toda a gravidez juntos. “Acompanhei todos os exames, ia nas consultas do pré-natal, ajudei a escolher as coisas do bebê e pesquisei os melhores métodos”, conta Cristiano.

Durante o trabalho de parto, Elizângela contou com o apoio e a presença do esposo. “Estava muito nervosa, mas me acalmava quando abria os olhos e via Cristiano ao meu lado”, confessa. O esposo a levou para o cavalinho, segurou a sua mão e lhe deu segurança. Mas para que eles conseguissem ter esse momento juntos não foi nada fácil.

Cristiano conta que teve que argumentar muito com a Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac) para conseguir assistir o parto da esposa. Ele disse que se não soubesse de todos os seus direitos, provavelmente, não teria conseguido. Isso acontece porque a lei concede um período para os hospitais se adaptarem e a Meac está em reforma para garantir a privacidade da paciente e a presença masculina durante o parto.

“Apesar disso, contei com a boa vontade do corpo médico. O atendimento foi muito bom. Além do esperado”, ressalta Cristiano. Com o nascimento da filha Luisa, o produtor musical tirou férias e fica em casa cuidando da pequena. Elizângela disse que o pai já troca fralda, fica acordado à noite com ela e está aprendendo a dar banho. “É maravilhoso o homem acompanhar a esposa desde o pré-natal”, orgulha-se.

FONTE: Jornal Diário do Nordeste (02 de abril de 2006)

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Tricia Cavalcante: Doula na Tradição, formada pela ONG Cais do Parto, mãe de três, e doula pós-parto.Moro em Fortaleza-CE.


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